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6 de agosto de 2003
 

 

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Politicamente Corretíssimos

Uma obra correta e política de Ipojuca Pontes

Ipojuca Pontes, jornalista e cineasta desde os primórdios dos anos 60, tem larga soma de experiência na vida política e cultural brasileira, que se inicia na cobertura como repórter de jornal do fogo revolucionário das Ligas Camponesas de Francisco Julião, em Pernambuco e na Paraíba (onde nasceu), e se projeta com a realização do documentário “Os Homens do Caranguejo”, primeiro filme brasileiro sobre o ciclo da fome nas áreas ribeirinhas do Nordeste (consagrado por seis láureas nacionais e internacionais) e culmina com curta e polê-mica passagem pela Secretaria de Cultura Nacional, onde tentou, sozinho, modificar os vínculos estabelecidos pela ditadura militar e a Nova República de José Sarney entre órgãos da cultura oficial e uma elite cultural viciada nas benesses extraídas dos cofres públicos e subtraídas, a muque, do bolso dos trabalhadores e dos empresários.


Ao longo dos anos Ipojuca Pontes escreveu quatro livros (“Cultura e Desenvolvimento”, “Cinema Cativo”, “Brasil Filmes S/A” e o roteiro de “Pedro Mico”) e compartilhou, como produtor executivo, da montagem de peças teatrais (“Um Edifício Chamado 200”, “O Homem de La Mancha”, “Um Bonde Chamado Desejo”, “Encontro no Supermercado”), além de dirigir “Os Emigrados”, de Mrozek, distinguida com o prêmio Molière de melhor interpretação e que participou, no campo teatral, do processo de anistia em curso no final dos anos 70. No cinema, além de escrever inúmeros roteiros e argumentos, produziu e dirigiu cerca de dez filmes, de ficção e documentário (entre outros, “Os Homens do Caran-guejo”, “Canudos”, “Poética Popular”, “Cidades Históricas”, “Rendeiras do Nordeste”, “Portrait of Vaquero”, “A Volta do Filho Pródigo” e “Pedro Mico”), conquistando mais de trinta prêmios nacionais e internacionais.

Por que o sr. resolveu lançar este Politicamente Corretíssimos?

Descobri que os textos guardavam entre si uma unidade surpreendente e, o que era estimulante, questionavam temas e fatos atualíssimos no contexto nacional e internacional. Por exemplo: no exame do recrudescimento do terrorismo no seio do estado moderno, antes do dia 11 setembro em Nova Iorque, e na expansão de sua prática sistemática no ocidente a partir da divulgação do “Catecismo Revolucionário”, de Serguei Netchaiev, adotado fielmente por Lênin, Fidel e Marighella nas suas escaramuças revolucionárias, e que, salvo exceção, só os profissionais do terror conhecem.
No caso da flexível ética marxista, hoje bastante em voga, faço levantamento acura-do em “Sobre a moralidade de Marx” da conduta e os métodos utilizados por Karl Marx, o pai do “socialismo cientifico”, junto a amigos, familiares e adversários em geral, que nos leva à explicação possível da criminosa moralidade adotada por tipos como Lênin, Stalin, Fidel Castro e Pol Pot. No estudo denominado “Marx e o Pensamento dos Outros”, analiso de forma didática como Marx chegou ao conceito do Materialismo Histórico, que julgo sumamente oportuno e esclarecedor, visto que no Brasil o marxismo, ainda que retardatário, predomina de modo absoluto como “práxis” acadêmica.

O Sr. trata de modo impertinente a questão do estado no Brasil. Faz sentido discutir o “papel do estado”?

A questão do estado no Brasil é um caso de polícia. A nossa frágil democracia, no momento, vem sendo encaminhada, muito manhosamente, em cima do mito da “participação”, da supremacia do público em detrimento do privado. O modelo, delineado por Rousseau, é de origem grega e conciliava democracia com escravidão, ou, na melhor das hipóteses, uma democracia de poucos. Tudo isso nos leva à Gramsci, o fanático teórico comunista italiano, com sua “revolução passiva”, em que o estado torna-se instrumento do “Partido Hegemônico”, e este é elevado à categoria do Grande Pensador e Agente da transformação revolucionária. Na leva do Estado “participativo”, apanágio de corporações e conselhos na eterna busca do “consenso”, são estabelecidos amplos privilégios às legiões de burocratas, corporações e castas disfarçadas que usufruem diuturnamente das isenções fiscais, isonomias, empréstimos a fundo perdido, salários mirabolantes e aposentadorias milionárias. A malta de Brasília está se apropriando hoje de cerca de 40% do que a sociedade produz (o PIB, algo em torno de R$ 1 trilhão e 90 bilhões), torrando tudo com a própria máquina e seus programas quase que integralmente inúteis. Como o governo toma a poupança privada, empresários e forças produtivas não têm recursos para investir nos seus negócios e indústrias, e, por extensão, não se cria emprego, valor agregado nem muito menos o desenvolvimento científico e tecnológico. Não é de estranhar que a miséria e a violência se alastrem em proporção geométrica na medida em que o estado, com sua burocracia e legiões de privilegiados, volta-se para à “inclusão social” e o combate à fome. É um massacre. Afonso Arinos, o nosso grande mestre, dizia que o Brasil, antes de ser nação, era “império”, mas não um império do tipo romano, mas “império interno”, o governo colonizando o próprio povo. Qual é a dúvida?

Mas existe outro tipo de democracia?

Claro, a democracia constitucionalmente representativa dos ingleses e dos americanos, por exemplo, onde o individuo limita o estado - e não o estado o indivíduo, como ocorre no Brasil e no grosso da América Latina (o Chile parece que está escapando do carma). O objetivo das democracias que deram certo não é a soberania do estado, especialmente intervencionista, mas a segurança do privado e a vigência das liberdades individuais. Só quando se respeitam as liberdades privadas e individuais a sociedade cresce econômica e politicamente. É respeitando a ação e a eficiência da livre empresa e tosando as garras das corporações e a voracidade da máquina estatal que a sociedade prospera. Fora disso a democracia desanda em manhosa usurpação escravocrata, ainda que acobertada por adjetivação tipo “democracia direta”, “participativa” ou “pluralista”. No Brasil atual, o estado tornou-se patrimônio de uma gigantesca oligarquia burocrática que usufrui (por força da violência legal e da ignorância da população) de forma genérica de quase toda riqueza produzida pela sociedade. De fato, sobra uma “baba” para as corporações e as castas de serviço que coonestam o sistema. Mas o povão, o velho povão – este só trabalha e paga impostos. Seria bom lembrar a Lula que a falência das repúblicas socialistas e das democracias populares (que não eram democracias nem populares), ocorreu quando caiu o mito das transformações revolucionárias e as idéias de liberdade e justiça foram congeladas em burocracia - o reinado tirano da “nomenklatura”.

O Sr. tem consciência de que sua passagem pela Secretaria Nacional de Cultura é vista como negativa por certa camada da nossa vida artística e do show bizz?

Não só de certa camada da vida artística e do show bizz, mas da burocracia também. Na breve temporada que passei em Brasília, fui ameaçado e vilipendiado dia e noite pela fauna da nomenklatura. O que a ditadura militar e o hiper-inflacionário (e estróina) governo da Nova Republica levaram anos para criar e expropriar dos trabalhadores e do cidadão contribuinte, ajudei a desmontar em menos de seis meses. Se você disser a um “semi-Deus” da vida artística que, ao usufruir os milhões de reais dos cofres públicos e manter status de beautiful people, é ele também um “cruel” representante das “elites” que despreza, sim-plesmente ficará chocado e sua reação será a de, no mínimo, cuspir na sua cara. Mas o fato é que o sujeito que tem acesso anual aos milhões ou centenas de milhares de reais da Petrobrás, jamais vai aceitar que o escorchante preço do transporte coletivo ou do bujão de gás que a massa escravizada paga é também um pesado ônus que o seu privilégio de “artista escolhido” impõe. Essa gente, para mim, é inconsciente ou hipócrita, e não tem a menor diferença da “elite exploradora” que diz desprezar. De fato, o governo Collor racionalizou administrativamente a máquina burocrática no âmbito da cultura e fechou a Embrafilme, reconhecido instrumento de corrupção e privilégios. Como eu era do ramo e não tinha medo, ajudei a fazer o que mandava minha consciência de democrata. Agora estão acusando o “oriental” Gushiken, secretário de Lula, de ser uma nova versão de Jdanov, criador do realismo socialista e do antiamericanismo como forma sistemática de atuação cultural. É provável que seja. Mas o que foi Nelson Pereira dos Santos, um dos atuais mentores da escalada estatizante do cinema, senão um religioso divulgador do Djanovismo no Brasil?
O fato é que, com a estatização do cinema – assunto que abordo em Politicamente Corretís-simos – a Petrobrás terá mesmo, como vem fazendo, de financiar a fundo perdido a produção, exibição e até financiar a ida do espectador ao cinema – financiamento, óbvio, distribuído politicamente pela Petrobrás, via preço (e lucro) escorchante do combustível e do bujão de gás arrancado do bolso da patuléia ignara. Mas seria bom avisar a Lula que Gorbachev, face à fome de 45 milhões de russos, fechou as torneiras da Goskino (comitê de cinema comunista) na extinta URSS e o próprio Fidel, a quem admira, limitou os recursos para a produção cinematográfica em Cuba, hoje circunscrita a três filmes anuais. Na Rússia, hoje, quem quiser milhões de dólares para fazer filme, pode fazê-lo. Mas terá de sacar do próprio bolso. Mas quem terá coragem de dizer isso a Lula, visto que Lula não é Collor?

O que o Sr. acha que vai ocorrer com o lançamento de seu Politicamente Corretíssimos no atual estágio da vida brasileira?

Acho que desabará uma total cortina de silêncio sobre o livro, ou, por outro lado, haverá manifestações criticas de ódio e rancor. As duas coisas não me preocupam. Tenho o lombo grosso e já não sofro com o criminosamente adverso, como no passado. Mas que será amplamente lido, mais cedo ou mais tarde, não tenho o menor receio.


Politicamente Corretíssimos
Autor: Ipojuca Pontes
Editora: Topbooks
Formato: 16cm x 23cm
Páginas: 206
Preço: R$ 28,00

CONTATO:
Ipojuca Pontes — brandwain@uol.com.br
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