CPI, Comédia dos Erros, Clube de Amigos ou simplesmente uma mera Comédia?
Nota de Denise Abreu à Imprensa, sobre o final da CPI do Senado
São Paulo – O final lamentável da CPI do Apagão Aéreo do Senado Federal, a aprovação por meia dúzia de parlamentares do relatório final manuseado para salvar “amigos”, a retirada de nomes, a insídia venenosa contra Denise Abreu, ex-diretora da ANAC, Agência Nacional da Aviação Civil, mostram ao país uma comédia e a desmoralização de uma Comissão Parlamentar de Inquérito. Mostra o retrato das tratativas, tramóias, espetáculos individuais, acertos e descaramento no qual parte da base governista transformou aquela Casa nos últimos tempos.
A absurda manutenção do pedido de indiciamento de Denise Abreu, ao lado da retirada ou “esquecimento” dos nomes que compuseram a diretoria da Infraero e seus amigos, escancarou um nível de ação e de manipulação política e de recursos públicos que poderíamos julgar quase impossível. Mas foi possível e é visível. O que a opinião pública precisa perceber (e perceberá na pele a cada vez que precisar freqüentar os aeroportos brasileiros) e repudiar, veementemente.
As palavras ética, decência, seriedade e responsabilidade foram deixadas de lado, durante as pretensas investigações, na verdade audiências totalmente dirigidas para atingir alguns e blindar outros. Decisões judiciais de Cortes superioras foram desobedecidas. O ativismo político trabalhou como Tropa de Elite, sim. E alcançou a blindagem desejada. O que foi exterminado e enterrado hoje com essa patética encenação foi a verdade por detrás dos fatos. Verdades já apontadas pelo Tribunal de Contas da União, TCU, e sob a investigação do Ministério Público Federal. O que foi soterrada hoje, enfim, foi a verdade sobre a crise aérea que atingiu e ainda atinge o país. A verdade sobre o superfaturamento de obras, sobre a deficiência na infra-estrutura aeroportuária, sobre a venda de empresas, e sobre as ações e omissões do Governo.
Acharam por bem, no caso da ANAC, buscar indiciar apenas uma ex-diretora, Denise Abreu, como se tivesse sido possível partir dela qualquer atitude isolada dentro da estrutura colegiada da agência. Opôs-se a ela, entre outros, com as benções governamentais, e um dia saberemos por que, até um ministro momentaneamente em evidência, fantasiado de combatente das selvas como se militar fosse. Contra Denise, opuseram-se também inclusive alguns senadores do PT e sua turma da base. Veio tiro de tudo quanto é lado.
(E a imprensa sendo enganada durante todo esse tempo, achando que o Governo a “protegia” e que ela tinha "amigos influentes e poderosos”. Não adiantaram os inúmeros e precisos desmentidos feitos durante todo o longo processo. Agora está provado: a ex-diretora Denise Abreu, além de independente, era vista pela oposição como protegida do governo; e vista, pelo governo e pelo PT, como um “corpo estranho” do PSDB. Triste ironia. Esperamos que agora os analistas políticos possam enxergar o erro cometido e com isso até se dediquem, de agora em diante, à busca da realidade, da verdade).
Há muitos erros nessa história, erros que a História há de mostrar. O linchamento público a que submeteram Denise Abreu se prestou somente a construir esta blindagem dos personagens retirados do relatório aprovado hoje, estes sim, investigáveis. Ela já está se defendendo em todos os fóruns onde foi inscrita, e o fará tranquilamente, porque apesar de tudo continua acreditando na independência do Ministério Público Federal, do Poder Judiciário e em servidores públicos éticos e sérios.
Não sabemos se os que hoje festejam a vitória poderão ter a mesma serenidade.
Como tão bem definiu Marcel Proust, sempre citado por um líder político verdadeiro como o foi, Ulysses Guimarães, o Tempo é o Senhor da Razão.
31 de outubro de 2007