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Penas de sobra no enxadrismo político tupiniquim

(*) Ucho Haddad

 

 

“Não há nada tão desgraçado na vida da gente que ainda não possa ficar pior.”
Schopenhauer

 

O tabuleiro é sujo, o xadrez é político e as penas são de tucanos. Pode parecer um devaneio do pensamento para alguns, mas eis a realidade que marca o atual momento político nacional. Faltando pouco menos de três anos para a sucessão do presidente Luiz Inácio, a oposição se agita desde já para saber qual das legendas irá encabeçar tão insana luta pelo poder.

Com o rótulo de partidos oposicionistas, PSDB e Democratas agora se engalfinham, isolada e mutuamente, como forma de garantir, cada um ao seu modo, a dianteira nessa corrida em direção ao Palácio do Planalto. Desde os tempos de Tancredo Neves e do Colégio Eleitoral, o Democratas – até bem pouco tempo Partido da Frente Liberal – os democratas sempre surgiram na cena política na condição de coadjuvantes. Ao que parece, eles, os democratas, cansaram dessa segunda fila.

Com o desembarque de Lula da Silva no Palácio do Planalto, em 2003, a oposição – que durante oito anos abusou do situacionismo – tratou de, com a devida anuência do PT palaciano, empurrar a sujeira para debaixo do tapete. Algumas estripulias cardosianas deixaram de ser investigadas, e como contrapartida o presidente Lula teve alguns parcos meses de sossego político.

Passada a quarentena previamente acertada, o chamado chumbo trocado tomou a cena política, cabendo ao PSDB capitanear uma oposição que nem de longe, ou mesmo em sonho, foi republicana. Foi uma oposição chicaneira, irresponsável. Como aqueles bate-bocas que contrapõem as comadres num fundo de quintal de uma periferia qualquer. Coisa de quinta categoria.

Muitas foram as estripulias palacianas que permitiram à oposição dar um espetáculo de competência, mas a caravana da malandragem petista passou sem que os cães oposicionistas ladrassem. Como naqueles enfadonhos e mal feitos filmes ianques de faroeste, o xerife sempre surge depois da fuga do bandido. E assim agiram os partidos da oposição. Contabilizado o estrago, a oposição agiu igualmente ao xerife. Começou a atirar a esmo. E muitos dos tiros acabaram nos pés dos atiradores.

O mesmo Lula que escapou de levar uns sopapos, os quais foram prometidos na tribuna do Senado, acabou dando carona no Aerolula àquele que o ameaçou. E a máscara oposicionista simplesmente despencou. Incompetente no âmbito gerencial, Luiz Inácio Lula da Silva é um manipulador por excelência. Só não foi ventríloquo porque o sindicalismo o abduziu primeiro.

Com o PSDB titubeando como timoneiro da tarefa oposicionista, o PFL, já rebatizado como Democratas, decidiu colocar as mangas políticas de fora. Chamou para si a tarefa de contestar o Palácio do Planalto e seus ocupantes. Para que o enfrentamento tivesse vigor e continuidade, Jorge Bornhausen, então cacique do PFL – hoje é apenas curandeiro – entregou a batuta da legenda aos mais jovens. Com disposição de sobra e talento não tão folgado assim, a juventude obrigou a ala balzaquiana do Democratas a entrar em ação.

Com César Maia deixando em breve a prefeitura carioca, a saída foi apostar todas as fichas em Gilberto Kassab, que sonha em permanecer como imperador da Paulicéia Desvairada, a maior e mais cristalina vitrine política nacional. Sendo assim, o primeiro passo dos democratas – eles exibem um claro ranço republicano – foi contar com o incondicional apoio de José Serra, atual governador paulista, que por ocasião de sua eleição entregou a alcaidia paulistana ao então vice Gilberto Kassab.

Certo tudo estaria se uma revolução no ninho tucano não colocasse em risco as pretensões do DEM, que tem na reeleição de Kassab à prefeitura de São Paulo o mais importante trampolim político do momento. Até dias atrás, José Serra era um forte candidato à sucessão do petista Lula da Silva, mesmo que para isso tivesse de enfrentar a popularidade do mineiro Aécio Neves. Serra declarou apoio a Kassab, como forma de engessar politicamente Geraldo Alckmin, cuja simpatia agrada os eleitores paulistas, já cansados do quase contínuo mau humor do ex-ministro da Saúde de FHC. Assim, Serra estaria garantindo suas futuras pretensões políticas. No caso de perder a parada para Aécio Neves, poderia sonhar com mais quatro anos no Palácio dos Bandeirantes, depois de 2010.

Mas deu errado. Com o excesso de exposição política de Serra, o ex-presidente Fernando Henrique seria isolado dentro do partido. Não passaria de um general de pijama dentro do tucanato. Mas o apego de FHC ao poder obrigou-o a acionar o seu estoque de maldades políticas. E não demorou muito para que Arthur Virgílio, senador pelo PSDB amazonense e líder do partido no Senado, lançasse sua pré-candidatura à presidência. Foi o suficiente para que José Serra, num primeiro momento, afirmasse que Virgílio tem o direito de sonhar com o Palácio do Planalto.

Foi então que Serra, encurralado politicamente, declarou apoio ao mineiro Aécio no seu desejo de suceder Lula da Silva a partir de 2010. Assim, o governador paulista não interrompe sua trajetória política, pois pode concorrer a mais quatro anos de permanência no Palácio dos Bandeirantes. Ao mesmo tempo, Serra impõe limites aos anseios políticos de Geraldo Alckmin, que por enquanto tem chances matemáticas de arrebatar a prefeitura paulistana.

Preocupada com o futuro da legenda, a nata democrata desembarca na mais importante cidade do País nesta terça-feira, 22 de janeiro, decidida a socorrer politicamente o prefeito Gilberto Kassab, que de uns tempos para cá tem se valido do excesso de exposição na mídia para se manter em alta. Diante da pasmaceira do PSDB, o DEM se deu ao direito de atuar como a locomotiva da oposição ao governo Lula da Silva, mas na caldeira da Maria Fumaça democrata falta carvão e sobra pena de tucano. Ou seja, esse trem da oposição “xavantina” ainda vai andar em cima do muro.

E nessa falta de entendimento que sobra no já desgastado matrimônio político-oposicionista, PSDB e DEM mais parecem um “remake” da música “Flor da Idade”, de Chico Buarque de Holanda. Afinal, Serra odeia Geraldo que não gosta de Gilberto que depende de José que apóia Aécio que bajula Fernando que provoca Arthur que desbanca Serra que recebe Jorge que indicou Rodrigo que gostava de Geraldo que amava toda a quadrilha que amava toda a quadrilha que amava...

 

(*) Ucho Haddad, 49, é jornalista investigativo, colunista político, poeta e escritor. Editor do www.ucho.info, é articulista do site do jornalista esportivo Wanderley Nogueira (www.wanderleynogueira.com.br), do Inforel (www.inforel.org) e da Gazeta do Oeste (http://gazetaoeste.com.br)

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