Não
sei se eu tinha bebido muito na noite que estava em frente à
tv quando passou uma propaganda de algum tribunal eleitoral dizendo
que se podia votar em Monteiro Lobato para presidente.
No
momento não me dei conta, mas me parecia que o pai do Jeca tatu
já tinha passado pro outro lado fazia um bocado de tempo. Mas
isso, no momento não me preocupou: afinal, se não dava
pra votar em nenhum dos vivos que apareciam na telinha, pelo menos poderia
se pensar em resgatar aquela figura –que deveria ser ranzinza
– do Hades ou de qualquer outro lugar onde ele estivesse.
Em
pleno domingo tive de me aboletar pro centro de votação,
em um bairro que há muito tinha deixado de ser meu, mas que continuava
sendo pela preguiça de mudar de zona – afinal eu tinha
mudado pra zona há muito tempo, não valia a pena trocar
por outra.
O
dia estava como se os deuses tivessem feito as pazes com esta cidade
do interior metida a metrópole: céu azul cor de anil,
ventinho fresquinho soprando, uma beleza.Lá vou eu de elétrico
votar em uma faculdade horrorosa em um bairro pra lá de burguês,
cheio de prédios com guaritas e cachorros sujando as calçadas.
E
qual não foi a minha surpresa ao digitar o número na urna
eletrônica, que aparecia como sendo o do Lobato na propaganda,
e aquela engenhoca me responde que eu tinha votado errado.
Errado
o escambau!!
Eu
votei no número que apresentaram na tv, e o que aparece na tv
não é passível de erro, pois não é?
Bom,
o que está feito está feito: não vai ser desta
vez que Monteiro Lobato será presidente do Brasil para obrigar
todo mundo a tomar o Biotônico Fontoura, a calçar bota
na roça ou jogar pedra na Anita Malfatti.
Parece
que vai voltar o que já estava por lá.
Contanto
que não encha o meu saco, declare o voto facultativo e não
fique falando muita besteira mundo afora, por mim que fique por lá
até não poder mais e que saia de fininho daqui a quatro
anos.
(*)
Marcelo Kahns, formado pela ECA-USP
(São Paulo), é jornalista e produtor cultural. Editor
do site Nanquim (www.taste.com.br/news/nanquim/nanquim.asp),
tem artigos sobre arte e cultura publicados em vários países.
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