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E.S. - Durante a campanha presidencial de 2002, o candidato Luiz Inácio Lula da Silva atacou de forma veemente o então presidente FHC, imputando-lhe os mais distintos matizes da falta de ética. Clamar por ética para depois agir de forma antagônica ao próprio discurso, mantendo o status quo, é falta de ética, de competência ou é pura traição?

Roberto Romano – É atualizar a ética à qual se foi acostumado e que nunca se confessou. Há uma frase de Elias Canetti (escritor búlgaro que conquistou o prêmio Nobel de Literatura em 1981), que traduz a realidade da trajetória do presidente Lula: “ Eu nunca vi um só homem vituperando contra o poder sem o secreto desejo de obtê-lo” . Em 1985, analisando os discursos e a prática de Lula, percebi não só a personalidade autoritária, mas a maneira com que pensava no social, constatação que muito me desagradou. À época fui considerado pelos setores ligados ao PT como sendo um maldito. À medida que muitos petistas foram percebendo o que estava ocorrendo, concluíram que minha análise não era desprovida de sentido. O que o presidente Lula está fazendo é colocar de forma visível de que se trata de um conjunto de personalidades autoritárias e antidemocráticas, que não aceitam o contraditório. Nesse sentido, repetem a tragédia, ou comédia, da política brasileira: o Brasil é o lugar onde é proibido fazer oposição.

E.S. - Não é necessário esforço algum para perceber que a ética atinge o seu clímax em sociedades responsavelmente livres ou, até mesmo, só funcione em situações tais. Passadas as dificuldades econômicas de 2003, o governo se envereda pela idéia totalitarista de controlar a informação, ao mesmo tempo em que cria mecanismos vorazes de monitoramento do cidadão. Os críticos e os partidos de oposição condenam a idéia da criação do Conselho Federal de Jornalismo e da Agência Nacional de Cinema e Áudio-visual (Ancinav), mas a proposta não foi devolvida ao Executivo e continua a sua trajetória dentro do Congresso Nacional. Por outro lado, há quem aposte que o presidente Lula foi enganado e assinou a tal proposta sem ler o respectivo conteúdo. Existe um exagero por parte daqueles que são contrários à idéia ou o que estamos vivendo pode ser o pontapé inicial para um retrocesso político?

Roberto Romano – A segunda hipótese parece ser a mais verdadeira. O que estamos assistindo é a instalação de um projeto político. Desde sempre, esse setor conhecido dentro do PT como Articulação, da qual faz parte o ministro José Dirceu, tem um plano político definido e uma visão do Estado, onde não cabem aqueles setores heterodoxos. O PT, de certo modo, é um elemento compósito. No começo era composto pelo setor que está no poder atualmente e por grupos egressos do Partido Comunista e do Partido Comunista do Brasil, ou seja, o setor que dominou a ala Articulação era marcadamente stalinista. Com esse grupo hegemônico existia, no início, setores da Igreja Católica de esquerda, que apostavam que o PT seria uma espécie de linha política que faltava à igreja. Desde o momento que percebeu que estava sendo desmantelada pelo Segundo Império, a Igreja Católica reagiu e começou a readquirir sua importância institucional. O problema da Igreja Católica é não ter um partido católico, por mais que tenha ensaiado com a Democracia Cristã. O professor Oscar Figueiredo Lustosa tem uma tese sobre o tema, onde, no final, mostra que o partido católico era a própria Igreja. Na época do pré-golpe de 64, existiu uma tentativa do Betinho de fazer a chamada Ação Popular, uma reedição da Ação Popular francesa, que tinha uma visão socialista não marxista, mas não deu certo. Entre 1965 e 1966, um grupo foi a Paris e definiu que para pertencer à Ação Popular era preciso ser marxista, leninista ou ateu. Aí, então, ocorreu um racha com a esquerda católica. Com o surgimento do PT, a Igreja Católica vislumbrou uma salvação política, chegando à decepção rapidamente. Hoje, a Igreja é um dos elementos mais críticos ao PT. Dentro do PT existiam pessoas ligadas aos movimentos trotskistas, que eram críticos, mas desigualmente críticos em relação ao esquema central da Articulação, que acabaram sendo expulsos do partido. Por outro lado, alguns trotskistas acabaram se convertendo, como é o caso do ministro Antonio Palocci, que pertencia à Libelu (Liberdade e Luta), a exemplo de alguns assessores presidenciais. Hoje, essas mesmas pessoas já não têm mais nada de trotskistas, mas adotam o mesmo discurso do marxismo clássico, que prega a necessidade de se estabelecer uma estratégia quando se chega ao Estado e não se tem todo o poder.

E.S. - Mudança tão repentina e radical, pelo menos aos olhos da sociedade, chega a beirar o incompreensível se considerarmos que os atuais senhores do poder integraram, durante os anos de chumbo, uma base de resistência à ditadura? A surpresa que tal situação provoca no seio da sociedade pode estar causando um estado de paralisia, que leva o cidadão a aceitar passivamente a imposição do projeto político do PT?

Roberto Romano – No caso do PT e de boa parte dos militantes do partido que estão no poder existe uma espécie de anamorfose, situação em que uma figura só adquire sentido em um determinado ângulo. Se olharmos na direção daquele ângulo, conseguimos identificar a figura. Do contrário, só se enxerga manchas. O PT lutou contra a ditadura, sim, mas no caso da Articulação, que está no núcleo do governo, seus integrantes lutaram contra a ditadura para instalar a sua própria ditadura. O projeto do PT foi, desde sempre, ditatorial, e os petistas estão preparando essa ditadura.

E.S. - Até então, a reação da sociedade se ateve à massa pensante do país, em uma clara reedição do que aconteceu na década de 60. Apostando na hipótese de uma reação mais consistente da sociedade, que tipo de situação o governo pode experimentar? Os anais da história político-partidária brasileira mostram um Partido dos Trabalhadores não afeito aos recuos e às derrotas.

Roberto Romano – Nesse caso, as próximas eleições municipais são, efetivamente, uma espécie de pré-plebiscito. Por mais que o governo diga que não, existe uma federalização dessas eleições, sendo que certos municípios, como é o caso de São Paulo, são estratégicos nessa linha. Caso o PT vença em São Paulo, o governo Lula terá uma base muito forte para dar continuidade ao seu projeto político. Em caso de derrota, o governo será obrigado a fazer concessões à oposição, o que levará a uma atenuação dessa ânsia de poder. A possibilidade de adiar o projeto de controle do Estado por parte do governo passa obrigatoriamente pelas eleições.

E.S. - Quando das derrotas nas eleições presidenciais anteriores, o partido optou pelo recuo como estratégia para uma investida supostamente maior e derradeira, a exemplo do que assistimos agora. Por mais que ainda impere a teoria de que não existe nada mais conservador do que um liberal no poder, um recuo do governo a essa altura, por conta de uma reação mais consistente por parte da sociedade, pode desaguar em uma crise política sem precedentes. Que tipo de situação o senhor vislumbra para um futuro próximo?

Roberto Romano – Acho que se houver uma reação popular, sobretudo se pensarmos na classe média brasileira, que representa um elemento nuclear de decisão política, o discurso já está preparado. Em primeiro lugar suscitar o suicídio de Getúlio Vargas, o golpe de 64, o caso Allende e lembrar o caso Chávez. Ou seja, utilizariam como retórica um conjunto de pessoas fascistas e antidemocráticas que se jogam contra um governo legitimamente eleito. O problema dessa mitologia é que, de fato, as pessoas são por ela embaidas, o que faz lembrar a técnica utilizada pela União Soviética e pelo Partido Comunista para justificar a invasão da Hungria e da Tchecoslováquia. Invadiram, mataram e prenderam, e, quando questionados, diziam que os fascistas estavam tomando o poder nesses países. É uma técnica muito comum nesse setor, de defender atacando, mas atacando um inimigo inexistente. Tenho escutado, por exemplo, de vários colegas de cátedra que apóiam totalmente o PT, que os que fazem críticas ao governo é porque nunca lutaram contra a ditadura e pela democracia. Tenho recebido mensagens eletrônicas com críticas por jamais ter lutado contra o Fernando Henrique Cardoso ou, até mesmo, contra o Fernando Collor, quando na verdade fui, à época, um dos mais ácidos em relação a essas pessoas, situação que fica clara e evidente nos artigos de minha autoria. Mesmo sabendo que se trata de uma mentira, fazem as acusações como forma de descaracterizar o discurso de oposição.

 

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