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U.H. - Em algumas unidades da federação a Justiça tem concedido ganho de causa aos rinheiros, que sob a esfarrapada desculpa de ser um hobby, mantêm uma prática que vai contra os princípios da legalidade, isso sem contar os preceitos do bom convívio entre os homens e os animais. Na opinião dos senhores, quais justificativas podem estar levando a Justiça a determinadas decisões, e quais são os milionários e irresponsáveis financiadores de tão sanguinária prática em todo o país?
Rayol – Em todo os Estados onde ocorreu a tentativa de legalização das rinhas de galos, a Justiça acabou impedindo que o assunto prosseguisse. Existe, inclusive, uma decisão do Supremo Tribunal Federal a respeito. O caso mais recente se deu em Pernambuco, onde o Tribunal de Justiça autorizou o funcionamento de um estabelecimento chamado de Palácio do Galo, em Olinda, mas é bem possível que tal decisão venha a ser cassada, até porque existe, como disse anteriormente, jurisprudência do STF. O juiz que concedeu autorização para o funcionamento do Palácio do Galo justificou sua decisão alegando ser uma questão cultural, o que vem a ser um notório absurdo. Por outro lado, o mesmo juiz justifica que os rinheiros não promovem a briga entre galos, mas apenas observam o fenômeno da natureza, o que também é um absurdo, porque na natureza os galos não utilizam biqueira de metal ou esporões de acrílico, não são colocados em pequenas arenas e não são obrigados a lutar quase até à morte, situações que ocorrem repetidamente nas rinhas de galos. Poucos dias depois da prisão do senhor Duda Mendonça, um parlamentar baiano apresentou um projeto na Câmara dos Deputados, tentando legalizar as rinhas de galos, mas a Comissão de Meio Ambiente felizmente sepultou a tentativa do deputado. O que existe por trás das rinhas de galos é uma quantidade enorme de dinheiro, principalmente no que tange às apostas, sendo que alguns animais chegam a valer, dependendo do histórico de desempenho, até R$ 50 mil. Os rinheiros e adeptos das rinhas de galos viajam por todo o país atrás de competições, o que nos levou a solicitar ao Serviço de Vigilância Agropecuária as guias de trânsito animal dos últimos dois anos, pois certamente conseguiríamos chegar aos nomes de muitos dos envolvidos com as brigas de galos. Viajar pelo país com uma galo debaixo do braço não é crime, mas o cruzamento de informações certamente nos levaria a conclusões e provas documentais incontestáveis. Como o prosseguimento das investigações incomodaria muita gente de poder político e financeiro muito grande, acharam por bem interromper o nosso trabalho.
Pompílio da Hora – Nós, o delegado Rayol e eu, já trabalhamos em outras delegacias, onde se combate realmente o crime, como é a questão do tráfico de entorpecentes. Nesses casos, é quse obrigatório ter familiaridade com ações duras e violentas praticadas por criminosos. O que tenho observado é que o criminoso, além do crime principal, acaba cometendo uma série de outras violências, situação que é muito comum no Rio e em São Paulo, como em qualquer outra grande cidade do país. Há dias, em uma operação da Delegacia Fazendária, onde agora estou lotado, fui reconhecido por uma pessoa que acompanhou o caso de Jacarepaguá, que disse existir no Jacarezinho, comunidade pobre do Rio de Janeiro, muitas rinhas de galos. No Jacarezinho, onde existe quase uma tradição de forte tráfico de entorpecentes, crianças e adolescentes estão assistindo às violências praticadas contra e entre os animais, sem que tenham uma série de subsídios necessários à formação do caráter do ser humano. Como pudemos constatar na investigação da rinha de Jacarepaguá, existiam menores que participavam dos certames, com as devidas autorizações registradas no livro de atas do clube. Aí, sim, é possível concluir que certas violências cometidas por jovens têm relação com maus tratos a animais.
U.H. - Existem estudos que afirmam, de forma científica, que pessoas que optam por algum tipo de violência, principalmente aquela que está mais à mão – é o caso dos rinheiros – praticaram algum tipo de violência contra animais na infância ou na juventude. Em se tratando de uma verdade, não chega a ser preocupante o fato de Duda Mendonça, um confesso apaixonado pelas brigas de galos, ser o responsável indireto pelos destinos do país, se analisarmos que toda a ação do governo Lula está atrelada a alguma estratégia que depende do publicitário baiano?
Rayol – Faço aqui uma revelação em primeira mão, mas não fui o único que ouviu do senhor Duda Mendonça que o Presidente da República sabia que ele gostava de brigas de galos, bem como o próprio Lula também gostava de rinhas. Diante do que ouvi, voltei ao senhor Duda Mendonça e perguntei se ele estava afirmando que o presidente Lula gostava de rinhas de galos, mas o publicitário recuou e se retratou. Porém, há dias, recebi por e-mail uma foto de uma das Caravanas da Cidadania, onde o então candidato Lula aparece com estilingue na mão (foto), atirando contra algum animal. É claro que as pessoas mudam, e pode ser que atualmente o nosso Presidente da República seja um grande apaixonado pela causa ambiental, mas na época ele não tinha tal consciência enquanto atirava pedras em passarinhos. No documentário "Entreatos", do cineasta João Moreira Salles, existe uma cena onde aparecem os senhores Luiz Inácio e Duda Mendonça, sendo que o presidente Lula, ao som de um samba, tenta batucar e não consegue, dizendo logo em seguida que batuque não era seu forte. Na seqüência, o senhor Duda Mendonça começa a batucar e, olhando para a câmera do cinegrafista, diz, com todas as letras: “de batucada e rinha eu entendo”. Chega a ser muito preocupante que em uma república, em pleno século XXI, um assessor presidencial, formal ou informal, confesse de público que é adepto de uma prática que a lei diz ser criminosa. Isso é uma coisa impensável no primeiro mundo, mas aqui, para nós, deixa a clara sensação de que o Brasil é uma verdadeira república de bananas.
U.H.– Então, na opinião dos senhores, o senhor Duda Mendonça conta com a conivência do presidente Lula, pois se ele diz que o presidente sabe e que também gosta de rinha, mesmo que tenha se retratado segundos depois, e no documentário faz uma declaração descabida ao lado do candidato Lula?
Rayol – Sim, o presidente Lula tem conhecimento que seu assessor é adepto de uma prática que a legislação considera como sendo criminosa. É muito preocupante.
Pompílio da Hora – Existem vários estudos sobre violência e masculinidade. O que venho observando nessas leituras é que chega a ser extremamente preocupante, como disse o delegado Rayol, o fato de alguém como o senhor Duda Mendonça, que tem as condições que todos nós sabemos, faça um discurso como o que foi feito. As palavras do senhor Duda Mendonça podem estimular não só aqueles que freqüentam as rinhas de galos, mas outras situações de violência como pode ser conferido em vários estudos realizados por universidades. Quando existe algum tipo de violência praticada em eventos esportivos, normalmente os representantes das torcidas envolvidas se anetcipam e dizem não ter nenhuma ligação com os protagonistas dos fatos, ou seja, os expoentes se afastam desses discursos, enquanto o senhor Duda Mendonça busca uma aproximação escandalosa ao afirmar que é rinheiro. Quando a juventude que vive nesses bolsões de pobreza e miséria assiste à prática de um esporte violento, se é que assim pode ser chamado, que não é uma exclusiva de pessoas endinheiradas, chega a ser preocupante.
U.H.– Os senhores acreditam que existe na prática das brigas de galos ou maus tratos a animais alguma relação entre a violência e a necessidade quase contínua de construção de uma imagem de masculinidade?
Rayol – Sim, realmente existe. Tanto é verdade que poucas eram as mulheres que estavam no Clube Prive Cinco Estrelas no dia da operação policial. Creio que em um universo de cento e cinqüenta pessoas estavam lá, no máximo, três ou quatro mulheres. A visão do sangue, em uma situação anormal, incomoda qualquer ser humano. Não é normal alguém apreciar um espetáculo de sangue, seja humano ou animal. No artigo de minha autoria, publicado no jornal O Globo, cujo título é Atração Mórbida, abordo a existência de uma correlação muito grande entre pessoas que têm predisposição à violência. Permitir que animais domésticos ou de estimação se engalfinhem não é uma atitude que pode ser considerada normal, quando o impulso é, ou pelo menos deveria ser, separá-los. Estimular a luta e com ela auferir lucros é uma anormalidade. O FBI realizou um estudo nos EUA e descobriu que a maioria dos “serial killers” foi vítima de violência na infância ou cometeu algum tipo de violência contra animais. O que não significa que todo cidadão que foi vítima de violência na infância ou a praticou contra algum animal será fatalmente um “serial killer”, ou vice-versa.
U.H. - O procedimento pós-policial do caso, ou seja, depois do flagrante, da instauração do inquérito e do respectivo relatório, parece estar totalmente emperrado. O que estaria acontecendo realmente no inquérito 133/2004, que é a continuidade do inquérito do flagrante, e qual a ingerência do Palácio do Planalto nesse caso? O que vem ocorrendo no inquérito que tem o publicitário Duda Mendonça centro das atenções, que foge das práticas habituais e legais?
Rayol – Posso afirmar que, hoje, o inquérito 133/2004 está totalmente parado. Desde que o delegado Pompílio da Hora foi afastado da presidência do inquérito, nada foi feito. Pode ser que, em breve, alguma coisa aconteça, mas as investigações foram paralisadas, até porque os dois agentes, responsáveis pela análise do material apreendido na rinha de Jacarepaguá, foram retirados da delegacia, situação que se repetiu comigo e com o delegado Pompílio da Hora.
U.H.– O que os senhores imaginaram desvendar quando do pedido de quebra de sigilos fiscal e bancário das pessoas que estavam no Clube Prive Cinco Estrelas?
Pompílio da Hora – Estamos até agora surpresos com o que achamos até o momento do nosso afastamento. Jamais imaginei que fosse encontrar indícios que comprovassem a habitualidade do crime em questão, o que nos levou a um estudo demorado e detalhado do assunto, antes de remetermos as informações à Justiça e ao Ministério Público. O banco de dados que pretendíamos montar a partir das guias de transporte de animais, nos proporcionaria condições de realizar um cruzamento de informações e obter a verdadeira dimensão das rinhas de galos em todo o país. Nós estávamos desenvolvendo um banco de dados somente sobre essa movimentação criminosa, mas infelizmente tudo foi interrompido sob a desculpa de atos de rotina.
Rayol– O senhor Duda Mendonça pode muito bem chegar diante do juiz e dizer que gosta de rinhas de galos, mas que não as freqüenta. Que só estava lá na rinha de Jacarepaguá a convite de alguém, e que o fato de seu nome constar como sócio do clube pode ter sido uma atitude leviana de qualquer pessoa. Caso a construção do banco de dados tivesse prosseguido, qualquer desculpa que venha a ser apresentada pelo senhor Duda Mendonça poderia muito bem ser derrubada, caso a Justiça recebesse da DELEMAPH as informações que iríamos obter com as investigações. O inquérito 133/2004 mostra que existe uma chamada primeira divisão das rinhas de galos no Brasil. O delegado Pompílio da Hora, ainda na presidência do inquérito, já cogitava a possibilidade de cometimento de outros crimes, como lavagem de dinheiro e evasão de divisas, crime, este último, cometido quando da venda de galos de briga para o exterior.
U.H. - Os senhores não acham que a mídia, no afã de obter uma manchete polêmica, colaborou consideravelmente para a divulgação do caso, sendo que hoje o assunto mesmo perdeu de forma até vertiginosa o espaço na grande imprensa. O que pode ter acontecido de fato, e até que ponto pode se dizer que existe uma ingerência palaciana também nos meios de comunicação?
Rayol – Em primeiro lugar, está absolutamente claro que a imprensa está muito presa aos interesses do governo, noticiando somente aquilo que está no balcão e colocando na prateleira o que não interessa ao Palácio do Planalto. Porém, existe o fato do senhor Duda Mendonça deter as mais importantes contas publicitárias do governo, o que lhe confere um certo poder de negociação. Um conhecido veículo de comunicação do Rio de Janeiro, de grandes proporções, decidiu, segundo informações que apurei, interromper a divulgação do caso, pela simples promessa de obter benefícios advindos das verbas publicitárias oficiais controladas pelo senhor Duda Mendonça. Por mais que seja natural que, com o passar do tempo, o assunto caia no esquecimento, também é possível que esse tipo de ingerência aconteça. Nem todo órgão de imprensa pode se dizer independente, a ponto de desprezar uma polpuda verba publicitária. Porém, novos fatos vão acontecer, que levarão o assunto, mais uma vez, à mídia, independentemente da vontade do governo Lula, como é o caso do interrogatório do senhor Duda Mendonça no próximo dia 14 de março. Por outro lado, fomos informados que algumas Ong's pretendem deflagrar uma contagem regressiva que tem como ponto final o dia do interrogatório que mencionei.
(Foto Presidente Lula:
Protasio Nene)
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