ucho.info - No início da década de 80, o futebol brasileiro foi surpreendido com a máfia da Loteria Esportiva. Duas décadas mais tarde, a lavagem de dinheiro através de clubes ganhou o cenário, ocasião em que o ex-deputado Eurico Miranda esteve no olho do furacão. O que facilita a criminalidade no mundo do esporte?
Silvio Torres - A criminalidade no mundo do futebol resulta da ausência de uma política de esporte no país. Um ambiente em que a desordem predomina é um campo fértil para a ação da bandidagem.
ucho.info - Lavar dinheiro através de clubes de futebol é uma prática comum, muitas vezes camuflada por engenharias tributárias desafiadoras. Existe algum mecanismo da lei capaz de impedir esse tipo de crime?
Silvio Torres - Claro que sim. É só impor mais rigor e fiscalização na legislação que cuida da lavagem de dinheiro. O Banco Central, a Receita e a Polícia Federal, amparados em leis mais rigorosas, certamente colocariam um basta nessa prática criminosa. A legislação em vigor é bem leniente, cheia de brechas que fazem a alegria dos contraventores.
ucho.info - No momento, o ápice do escândalo do futebol brasileiro se deu com a parceria entre a MSI e o Corinthians. De que maneira será possível investigar esse caso, uma vez que os responsáveis se encontram fora do País?
Silvio Torres - Os dirigentes corintianos que comandaram a parceira com a MSI estão todos no país. Eles vão ser convocados para oferecer explicação. Nossas esperanças estão depositadas na FIFA, que anunciou que vai adotar um pacote de mecanismos para acompanhar o relacionamento entre os clubes de todo o mundo.
ucho.info - A classe política vive o momento de maior descrédito de sua história. Na sua opinião, o Congresso Nacional tem moral suficiente para investigar mais uma vez o futebol brasileiro?
Silvio Torres - Se a CPI apresentar um trabalho sério, com resultados positivos, desvendando o subterrâneo mafioso do nosso futebol, dará uma contribuição para melhorar a imagem do Congresso Nacional.
ucho.info - Lavagem de dinheiro e evasão de divisas são os crimes maiores praticados no futebol brasileiro, mas há outras transgressões cometidas. O senhor não acha estranho o fato de os dirigentes dos clubes continuarem impunes?
Silvio Torres - A impunidade continua, única e exclusivamente, pela ausência de uma legislação que combata a lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
ucho.info - O Conselho de um clube é sempre responsável pelos atos de sua diretoria executiva. No caso do Corinthians, o Conselho tem como integrante o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um conhecido torcedor do clube. Isso pode atrapalhar as investigações?
Silvio Torres - Não acredito. Foi um grupo bem reduzido e já identificado
que levou o Corinthians para a situação de caos em que se encontra. A grande maioria da nação corintiana, na qual me incluo, está apoiando as investigações que apuram as causas que estão maculando a história de uma das entidades esportivas mais importantes do país. Pode estar certo que o Corinthians sairá dessa fase com apoio de sua imensa torcida.
ucho.info - Quem tem acompanhado mais detalhadamente a arrecadação das partidas do Campeonato Brasileiro logo percebe que públicos idênticos proporcionam arrecadações distintas. Não é estranho? O Grêmio firmou parceria com a iniciativa privada para eliminar a fraude.
Silvio Torres - Evasão de renda de partidas de futebol só será evitada com a adoção de mecanismos sérios de controle. Mas também é necessário que os diretores dos clubes queiram realmente acabar com esta prática. Existem fortes indícios de que são justamente esses dirigentes que oferecem facilidades para a manipulação das rendas.