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COLUNISTAS

Ipojuca Pontes
José Carlos Graça Wagner
José Nêumanne Pinto
Marcelo Kahns
Sandro Villar

continua...

 

U.H. – O ministro Gilberto Gil tem sido muito criticado, além de causar espanto com suas declarações, especialmente naqueles que o viam como um representante de uma classe que lutou contra a ditadura militar. O que estaria acontecendo com Gilberto Gil que pudesse justificar tão radical mudança?

Ipojuca Pontes - Acho que Gilberto Gil continua o que sempre foi: um cantor pop, compositor de talento, provavelmente com cachê mais elevado por conta também do cargo que ocupa. Sinceramente, não sei avaliar se ele sabe em que está metido. É possível que suspeite. Recentemente, li que ele se insurgiu contra a manipulação fraudulenta de um seu pronunciamento, montada pela Secretaria de Comunicação de Gushiken, um dos componentes da troika.

Como segue orientação partidária, a tendência é defender o projeto totalitário do governo, curiosamente articulado na área da cultura pelo documento do secretário-geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães, denominado “Cultura e subdesenvolvimento”, de fundo stalinista e que pretende reabilitar a Guerra Fria de modo ostensivo. Para um compositor que pregava a contra-cultura, a descriminalização das drogas, etc., não deixa de ser instigante.

U.H. – Quando o projeto de criação da Ancinav foi elaborado, a idéia era criar um meio camuflado de censura, a exemplo do que ocorreu durante os anos de chumbo. Como o senhor analisa a tentativa do governo de querer regulamentar um setor intimamente relacionado com as expressões artísticas?

Ipojuca Pontes - No Brasil, especialmente a partir da Era Vargas, o governo sempre meteu a mão institucional nas atividades do setor artístico. Vargas criou e modernizou uma série de departamentos e institutos, não só para favorecer os apadrinhados e cooptar os inimigos, como para sedimentar o seu nacionalismo totalitário e para-fascista. O Estado novo controlava tudo, até mesmo os amigos do regime.

Curiosamente, com a democratização, houve uma pausa no avanço do Estado: nem o próprio Vargas, eleito em 1950, nem Dutra, Café Filho, Juscelino, Jânio, Jango, eleitos democraticamente, enfiaram um tostão na produção de filmes. Foi só com a revolução de 64, a partir de Projeto de Lei sobre a remessa de lucros, criado por Roberto Campos sob pressão do General Golbery, que o governo, com a criação da Embrafilme, abriu as comportas para produção de filmes. De fato, já no período Geisel, o general Golbery (que Glauber Rocha considerava o “Gênio da Raça”), então chefe da Casa Civil do governo ditatorial, cooptou as lideranças do Cinema Novo entregando de bandeja a Embrafilme, que se transformou numa célula do Partido Comunista.

A coisa dita assim parece absurda, mas não é: de certo modo, comunistas e militares nacionalistas tinham como projeto básico a estatização da Economia, e neste aspecto o General Geisel foi impiedoso: criou mais de 500 empresas, fazendo o Estado apropriar-se, tal como hoje, de mais de 70% dos recursos nacionais. Na época, de pura ironia, existia na Petrobrás ate mesmo uma célula denominada “PT-Geisel”.

Na Nova República do pusilânime Zé Sarney, com inflação de 3% ao dia, a Embrafilme, remanescente da ditadura militar, desmoralizou-se completamente. Sem poder alimentar a produção dentro dos padrões sofisticados pretendidos pela clientela, a estatal do cinema transformou-se num palco de brigas, denúncias, corrupção e malversação do dinheiro público. Pior: acabou com o que restava da tradição de trabalho dos produtores voltados para o mercado, tais como Oswaldo Massaini, Herbert Richers, Ademar Gonzaga, Alfredo Palácios e Galante, tipos que criaram as instituições democráticas do cinema nacional sem o dinheiro público e tornaram o Brasil, numa certa fase, o segundo produtor mundial de filmes.

Assim, não fica difícil compreender o porque da adesão da corporação do cinema ao projeto da autoritária Ancinav: há bilhões de R$ a fundo perdido, dinheiro tomado do contribuinte e do indefeso trabalhador brasileiro, sem outro compromisso que não seja o de apresentar o filme pronto, sem a responsabilidade do retorno econômico, coisa do “cinema de mercado”, uma maldição neoliberal manobrada pelo imperialismo ianque - vociferam. De fato, trata-se de uma inominável perversidade: milhões de trabalhadores e miseráveis se esfalfam para sustentar os sofisticados padrões de uma produção economicamente insolvente e de repercussão psicossocial negativa ou duvidosa.

Sim, o mote para a ampliação da cornucópia é o da eterna busca da “identidade nacional”, em cima do qual se procura legitimar o direito a vigência do “pluralismo cultural”, outra falácia diabólica que esconde o mais completo totalitarismo. Se alguém duvida, basta perguntar por que não se produz no Brasil um filme sobre as peripécias de Waldomiro Diniz, o ex-assessor de Zé Dirceu, ou a morte do prefeito Celso Daniel e o desaparecimento das oito testemunhas do crime, ou mesmo, no plano temático internacional, não se financia um filme sobre o poeta Armando Valladares, o “Prisioneiro de Consciência” da Anistia Internacional que passou 22 presos nas masmorras torturantes de Cuba, três dos quais intrometido numa cela-gaveta.

U.H. - Falar em controle das emissoras de televisão parece ser uma hipocrisia, uma vez que o governo federal já exerce a condição de censor, uma vez que é o maior anunciante do país. O exemplo mais escandaloso da imprensa brasileira tem ficado por conta dos telejornais das Organizações Globo, que pratica o servilismo oficial. O senhor acredita que exista a necessidade de um controle adicional, além do controle financeiro imposto pelas campanhas publicitárias oficiais?

Ipojuca Pontes - A cultura totalitária não compreende a liberdade de imprensa como a hipótese de um diálogo, ainda que falho, mas como um puro e simples monólogo. O ideal para tipos como Gushiken não é a informação livre, pois a liberdade não é, segundo os cânones marxistas que ele segue a risca, um “valor absoluto”. O ideal para a Secom de Lula é a propaganda permanente, algo como o veiculado no Granma de Castro, para evitar que a verdade transpire no noticiário e, assim, se posse manter incólume o poder.

Ainda assim, mesmo mantendo a vassalagem em telejornais como os da Globo, por conta do controle econômico das grossas verbas publicitárias, o governo “hegemônico” encara a liberdade de imprensa como um subterfúgio da “falsa objetividade” das classes dominantes e, por conseqüência, tem-na como um risco fatal. É um fato concreto: mesmo controlando a pauta do Jornal Nacional, em parte agendada nos escaninhos da Secom, Lula prefere e quer o monólogo para permanecer no poder. Daí a reação recente, nos jornais da grande imprensa, do vice-presidente das Organizações Globo, João Roberto Marinho, denunciando a ameaça que representam a AFJ e a Ancinav, ainda que ponderando ao governo que a TV (Globo) “não é o problema”.

 

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