A
maior historieta desta semana é a coluna de Diogo Mainardi, na
revista “Veja”, em que ele conta quem será o novo
alvo a ser metralhado no país
O maior portento jornalístico da semana é criptografado.
Parece-se muito com aquelas letras das músicas do Chico Buarque:
diziam uma coisa quando queriam dizer outra. O maior furo jornalístico
da semana, também, é curto. Apareceu naqueles moldes a
que os franceses chamavam de "roman à clef", os romances
urdidos com nomes trocados. A maior historieta desta semana é
a coluna de Diogo Mainardi, na revista “Veja”, em que ele,
fazendo uso de todos esses artifícios, conta (com quatro entrelinhas
a cada linha que se lê) quem será o novo alvo a ser metralhado
no país: trata-se de um senador que lida com telefonia e que
teria feito uso de doleiros (supostamente ligados aos mesmos doleiros
de Paulo Maluf) para fazer suas "movimentaçõezinhas".
Tais
doleiros não teriam ido depor nas CPIs porque esse senador muitos
favores econômicos teria feito à campanha de Lula. Nesse
sentido, Paulo Salim Maluf e seu calvário público teriam
servido de bucha de canhão para afastar o cálice da punição
judicial de outros nefelibatas da doleiragem ou corifeus do toma-lá-dá-cá
tão requerido pelo mundo neoliberal do lulismo.
O
que está escrito nas entrelinhas de Diogo Mainardi ocupou e mesmo
estragou todo o feriado de muita gente em Brasília. Afinal, teme-se
que outro bote esteja sendo armado contra alguém da telefonia.
Da mesma forma que a PF armou o bote contra Daniel Dantas, do Banco
Opportunity, quando ele contratou a Kroll para checar se o governo petista
andava ou não metendo a mão na massa da telefonia.
Para
entender a gravidade das entrelinhas de Mainardi: a venda das Teles
no Brasil foi o maior processo de privatização realizado
no mundo, num montante de R$ 85 bilhões, desde o governo Collor
até os dias que correm. Grampos feitos sob o governo FHC mostraram
que o tucanato agia via intervenção do Fundo de Pensão
dos funcionários do Banco do Brasil e da concessão de
aval (carta de fiança) por parte do BB para que os consórcios
pudessem montar a engenharia financeira para compra das Teles.
O
ex-presidente FHC participou diretamente da operação destinada
a favorecer o consórcio liderado pelo Banco Opportunity no leilão
da Telebrás, realizado em julho de 98. Isso surgiu pela “Folha
de S.Paulo”, com a divulgação de 46 fitas com gravações
de conversas telefônicas entre membros do alto escalão
do governo, incluindo o presidente da República.
FHC,
revelavam as fitas, autorizou a utilização do seu nome
para pressionar o Fundo de Pensão do Banco do Brasil –
Previ – a aderir ao consórcio comandado pelo Opportunity
e pela empresa italiana Stet, tentando facilitar a vitória deste
grupo no leilão da Tele Norte Leste. A divulgação
das primeiras fitas levou à queda de Mendonça de Barros
e Lara Resende. O Opportunity, de Daniel Dantas, teve entre seus sócios
fundadores o ex-presidente do BNDES e ex-diretor do Banco Central, Pérsio
Arida, e sua mulher, a economista Elena Landau, que, antes de ir para
o Opportunity, coordenou, como funcionária do BNDES, todo o esquema
de privatização do setor de telefonia.
Com
todos os erros que Daniel Dantas cometeu, incluindo sobretudo ter mandado
arapongas privados grampearem a torto e a direito por aí, foi
o governo quem o afundou na briga por esses bilhões a envolver
Previ/Telefonia. Ou seja: um empresário foi escolhido a dedo.
O
que a coluna de Mainardi revela, em suas tantas e tamanhas entrelinhas,
é que a máquina de fazer alvos nessa briga escolheu um
novo foco de mira: ao que tudo indica, é o senador apontado nas
entrelinhas da coluna de “Veja”. Ou ainda por outra: um
novo Daniel Dantas está surgindo por aí, uma nova operação
Chacal (aquela que a PF deflagrou contra a Kroll) pode estar sendo urdida
contra esse novo inimigo potencial.
São
essas mal traçadas que explicam por que muito político
não conseguiu pregar o olho pruma "siesta" na tarde
fria e calculista que foi a quarta-feira de Finados em Brasília.
Nosso Halloween ainda não começou: será uma caça
às bruxas da telefonia, numa guerra em que levaremos anos para
saber quem tinha ou não tinha razão.
(*)
Claudio Tognolli é jornalista e professor doutor
da ECA-USP e do Unifiam-Faam. Autor de "O Século do Crime" (Boitempo),
"O Mundo Pós-Moderno" (Scipione), "A Sociedade dos Chavões"
(Escrituras) e "Falácia Genética: a Ideologia do DNA"
(Escrituras).