Há duas semanas, o alvo dos chamados escândalos da República estava no Senado Federal. Na semana passada e início desta a crise pousou na Câmara Federal. A partir desta quarta-feira, a pauta do noticiário nacional será a Suprema Corte motivada pelo bate-boca entre dois ministros em rede nacional de rádio e televisão. Dentro de alguns dias o foco poderá ser o Executivo, o provedor de recursos e, portanto, o mais poderoso de todos os Poderes.
O noticiário cíclico de escândalos de nossa Botocúndia tem, como é de se supor, razões, motivações e responsáveis diversos. Uma delas é o efeito manada que conduz o fio condutor das reportagens, que se altera à medida que se tropeça nos escândalos e nas mazelas do nosso cotidiano republicado.
A Imprensa foi feita para noticiar e, portanto, o noticiário é sua mercadoria. É um produto diversificado com diferentes marcas e qualidade e, pode se concluir, com preços e valores diferenciados.
Atacar a Imprensa é o meio mais curto, mais imediato, para fugir de problemas e se distanciar das soluções. Percebe-se que os “homens públicos” estão muito mais preocupados em fugir das manchetes. Suas declarações alimentam e servem a um processo midiático que eles mesmos condenam. É um processo que se consome por si mesmo, um buraco negro que se auto-alimenta e se esvai.
O “noticiário midiático” com seus efeitos cíclicos, alimentado pelas autoridades públicas e por interesses controversos, tem um único propósito. Servem apenas para desacreditar as instituições num momento em que a democracia chega à sua maioridade. O descrédito com o nosso Estado é palpável.
Vitimados pela sua falta de coragem em atacar os problemas estruturantes de um país emergente, essas mesmas pessoas, colocadas em cargos públicos, são os próprios vetores das consequências que condenam nas tribunas e nas entrevistas dos jornais.
A origem principal dos problemas é a partidarização desmedida das funções públicas. O único quesito para indicação de autoridades é o político-partidário e compadrio. E este credenciamento também é exigido para os magistrados, cujas nomeações dependem da caneta do Executivo e do lastro político. Como este quesito é preponderante, aspectos importantes como honestidade, capacidade, discernimento, preparação e espírito público são simplesmente abandonados.
Chega a ser hilário o processo de sabatinas pelo Senado Federal. As entrevistas são apenas um carimbo burocrático para pessoas indicadas para embaixadas, agências reguladoras ou para o Judiciário. Tudo não passa de uma mera formalidade. Ninguém é rejeitado, todos são aprovados.
O medo em atacar os problemas estruturantes é, certamente, o combustível das mazelas, da corrupção, da falta de ética e da ausência de compromissos sérios com a coisa pública. Sem a necessária motivação para corrigir distorções do sistema, toma corpo o “noticiário midiático”. A banalização é a ferrugem da estrutura legal e institucional que neste momento precisa ser conservada ou trocada.
Não adianta os deputados, os senadores, os magistrados e os homens públicos, de uma forma geral, atacarem a Imprensa se eles não tem a motivação para mexer nos próprios defeitos. Se isso não acontecer, continuaremos alimentando esse buraco negro.
(*) Gilmar Corrêa, ex-editor do Correio Braziliense e do Jornal de Brasília, é jornalista político e editor-adjunto do ucho.info