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Roberto Romano da Silva
Brasil: se cobrir vira circo, se cercar vira hospício
 
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Elogio aos baianos

(*) Roberto Romano da Silva

 

 

Desde os anos oitenta do século anterior vou à Bahia em missão acadêmica. O primeiro convite da Universidade Federal teve um responsável brilhante, na mente e alma éticas. Trata-se de José de Oliveira Arapiraca, coordenador da pós-graduação que se instalava na área educacional. Entusiasta do saber, o docente se esforçou por levar ao curso in fieri pessoas competentes de todo o Brasil e do estrangeiro, para garantir o ensino e a pesquisa rigorosos. A cada nova aproximação com Arapiraca, eu me encantava com a sua mente aguda, a pertinácia de sua vontade. Contra muitas dificuldades, a pós-graduação foi instalada e trouxe ganhos para a Bahia, com ressonância positiva no país inteiro.

Coordenador do curso, Arapiraca partiu quase do zero, mas em cada momento de sua batalha testemunhei a confiança mantida por ele face aos alunos, o respeito pelas inteligências, a fé nos processos educativos.  E digo, sem medo de errar, que tal atitude era correspondida pelos estudantes. Dei cursos cujo horário seria difícil de ser obedecido à risca, mesmo em terras européias ou norte-americanas. Um deles começava às sete e meia da manhã e tinha seu término por volta de 17 horas. A maioria absoluta dos estudantes estava na sala com a minha chegada. Não apenas presença corporal, mas anímica: testemunhei o interesse refletido sobre tudo o que dizia em aula, dos silogismos complexos aos números, destes às análises epistemológicas, históricas, políticas. Não raro, recebi perguntas árduas de serem respondidas. E tais interrogações são as melhores, como reconhecem os professores retos: se não sabemos a resposta, nos dirigimos aos livros, aos colegas mais informados no assunto. Apenas assim somos dignos do título de professor: aquele que professa a amizade pelo saber, não sabichões supostamente absolutos. Dar aqueles cursos, sob a coordenação diligente de Arapiraca, foi uma das poucas bênçãos que recebi na vida universitária.  Arapiraca estava sempre perto, queria saber quais problemas surgiam, como os alunos e funcionários respondiam às exigências, etc.

Autor de dois livros essenciais para quem deseja conhecer a história do Brasil e de sua universidade, José Arapiraca dirigia a Faculdade de Educação da UFBA quando deixou este mundo. O primeiro livro a que me referi se intitula “A USAID e a educação brasileira: um estudo a partir da abordagem crítica da teoria do capital humano” (São Paulo, Cortez, 1982). Ele é a publicação de um brilhante mestrado, defendido na Fundação Getúlio Vargas do Rio. O segundo, trata do uso indevido de escolas, pela oligarquia baiana, o ferrete dos oligarcas postos como nomes em estabelecimentos oficias de ensino (Fisiologismo Político e Qualidade da Educação, Ianama Ed. Salvador, 1988). Sempre que constato o uso indevido de recursos públicos (materiais ou simbólicos) na educação, releio o livro de Arapiraca para entender melhor o fenômeno. E aprendo muito a entender a mente de alguns professores — frutos de um sistema oligárquico — que enunciam coisas tremendas, em triste depreciação da própria universidade. Arapiraca conhecia as deficiências acadêmicas. Lutou para modificar as coisas educacionais baianas. Sua fala era de elevado respeito e carinho pelo povo que mantêm os campi com pesados impostos. Convicto defensor das ciências, das artes, da ética, aquele professor honrou seu nome e honrou sua terra.

O exato contrário vimos na semana passada. Outro coordenador de curso, que deveria diagnosticar mazelas e definir estratégias de resolução, considerou certo acusar discentes pelos pobres resultados em exame de curso.  O coordenador levou o insulto ao povo que paga seu salário. “O baiano toca berimbau porque só tem uma corda. Se tivesse mais [cordas], não conseguiria". Nunca imaginei testemunhar algo assim, nos lábios de um professor universitário. Prova do acerto hegeliano quanto aos intelectuais, o ”mundo animal do espírito”. No zoológico do intelecto vivem nobres e inomináveis, como em toda a natureza ou sociedade.  Quem despreza sua gente não é nobre. Existe um orgulho autêntico e outro, de arrogância injusta. O primeiro eleva, o segundo trai essência luciferina e termina no rastejo abjeto do pó.

 

(*) Roberto Romano da Silva é Professor titular de Filosofia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), professor de Ética, também pela Unicamp. Doutor em Filosofia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris e membro do Instituto de Filosofia e de Ciências Humanas da Unicamp, é autor dos livros "Brasil, Igreja contra Estado", de 1979, "Copo e Cristal, Marx Romântico", de 1985, e "Conservadorismo Romântico", de 1997.

Os artigos do Professor Roberto Romano da Silva também são publicados semanalmente no Correio Popular, de Campinas. www.cpopular.com.br/colunistas

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