| Politicamente
Corretíssimos
Uma
obra correta e política de Ipojuca Pontes
Ipojuca
Pontes, jornalista e cineasta desde os primórdios dos anos
60, tem larga soma de experiência na vida política
e cultural brasileira, que se inicia na cobertura como repórter
de jornal do fogo revolucionário das Ligas Camponesas de
Francisco Julião, em Pernambuco e na Paraíba (onde
nasceu), e se projeta com a realização do documentário
“Os Homens do Caranguejo”, primeiro filme brasileiro
sobre o ciclo da fome nas áreas ribeirinhas do Nordeste (consagrado
por seis láureas nacionais e internacionais) e culmina com
curta e polê-mica passagem pela Secretaria de Cultura Nacional,
onde tentou, sozinho, modificar os vínculos estabelecidos
pela ditadura militar e a Nova República de José Sarney
entre órgãos da cultura oficial e uma elite cultural
viciada nas benesses extraídas dos cofres públicos
e subtraídas, a muque, do bolso dos trabalhadores e dos empresários.
Ao longo dos anos Ipojuca Pontes escreveu quatro livros (“Cultura
e Desenvolvimento”, “Cinema Cativo”, “Brasil
Filmes S/A” e o roteiro de “Pedro Mico”) e compartilhou,
como produtor executivo, da montagem de peças teatrais (“Um
Edifício Chamado 200”, “O Homem de La Mancha”,
“Um Bonde Chamado Desejo”, “Encontro no Supermercado”),
além de dirigir “Os Emigrados”, de Mrozek, distinguida
com o prêmio Molière de melhor interpretação
e que participou, no campo teatral, do processo de anistia em curso
no final dos anos 70. No cinema, além de escrever inúmeros
roteiros e argumentos, produziu e dirigiu cerca de dez filmes, de
ficção e documentário (entre outros, “Os
Homens do Caran-guejo”, “Canudos”, “Poética
Popular”, “Cidades Históricas”, “Rendeiras
do Nordeste”, “Portrait of Vaquero”, “A
Volta do Filho Pródigo” e “Pedro Mico”),
conquistando mais de trinta prêmios nacionais e internacionais.
Por
que o sr. resolveu lançar este Politicamente Corretíssimos?
Descobri
que os textos guardavam entre si uma unidade surpreendente e, o
que era estimulante, questionavam temas e fatos atualíssimos
no contexto nacional e internacional. Por exemplo: no exame do recrudescimento
do terrorismo no seio do estado moderno, antes do dia 11 setembro
em Nova Iorque, e na expansão de sua prática sistemática
no ocidente a partir da divulgação do “Catecismo
Revolucionário”, de Serguei Netchaiev, adotado fielmente
por Lênin, Fidel e Marighella nas suas escaramuças
revolucionárias, e que, salvo exceção, só
os profissionais do terror conhecem.
No caso da flexível ética marxista, hoje bastante
em voga, faço levantamento acura-do em “Sobre a moralidade
de Marx” da conduta e os métodos utilizados por Karl
Marx, o pai do “socialismo cientifico”, junto a amigos,
familiares e adversários em geral, que nos leva à
explicação possível da criminosa moralidade
adotada por tipos como Lênin, Stalin, Fidel Castro e Pol Pot.
No estudo denominado “Marx e o Pensamento dos Outros”,
analiso de forma didática como Marx chegou ao conceito do
Materialismo Histórico, que julgo sumamente oportuno e esclarecedor,
visto que no Brasil o marxismo, ainda que retardatário, predomina
de modo absoluto como “práxis” acadêmica.
O
Sr. trata de modo impertinente a questão do estado no Brasil.
Faz sentido discutir o “papel do estado”?
A
questão do estado no Brasil é um caso de polícia.
A nossa frágil democracia, no momento, vem sendo encaminhada,
muito manhosamente, em cima do mito da “participação”,
da supremacia do público em detrimento do privado. O modelo,
delineado por Rousseau, é de origem grega e conciliava democracia
com escravidão, ou, na melhor das hipóteses, uma democracia
de poucos. Tudo isso nos leva à Gramsci, o fanático
teórico comunista italiano, com sua “revolução
passiva”, em que o estado torna-se instrumento do “Partido
Hegemônico”, e este é elevado à categoria
do Grande Pensador e Agente da transformação revolucionária.
Na leva do Estado “participativo”, apanágio de
corporações e conselhos na eterna busca do “consenso”,
são estabelecidos amplos privilégios às legiões
de burocratas, corporações e castas disfarçadas
que usufruem diuturnamente das isenções fiscais, isonomias,
empréstimos a fundo perdido, salários mirabolantes
e aposentadorias milionárias. A malta de Brasília
está se apropriando hoje de cerca de 40% do que a sociedade
produz (o PIB, algo em torno de R$ 1 trilhão e 90 bilhões),
torrando tudo com a própria máquina e seus programas
quase que integralmente inúteis. Como o governo toma a poupança
privada, empresários e forças produtivas não
têm recursos para investir nos seus negócios e indústrias,
e, por extensão, não se cria emprego, valor agregado
nem muito menos o desenvolvimento científico e tecnológico.
Não é de estranhar que a miséria e a violência
se alastrem em proporção geométrica na medida
em que o estado, com sua burocracia e legiões de privilegiados,
volta-se para à “inclusão social” e o
combate à fome. É um massacre. Afonso Arinos, o nosso
grande mestre, dizia que o Brasil, antes de ser nação,
era “império”, mas não um império
do tipo romano, mas “império interno”, o governo
colonizando o próprio povo. Qual é a dúvida?
Mas
existe outro tipo de democracia?
Claro,
a democracia constitucionalmente representativa dos ingleses e dos
americanos, por exemplo, onde o individuo limita o estado - e não
o estado o indivíduo, como ocorre no Brasil e no grosso da
América Latina (o Chile parece que está escapando
do carma). O objetivo das democracias que deram certo não
é a soberania do estado, especialmente intervencionista,
mas a segurança do privado e a vigência das liberdades
individuais. Só quando se respeitam as liberdades privadas
e individuais a sociedade cresce econômica e politicamente.
É respeitando a ação e a eficiência da
livre empresa e tosando as garras das corporações
e a voracidade da máquina estatal que a sociedade prospera.
Fora disso a democracia desanda em manhosa usurpação
escravocrata, ainda que acobertada por adjetivação
tipo “democracia direta”, “participativa”
ou “pluralista”. No Brasil atual, o estado tornou-se
patrimônio de uma gigantesca oligarquia burocrática
que usufrui (por força da violência legal e da ignorância
da população) de forma genérica de quase toda
riqueza produzida pela sociedade. De fato, sobra uma “baba”
para as corporações e as castas de serviço
que coonestam o sistema. Mas o povão, o velho povão
– este só trabalha e paga impostos. Seria bom lembrar
a Lula que a falência das repúblicas socialistas e
das democracias populares (que não eram democracias nem populares),
ocorreu quando caiu o mito das transformações revolucionárias
e as idéias de liberdade e justiça foram congeladas
em burocracia - o reinado tirano da “nomenklatura”.
O
Sr. tem consciência de que sua passagem pela Secretaria Nacional
de Cultura é vista como negativa por certa camada da nossa
vida artística e do show bizz?
Não
só de certa camada da vida artística e do show bizz,
mas da burocracia também. Na breve temporada que passei em
Brasília, fui ameaçado e vilipendiado dia e noite
pela fauna da nomenklatura. O que a ditadura militar e o hiper-inflacionário
(e estróina) governo da Nova Republica levaram anos para
criar e expropriar dos trabalhadores e do cidadão contribuinte,
ajudei a desmontar em menos de seis meses. Se você disser
a um “semi-Deus” da vida artística que, ao usufruir
os milhões de reais dos cofres públicos e manter status
de beautiful people, é ele também um “cruel”
representante das “elites” que despreza, sim-plesmente
ficará chocado e sua reação será a de,
no mínimo, cuspir na sua cara. Mas o fato é que o
sujeito que tem acesso anual aos milhões ou centenas de milhares
de reais da Petrobrás, jamais vai aceitar que o escorchante
preço do transporte coletivo ou do bujão de gás
que a massa escravizada paga é também um pesado ônus
que o seu privilégio de “artista escolhido” impõe.
Essa gente, para mim, é inconsciente ou hipócrita,
e não tem a menor diferença da “elite exploradora”
que diz desprezar. De fato, o governo Collor racionalizou administrativamente
a máquina burocrática no âmbito da cultura e
fechou a Embrafilme, reconhecido instrumento de corrupção
e privilégios. Como eu era do ramo e não tinha medo,
ajudei a fazer o que mandava minha consciência de democrata.
Agora estão acusando o “oriental” Gushiken, secretário
de Lula, de ser uma nova versão de Jdanov, criador do realismo
socialista e do antiamericanismo como forma sistemática de
atuação cultural. É provável que seja.
Mas o que foi Nelson Pereira dos Santos, um dos atuais mentores
da escalada estatizante do cinema, senão um religioso divulgador
do Djanovismo no Brasil?
O fato é que, com a estatização do cinema –
assunto que abordo em Politicamente Corretís-simos –
a Petrobrás terá mesmo, como vem fazendo, de financiar
a fundo perdido a produção, exibição
e até financiar a ida do espectador ao cinema – financiamento,
óbvio, distribuído politicamente pela Petrobrás,
via preço (e lucro) escorchante do combustível e do
bujão de gás arrancado do bolso da patuléia
ignara. Mas seria bom avisar a Lula que Gorbachev, face à
fome de 45 milhões de russos, fechou as torneiras da Goskino
(comitê de cinema comunista) na extinta URSS e o próprio
Fidel, a quem admira, limitou os recursos para a produção
cinematográfica em Cuba, hoje circunscrita a três filmes
anuais. Na Rússia, hoje, quem quiser milhões de dólares
para fazer filme, pode fazê-lo. Mas terá de sacar do
próprio bolso. Mas quem terá coragem de dizer isso
a Lula, visto que Lula não é Collor?
O
que o Sr. acha que vai ocorrer com o lançamento de seu Politicamente
Corretíssimos no atual estágio da vida brasileira?
Acho
que desabará uma total cortina de silêncio sobre o
livro, ou, por outro lado, haverá manifestações
criticas de ódio e rancor. As duas coisas não me preocupam.
Tenho o lombo grosso e já não sofro com o criminosamente
adverso, como no passado. Mas que será amplamente lido, mais
cedo ou mais tarde, não tenho o menor receio.
Politicamente
Corretíssimos
Autor: Ipojuca Pontes
Editora: Topbooks
Formato: 16cm x 23cm
Páginas: 206
Preço: R$ 28,00
CONTATO:
Ipojuca Pontes — brandwain@uol.com.br
Topbooks — (21) 2233.8718 / 2283.1039 / topbooks@topbooks.com.br
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