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Invencionice meramente eleitoreira

(*) Ucho Haddad

 

 

São Paulo acordou nesta segunda-feira com mais uma incursão eleitoreira do prefeito Gilberto Kassab, que tenta permanecer mais quatro anos à frente da administração da maior cidade do País. Um conjunto de regras restritivas para a circulação de caminhões, que em nada contribuirá para minimizar o trânsito que os paulistanos enfrentam diuturnamente.

Não bastasse o rodízio imposto a todos os veículos que circulam na cidade, agora os caminhoneiros terão de mesclar a nova restrição às regras já existentes. Soma-se o rodízio municipal ao conceito de placas pares e ímpares. Em outras pavaras, uma barafunda difícil de ser compreendida e aplicada.

Considerando que o paulistano perde boa parte do tempo em engarrafamentos muitas vezes inexplicáveis, subir em qualquer palanque com uma promessa de solucionar o problema do trânsito pode ser uma excelente estratégia eleitoral. Que dirá quem desembarca numa campanha pela reeleição com uma tentativa de solução em andamento.

O que Gilberto Kassab tenta, de maneira atabalhoada, é capitalizar politicamente com uma solução que os especialistas já antecipam o fracasso. Limitar o tamanho dos caminhões no centro expandido da capital dos paulistas pode parecer uma solução, mas fará com que as empresas de transporte de carga troquem suas enormes geringonças por veículos menores, aumentando, assim, uma frota que em termos numéricos já é assustadora.

Vilipendiados no direito constitucional de ir e vir, muitos motoristas de veículos de passeio encontraram uma saída para driblar a imposição municipal. Adquiriram um carro reserva – normalmente mais barato e não necessariamente novo - o que vem contribuindo para aumentar o caos no trânsito de São Paulo. Para piorar, no emplacamento de carros novos há uma enorme procura por placas que permitam ao proprietário circular livremente às segundas e sextas-feiras, dias em que o trânsito na capital paulista apresenta os pirões índices de lentidão. Tudo porque quem viaja na sexta-feira quer voltar na segunda sem restrição de qualquer natureza.

Não obstante, a irresponsável expansão do crédito faz com que quase mil carros novos entrem em circulação todos os dias na cidade de São Paulo. Mesmo diante de tanto difícil situação, nenhuma autoridade se dispõe a pensar a longo prazo, buscando uma solução impactante para o mais complexo trânsito que se tem notícia no País.

Os caminhões só poderão circular na cidade entre as 9 da noite e as cinco da manhã, o que obrigará a mudança de hábitos de comerciantes e transportadores. Se assaltos ocorrem à luz do dia, imagine o que acontecerá na calada da noite. A Polícia Militar, responsável pelo patrulhamento preventivo, não sabe como agir diante das novas regras de trânsito.

Na esfera do governo federal, Lula da Silva, a bordo das falácias discursivas do PAC, anunciou investimentos bilionários para a construção de um trem de alta velocidade, que deve ligar as cidades de São Paulo, Campinas e Rio de Janeiro. Tudo muito lindo e politicamente correto, mas melhor seria se essa fortuna anunciada fosse investida em soluções para o trânsito das cidades envolvidas no projeto.

A prefeitura paulistana estima que nesta segunda-feira, 30 de junho, – data de estréia das novas imposições – 85 mil caminhões deixaram de circular no centro expandido da cidade, proporcionando 15% a mais de fluidez no trânsito.

Contra fatos concretos não existem argumentos capazes de desmenti-los, mas a prova de fogo dessa tal operação de salvamento do trânsito paulistano será no primeiro dia útil de agosto, quando as escolas retomam suas atividades. Fazer uma operação como essa, logo no início das férias escolares, é querer zombar da capacidade de raciocínio do mais inocente cidadão.

Gilberto Kassab tomou gosto pelo poder, e nele quer manter-se a qualquer custo. Se o plano mirabolante do alcaide paulistano vai funcionar, não se sabe – quem entende do assunto diz que não –, mas uma coisa é certa. O prefeito criou uma enorme dificuldade para os caminhoneiros, e vendeu uma falsa facilidade para os munícipes.

Nesse jogo imundo do poder, a dificuldade criada pode ser a moeda de troca para algumas doações de campanha.

 

(*) Ucho Haddad, 49, é jornalista investigativo, colunista político, poeta e escritor. Editor do www.ucho.info, é articulista do site do jornalista esportivo Wanderley Nogueira (www.wanderleynogueira.com.br), do Inforel (www.inforel.org) e da Gazeta do Oeste (http://gazetaoeste.com.br).

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