!
uh comunicação ilimitada

12 de abril de 2004
 

 

coluna
colunas anteriores
e-ditorial
e-xclusiva
resenha
tribuna livre
prateleira eletrônica
palestras e cursos
uuuh!
página uh!
boca maldita
utilidade pública
expediente

Gramsci e o Príncipe Moderno

(*) Ipojuca Pontes

 

Antonio Gramsci, “il gobbo” (o corcunda), teórico comunista italiano nascido na Sardenha no final do século 19, cujo pai, Francesco, foi condenado a cinco anos de reclusão por peculato e extorsão, é o ponto de referência que está por trás dos métodos e conceitos hoje levados à prática pela maioria dos partidos totalitários latino-americanos, entre eles o Partido dos Trabalhadores.

Nos anos 60, quando tomei conhecimento dos seus escritos e exerci durante algum tempo, no extinto Diário Carioca, o imperdoável ofício de “crítico participante” de cinema, fiquei perplexo com algumas de suas opiniões sobre arte em geral e o cinema, em particular. Sem levar em consideração a existência de filmes como “Nascimento de uma Nação” e “Intolerância”, de Griffith, ou obras como “O Imigrante”, de Chaplin, já disponíveis à época, Gramsci, que escrevia sobre teatro entre 1916/18 no Avanti!, jornal de Turim, associava o engenho cinematográfico ao pior do teatro de revista, considerando, numa visão estreita, que o cinema não passava de um lazer vulgar, sem alcance quanto a possibilidade de se tornar uma expressão artística.

Muito tempo depois, lendo “O Prisioneiro – A Vida de Antonio Gramsci”, de Aurelio Lepre (Editora Record, Rio, 2001), fiquei igualmente perturbado com algumas opiniões do pensador comunista quanto à arte popular, em especial no que se refere ao jazz, genuína expressão da grande arte popular afro-americana, como sendo, para ele, Gramsci, uma ameaça à cultura ocidental. Em certo trecho, ele desenvolve, xenófobo, seu arrazoado: “(O jazz) é uma linguagem que mais rapidamente comunica imagens e impressões totais de uma civilização não apenas estranha à nossa, mas certamente menos complexa do que a asiática, primitiva e elementar, ou seja, facilmente assimilável e generalizável, da música e da dança para todo o mundo psíquico”. E no seu reducionismo mecanicista ou demente, completa: “É impossível imaginar que a repetição continuada dos gestos físicos que os negros fazem dançando em torno das jazz-bands vá permanecer sem resultados ideológicos”.

Para consolidar tal preconceito cultural, Gramsci (que passou oito dos seus trinta e sete anos de vida nos cárceres de Mussolini, quando escreveu os célebres Cadernos) critica, na prisão, um sentenciado comum apaixonado pelo jazz:- “Companheiro” – chamou a atenção, ironizando - “qualquer dia você corre o risco de virar negro”.

O pensador comunista se gabava de ter contribuído para a popularização do teatro de Pirandello, mas hoje, visto a distância, não é despropositado afirmar que Gramsci não conhecia nem entendia de arte, popular ou erudita. De fato, seus conhecimentos nesse campo são escassos ou limitados pelo preconceito e pelo servilismo ideológico, como exemplificam suas considerações sobre o jazz. Salvo algumas óperas, Gramsci não tomou conhecimento dos grandes compositores e do acervo das muitas sinfonias, nem tampouco das obras de arte marcantes da humanidade, e desconfio que conhecia apenas de forma arrevesada, ou parcial, Aristóteles, Platão, Spinoza, Kant e – porque não dizer – Hegel e o próprio Marx.

O forte de Gramsci está em ter criado, por força da censura imposta pelo fascismo, uma linguagem cifrada e até obscura para a estratificação ideológica e permeio das teorias de Marx e Engels, com o apelo estratégico da “revolução passiva”, objetivando a macia tomada do poder, e que fazem, no Brasil, as delícias da bem remunerada e pedante esquerda “acadêmica”. No frigir dos ovos, os objetivos de Gramsci são os mesmos de Marx, Engels, Lênin ou mesmo Fidel Castro: a extinção do capitalismo e a implantação de um “Estado Regulado”. Só que, em lugar de chamar marxismo de marxismo, Gramsci o substitui pelo desígnio de “filosofia da práxis”, em vez de “classe” usa a expressão “grupo social”, etc. etc., redimensionando e codificando, no aporte teórico, para fins revolucionários, os conceitos de “hegemonia”,”sociedade civil”, “estado ampliado”, “intelectual orgânico” e o que chama, inspirado em Maquiavel, o “Moderno Príncipe” – que outra coisa não é senão o velho partido totalitário ou qualquer similar no gênero, como, por exemplo, o PT do companheiro Lula.

E para entender a tocante ambigüidade do PT, este Moderno Príncipe que associa a ação prática de Waldomiro Diniz à sublime idéia de uma “sociedade mais justa”, hoje na ordem do dia, nada melhor do que reproduzir as palavras de Gramsci, transcritas de um dos seus Cadernos: “O moderno Príncipe (o partido), desenvolve-se, subverte todo o sistema de relações intelectuais e morais, uma vez que o seu desenvolvimento significa, de fato, que todo ato é concebido como útil ou prejudicial, como virtuoso ou criminoso, somente na medida em que tem como ponto de referência o próprio Moderno Príncipe e serve ou para aumentar o poder ou para opor-se a ele. O Príncipe toma o lugar, nas consciências, da divindade ou do imperativo categórico, torna-se a base de um laicismo moderno e de uma completa laicização de toda a vida e de todas as relações de costume”.

A coisa parece complicada, mas não é. Basta olhar a ação do PT no governo e a reação (“senso comum”) da sociedade civil e passamos a perceber com clareza a extensão da monstruosidade em andamento.

 

(*) Ipojuca Pontes é cineasta, destacado documentarista do cinema brasileiro, jornalista, escritor, cronista, ex-Secretário Nacional da Cultura e autor do livro Politicamente Corretíssimos.

 

Leia também:

Democracia ameaçada - por José Roberto Faria Lima - 05/04/2004

UnB, apenas a verdade - por José Carlos Azevedo - 31/03/2004

Cultura da miséria - por Ipojuca Pontes - 29/03/2004

Ditadura do escárnio - por Ipojuca Pontes - 22/03/2004

Aristóteles estava certo - por Saulo Ramos - 17/03/2004

Lula e o esquema do PT - por Ipojuca Pontes - 08/03/2004

Figura de Sarney - por Ipojuca Pontes - 27/02/2004

Quadrilha Organizada - por Ipojuca Pontes - 16/02/2004

Sobre Políticos - por Ipojuca Pontes - 16/02/2004

A Diplomacia e o Eixo do Mal - por Ipojuca Pontes - 04/02/2004

O Senhor da Razão - por Roberto Romano da Silva - 15/12/2003

O PT e a marca totalitária - por Ipojuca Pontes - 28/11/2003

Repensando a advocacia e a OAB - por Luís Flávio Borges D'Urso - 12/11/2003

Pena de morte: o erro anunciado - por Luiz Flávio D'Urso - 09/10/2003

Jdanov está de volta - por Ipojuca Pontes - 04/08/2003

Estelionato Político - por Oswaldo Penna Jr. - 23/07/2003

O patrocínio da lavagem - por Luís Roberto Demarco - 11/07/2003

A importância na Ética Concorrencial - por Emerson Kapaz - 13/06/2003

 

 
ucho.info - copyright 2004 - 2005