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A fúria tributária inviabiliza o país do futuro

(*) Ucho Haddad

 

O criminoso avanço da carga tributária corrói a cidadania, patrocina analfabetos e incentiva o crime


Quando, recentemente, Luiz Inácio Lula da Silva desembarcou em Davos, na Suíça, para participar de mais uma edição do Fórum Econômico Mundial, o presidente brasileiro disse, com direito a excesso de galhardia e rara prosódia, que a revolução em nosso País aconteceria por meio da Educação. Naquele momento, Lula tomou emprestado o discurso sempre coerente do senador Cristovam Buarque (PDT-DF), que quando ministro Educação do governo petista foi demitido por telefone. Diz a lenda que de boas intenções a seara luciferiana está repleta, mas é preciso dar crédito ao que disse, lá na Suíça, o presidente Lula, mesmo que seu discurso tenha sido de aluguel.

Um das vozes mais coerentes em prol do ensino público de qualidade, o senador Cristovam Buarque sabe muito bem que carga tributária elevada, incompetência política e falta de acesso à educação representam um trinômio quase suicida em termos de administração pública. Para fazer com que o Brasil estivesse, mesmo que enganosamente, inserido no clube dos países em desenvolvimento, Lula não poupou recursos para a chamada inclusão digital. É preciso reconhecer que a rede mundial de computadores facilita a vida de qualquer cidadão, mas de pouco utilidade será se o mesmo cidadão não souber ler e escrever, ou quase isso.

Com um segundo mandato que ainda engatinha, especialmente porque o anuncio da nova equipe de governo é o deprimente resultado do loteamento político da máquina estatal, imaginar que soluções para a Educação serão implantadas com varinha de condão é acreditar que o presidente Lula é uma versão genérica do ilusionista David Cooperfield.

Um povo sem educação no presente representa uma nação sem futuro. Foi em cima de tal tese que o presidente Luiz Inácio solicitou ao ministro da Educação, Fernando Haddad, um plano totalmente voltado para o setor – uma espécie de PAC da Educação – tema que vai consumir, em quatro anos, R$ 8 bilhões dos cofres federais. Desde os plúmbeos tempos da ditadura militar até hoje, todos os presidentes brasileiros, com maior ou menor ênfase, tentaram atacar o problema do analfabetismo no País, mas o maior dos desafios foi atrair os analfabetos para as salas de aula. Diante de seguidos fracassos, muitas vezes os programas de alfabetização foram deixados de lado, sem que os repetidos erros fossem anunciados oficialmente.

Agora, com um plano para a Educação sobre a escrivaninha, o presidente Lula tem como meta eliminar o analfabetismo, sendo que para tal missão apenas professores com a devida formação é que poderão participar do programa de alfabetização. Saber ler e escrever é, não apenas um direito constitucional, mas acima de tudo uma prerrogativa da cidadania. Não ser analfabeto é ser cidadão. E para tal, o caminho é a escola.

"Somente pela educação o homem pode chegar a ser homem. O homem não é nada além daquilo que a educação faz dele."

Mark Twain

Se para atingir a plenitude da cidadania é preciso ir à escola, o que é fato, obrigatório é reconhecer que o papel da escola não é apenas ensinar a ler e escrever, mas a pensar e lidar com números, também. E para que tal situação exista, precisamos recorrer a coisas essenciais como caderno, caneta e lápis, no mínimo. Muitos dos que se dizem alfabetizados ainda tomam o ônibus pela cor, pois a lerdeza da leitura os obrigaria a perder o transporte para casa ou para o trabalho. São os chamados analfabetos funcionais, que em termos de vida não evoluem, mas não reclamam.

Quando o Estado ainda cumpria com suas obrigações, educação, saúde, segurança e transporte público, por exemplo, eram direitos do cidadão, sem que medidas judiciais fossem necessárias para o cumprimento dos mesmos. Com o avanço do capitalismo pelo mundo afora, muitos desses direitos foram extintos oficiosamente, dando passagem a similares pagos, cabendo às camadas menos favorecidas da população a reles contemplação do caos, sempre emolduradas por um silêncio obsequioso e por uma conhecida leniência. Protestar não faz parte da cultura do brasileiro, mas caso não ocorra uma mudança imediata e radical no campo da Educação, o Brasil corre o sério risco de ser dragado por interesses imperialistas estrangeiros, ou o País será guindado à condição de uma grande Chicago dos anos 40, pois a criminalidade, como temos visto, cresce em assustadora progressão geométrica.

Se comparado o ensino dos anos 70 com o dos dias de hoje, logo percebe-se que, tirante a evolução teórica da Educação, os ensinamentos do passado eram muito melhores e mais profundos. Uma pequena pesquisa pelo mundo da literatura didática nos permite perceber que as principais e mais importantes editoras nacionais do setor estão sob o controle de multinacionais. De chofre, tal detalhe pouco representa, mas algo de muito preocupante existe por trás disso.

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