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Em xeque, segurança da urna eletrônica

(*) Reportagem publicada no "Jornal do Brasil", em 11 de junho de 2006

 

Com o país se preparando para as eleições de outubro, a Polícia Federal conclui inquérito que aponta compra de votos e indícios de fraude na apuração das eleições de 2004, no Rio. Se comprovados, coloca em xeque a segurança da urna eletrônica. A conclusão aguarda apenas o resultado da perícia em 600 cartões eletrônicos - os flashcards - dos computadores usados no Estado. Dois peritos, especialistas em informática, analisam o material no Instituto Nacional de Criminalística de Brasília.

O processo corre em segredo de Justiça. Dois políticos do Rio já foram indiciados por formação de quadrilha e compra de votos - um vereador e um ex-deputado. A PF já tem provas para acusar pelo menos mais três pessoas, entre elas outro político carioca e o assessor de um juiz eleitoral. A investigação continua sobre um grupo que teve os sigilos fiscal, bancário e telefônico quebrados.

Uma denúncia sobre oferecimento de votos a candidatos, em 2003, deu início aos trabalhos na Delegacia Institucional da Polícia Federal. Há indícios de que a fraude envolva pessoas que teriam acesso aos flashcards e manipulariam resultados através de um programa de computador pirata. Segundo a PF, "há suspeitas de adulteração nas eleições de 1998, 2000 e 2002".

Embora a perícia nos cartões ainda não assinale problemas, tanto os policiais quanto o Tribunal Superior Eleitoral atestam que a urna - com software de tecnologia nacional - é eficiente, mas não 100% segura. Só o resultado técnico da PF, previsto para dentro de dois meses, poderá trazer respostas concretas.

[navy]A assessoria do Tribunal Regional Eleitoral do Rio reconhece que as fraudes "poderiam ocorrer nos computadores do TRE". De acordo com a assessoria, "são esses computadores que recebem a soma de votos das urnas. Mas a fiscalização também é intensa, e durante a totalização dos votos o sistema sofre dezenas de tentativas de invasões de hackers". O TRE assegura, porém, que o sistema de proteção "detecta imediatamente essas tentativas de invasões".

Diretor-geral do TSE, Athayde Fontoura Filho diz que os aparelhos são guardados com o máximo de segurança pelos tribunais regionais eleitorais. E não duvida da eficácia do sistema.

- A urna é um mero computador, e o que dá segurança a ela contra hackers é o fato de não estar ligada em rede - observa Fontoura - A função do flashcard é guardar os dados do eleitor e do candidato. Mas não vou dizer que possa ter algo que não descobrimos.

Fontoura admite que a falha pode estar justamente nas mãos de quem deveria fiscalizar os aparelhos. "Estamos analisando a situação do presidente da seção", adianta. Com a folha de votação nas mãos, tem o número do título de eleitores que não foram votar, e poderia habilitar outra pessoa para votar no lugar dos faltosos.

Os delegados ouviram depoimentos de pessoas ligadas diretamente no processo eleitoral e de alguns suspeitos de venda de votos. A equipe da PF também buscou orientações de 30 especialistas em informática durante dois anos.

O que deixou os policiais intrigados foi a demora do Tribunal Regional Eleitoral do Rio em entregar os cartões das urnas. A requisição, segundo a PF, foi feita em meados do ano passado, mas só em janeiro deste ano o TRE-RJ autorizou a abertura das urnas lacradas, guardadas em um depósito. O TRE informou que o pedido foi dirigido ao TSE em Brasília, e justificou a demora pelo trâmite da solicitação.

A PF enviou uma cópia do inquérito em andamento para ministros do TSE, instituição responsável pela segurança dos softwares. O presidente do TRE do Rio, Marlan Merinho, adianta que a investigação "servirá para demonstrar o quanto as urnas são seguras".

O Brasil tem 432.630 urnas eletrônicas, fabricadas pelas multinacionais Unisys e Diebold - vencedoras das licitações. As empresas são responsáveis pelos aparelhos e não respondem pelo software, de responsabilidade do TSE.

 

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