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Brasil: se cobrir vira circo, se cercar vira hospício

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UHNão lhe assusta a decisão de enfrentar um mundo que tão bem conhece, ou conheceu, sabendo que os amigos de outrora poderão se transformar em inimigos do amanhã, se é que já não os são?

MC – Para tal situação é muito difícil adquirir algum tipo de preparo. Os últimos dois anos da minha vida valeram por aproximadamente trinta. Nesse período me deparei com coisas da alma humana que jamais pensei que pudessem existir. E provavelmente, se eleita, certamente verei outras tantas coisas mais. Porém, Deus nunca nos dá a carga que não suportamos carregar. Além de tudo, sou uma pessoa extremamente curiosa.

UHMesmo sabendo que o convívio muito próximo com poder proporcionou vários e inesperados dissabores, o que nesse universo, o da política e do poder, lhe e encantou e assustou?

MC – O que me assustou foi a falta de visão das pessoas. Ela se esquece muito rápido de que elas apenas estão, e não são. As pessoas que freqüentam as rodas do poder têm a falsa sensação de que podem se transformar em, apenas dois minutos, em Super-Homens e Mulheres-Maravilha – mais Super-Homens – como resultado de um mandato parlamentar. O que me encantou foi a possibilidade de transformação que o poder transfere, e que você tem de saber usar com muita responsabilidade e equilíbrio. O que ainda me assusta é que em muitos casos ele corrompe. Você começa a fazer concessões muito pequenas e, da noite para o dia, a própria alma já está vendida para o diabo.

UHPassados pouco mais de três anos de um governo que se elegeu sob o manto da promessa de mudança, o que representa, na sua opinião, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva?

MC – O presidente Lula é o reflexo do povo brasileiro. Uma pessoa acostumada com o executivo, que nem de longe tinha qualquer conhecimento do executivo. De igual maneira, o presidente Lula jamais pensou em lidar com a tal da governabilidade, que, diga-se de passagem, é algo muito complexo. Não desgosto do Lula, ainda, mas creio que o melhor seria que ele fosse uma espécie de rainha da Inglaterra. Mesmo não sendo um operador – o Brasil precisa de executivos competentes – o presidente Lula, dentre as figuras políticas que existem por aí, é uma figura humana.

UHNos últimos tempos tenho afirmado que o sindicalista Lula, tão importante no jogo pela retomada da democracia, nem de longe desembarcou no Palácio do Planalto. Creio que Lula perdeu a grande oportunidade de permanecer na história no seu melhor patamar, até porque ele- o presidente – foi, e ainda é, a maior liderança sindical das Américas em todos os tempos. Ser conivente com a corrupção – pelo menos é o que mostram as investigações das CPIs - foi algo muito semelhante a jogar no lixo a fama que conquistada à portas das fábricas do ABC. Na sua opinião, não teria sido, melhor que o presidente Lula tivesse continuado fazendo oposição, mesmo que algumas vezes seu oposicionismo tenha conquistado alguma exacerbação desnecessária?

MC – O presidente Lula, ou melhor, o político Lula, sempre foi excelente na oposição, mas ele precisava viver isso que está enfrentando. O crescimento do ser humano é o resultado não da narrativa de algumas situações, mas do enfrentamento das mesmas. Talvez o presidente Lula aprenda, talvez não. Mas ele (o presidente) tem algo muito parecido comigo: ele adora casar mal. Não com a dona Marisa, mas, fora isso, ele escolhe muito mal.

UHDiante da sua afirmação, qual foi o pior casamento do presidente Lula?

MC – Só ele pode dizer.

UHMas a sua afirmação foi incisiva, não foi? Sua resposta será importante, principalmente porque – palavras suas – Valdemar Costa Neto não é o partido ideal, nem política e nem pessoalmente.

MC – Eu me desquitei, e o presidente ainda está aí, firme, agüentando.

UHO presidente Lula, pelo menos de fachada, promoveu algumas demissões, muitas delas com o rótulo de renúncia. Assim, qual foi o pior casamento político do presidente Lula?

MC – O presidente Lula pode ter demitido algumas pessoas ou, até mesmo, concordado com suas demissões, mas ele continua aturando alguns partidos políticos que comprometeram de sobremaneira o seu governo. Até hoje ele paga os juros para que alguns partidos o mantenham no poder.

UHQuando o ser humano envereda por um projeto novo, sempre tem, pois mais realista que seja, pontas de sonho e ilusão. Caso tivesse a capacidade de mudança em suas mãos, o que mudaria no país que até então não foi mudado?

MC – A tal da governabilidade.

UH - Qual a sua definição para governabilidade?

MC – Quando integrante do Executivo carece de um assessor, técnico ou não, a indicação não é atribuição sua. É, sim, de qualquer outra pessoa com vínculos políticos ou partidários, pois, do contrário, o país pára dentro do Congresso Nacional, onde nada é aprovado se a vontade dos políticos não for atendida. É um processo que não tem comprometimento algum com a eficiência. É, na verdade, um guarda-chuva de empregos que mais parece o samba do crioulo doido. A coisa mais absurda e menos eficiente é a máquina governamental. Os executivos acabam como reféns de um Congresso absolutamente imediatista, ficando com os ônus das decisões parlamentares. Algo muito parecido com a relação entre o seqüestrador e o seqüestrado.

UHO mote de sua campanha, ao que tudo indica, vai ser chega. Pelo menos é a palavra que, nos últimos tempos, estampou algumas peças do seu vestuário. Dá para dizer chega?

MC – Dá. Para dizer chega certamente dá. Se todos vão se dar por satisfeitos com um chega é que não sei. Não sei se vão parar. O melhor é começar dizendo repetidamente chega. Só assim poderemos dar um basta nesta situação.

UHO Brasil não tem como dar errado. O Brasil, por seu gigantismo e sua extensão continental, só pode dar certo, independentemente da bandeira política ou do raciocínio ideológico de seus políticos. Considerando que o desalento da população acabou transformando o vernáculo política em um quase palavrão, qual é a sua mensagem para o povo brasileiro, num momento de tamanho descrédito do universo que poderá recebê-la em breve, lembrando que as maiores e mais prementes necessidades dependem exclusiva e diretamente da vontade de cada um dos políticos eleitos?

MC – Menosprezar a inteligência do eleitor – é o que estamos vivendo – é um caminho sem volta, que atinge do mais rico ao mais pobre. A desfaçatez dos políticos é tamanha, que chega a ser difícil encontrar uma justificativa. Só a conscientização política pode reverter esta situação. Se tudo o que estamos vivendo estivesse acontecendo em um outro país, o povo já estaria na rua protestando. Aqui, por incrível que pareça, um político se posta diante de um CPI e diz que recebeu dinheiro contabilizado e fica tudo por isso mesmo. A minha mensagem é para que o povo reflita se vale a pena vender o voto por algum tipo de benefício que dura escassas horas, quando políticos permanecem no poder por no mínimo quatro anos, fazendo o que bem entendem.


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