continua...
E.S. - Os recentes números da Economia, divulgados pelo IBGE, permitem ao governo a utilização de uma imagem distorcida da realidade, considerando-se que a evolução apresentada tem o ano de 2003 como comparação. De tal feita, a manipulação da verdade pode transferir ao governo Lula maior poder de persuasão, especialmente quando o assunto for a suposta necessidade de adoção de medidas mais duras. Esta realidade política que se desenha pode ser comparada a que outra no mundo? Estaríamos perto de um processo de cubanização ou da bolivarização do país, esta última em uma clara referência ao que acontece na Venezuela de Hugo Chávez?
Roberto Romano – O mais próximo exemplo que conheço na história recente da Humanidade é o governo de Adolf Hitler. O governo nazista de Hitler foi um sucesso econômico. Reduziu uma inflação tremenda, restabeleceu a atividade industrial e garantiu emprego para muita gente, conquistando a simpatia da classe empresarial alemã e de boa parte do operariado. Ou seja, alcançou legitimidade para seguir o seu programa. É preciso muito cuidado ao se unir o sucesso de um governo, mesmo que ele seja efetivo, ao programa político, uma vez que é impossível traduzir uma coisa em outra. É bom lembrar que no período militar tivemos um momento de grande sucesso econômico, justamente antecedendo as medidas mais duras de ataque à democracia, como torturas, censura, entre tantas outras situações. É preciso não cair na armadilha da passagem do econômico para o político. O simples fato de alguns acertos na área econômica não dá legitimidade ao governo para modificar a estrutura democrática. No campo da ideologia política, no que tange a um processo de cubanização, é preciso ver até onde o setor empresarial brasileiro, a classe média e a universidade vão aceitar esse tipo de doutrina. No caso da Igreja Católica, por exemplo, todas as resistências já foram armadas, em um claro sinal de não aceitar tal tipo de condução, por que sabe que irá perder prestígio e poder. Em um ato de coerência com o próprio passado, a Igreja tende a se afastar de um apoio explícito ao governo.
E.S. – Desde janeiro de 2003 até agora, o governo Lula se dedicou a cuidar da macroeconomia, sendo que a micro-economia continua apenas no discurso. Os bancos têm auferido lucros absurdos, os juros são impagáveis e a carga tributária é, no mínimo, absurda e insuportável. O orçamento de 2005 apresenta claros sinais de que a micro-economia vai, mais uma vez, ficar para depois. O senhor acha que se trata de uma estratégia para a implantação do projeto político do PT e do governo Lula?
Roberto Romano – Acho que sim. Tomando como exemplo o caso da imprensa, só se consegue apoio desse setor com a aplicação de recursos oficiais em veículos de comunicação que interessem ao governo. No caso da micro-economia, a oferta de crédito através das instituições financeiras oficiais acaba se revertendo em apoio ao governo, em um claro processo de cooptação. Ao mesmo tempo em que acontece a oferta de crédito, o governo deflagra campanhas publicitárias, binômio que acaba agindo no inconsciente coletivo. Essa é uma imagem idealizada, porém não tão fácil.
E.S - Em suas recentes declarações, mesmo que em tom de brincadeira, o presidente Lula tem demonstrado um certo interesse pelas razões que levam alguns ditadores a permanecerem no poder. Foi assim em relação o ditador do Gabão, como de igual maneira ocorreu com o presidente de Moçambique. Seria um sinal de que o presidente Lula está levando a sério a idéia de se perpetuar no poder?
Roberto Romano – É um sinal mais do que evidente que já existe, desde longa data, na sua atuação dentro do PT. O presidente sempre agiu dentro do PT como um ditador, definindo o que o partido deveria fazer. É impressionante, mas o PT, com tantos acadêmicos e pessoas preparadas, nunca admitiu uma candidatura à Presidência da República que não a de Luiz Inácio Lula da Silva. O caso do senador Eduardo Suplicy é o maior exemplo dessa situação, que ao se oferecer como candidato à Presidência quase perdeu o seu mandato parlamentar. O centralismo democrático, doutrina oficial do Partido dos Trabalhadores, sempre tem um operador. E esse operador sempre é o ditador do Estado.
E.S. - Até este momento, quando realizamos nossa entrevista, o presidente Lula já perdoou pouco mais de R$ 1,139 bilhão em dívidas de países pobres. Ao que parece, a medida tem o objetivo de transformá-lo, se não em um estadista, em um líder mundial dos pobres, o que certamente é um pseudo-referendo para uma tentativa de permanecer mais tempo no poder. Dispensar verdadeiras fortunas, quando os problemas sociais do país se avolumam, é falta de ética, de lógica ou de sensibilidade política?
Roberto Romano – As três respostas são válidas. É falta de ética porque com o perdão dessas dívidas não se ajuda a resolver substancialmente o problema daqueles países. Trata-se apenas de uma atitude cosmética. Esses países continuam devendo aos Estados Unidos, Inglaterra, França e Alemanha, que historicamente não perdoam dívidas, mas, se o fazem, o preço é outro. O mercado de armamentos é uma moeda de troca em caso de um possível perdão, o que tem transformado a África em uma carnificina permanente. São exércitos armados matando minorias e dando golpes, com a indústria armamentista mundial lucrando com a situação. No campo da falta de sensibilidade é evidente. Falar em sensibilidade social para um partido que toma o poder e, em seu primeiro ato, estabelece o superávit primário, que, sequer, Fernando Henrique Cardoso teve coragem de assumir, mostra que a segurança pública, a saúde e a educação foram colocadas de lado. A política de dar adeus com o chapéu alheio é o traço mais triste dos políticos brasileiros, que está sendo repetida pelo Partido dos Trabalhadores. Trata-se do uso de recursos do Estado para uma troca de favores. Na verdade, o que o presidente Lula está fazendo é a mais antiga política das oligarquias e do coronelato brasileiro.
E.S. - É verdade que capitalistas e socialistas nunca se entenderam, sendo que o histórico desentendimento acabou fazendo desse convívio algo muito parecido ao que ocorre com o amor e o ódio. O senhor acredita que o governo americano exagerou quando declarou que com a vitória de Lula estava completo o eixo do mal?
Roberto Romano – O governo americano exagerou, sim, porque o programa do Partido dos Trabalhadores no que se refere ao relacionamento atual com os Estados Unidos não se cumpriu. Nunca se ouviu falar tanto em anti-imperialismo enquanto o PT era oposição. A partir do momento em que chegou ao governo, o partido procurou manter boas relações com Washington e, inclusive, com o presidente George W. Bush. O que ocorre na perspectiva da ética, presente na atividade do governo, é que o partido está fazendo exatamente aquilo que aprendeu sempre. O ministro José Dirceu, por exemplo, está se lembrando da época em que era militante do Partido Comunista. E no PC a atitude era de obedecer incondicionalmente a linha do partido, sob pena de ser desacreditado. Existe uma longa tradição na história do PC de transformar pessoas, perfeitamente de esquerda, em traidores. O governo americano é extremamente radical de direita, o que fez com que o Partido Republicano guinasse ao centro, na tentativa de enfrentar a candidatura do democrata John Kerry. O governo Bush foi muito perigoso para a política norte-americana, até do ponto de vista da hegemonia. Uma potência hegemônica só consegue dominar, com mais segurança e por mais tempo, se não adotar o radicalismo no relacionamento externo, ou seja, se souber negociar diplomaticamente. E o governo Bush não sabe negociar, mas impor interna e externamente.
E.S. - Com o passar do tempo, é quase inevitável impedir que teorias e pensamentos sofram mudanças por conta da evolução ou, até mesmo, involução da sociedade, muitas vezes como reflexo da ingerência política. O senhor acredita que a ética conta com uma blindagem ou sofreu mudanças ao longo dos anos. O que foi e o que é, na sua visão, a ética na política?
Roberto Romano – Não entendo que a ética tenha sofrido uma blindagem. Pelo contrário, atravessou momentos de refinamento e apuramento, como de degradação. Muitas vezes esses processos são simultâneos, uma vez que temos grandes movimentos políticos visando a ética, ao mesmo tempo em que setores desses mesmos movimentos caminham para a falta de ética. A nova República foi uma fase típica da história brasileira, que teve na instauração da Constituição o seu grande momento. Simultaneamente ocorreu uma abertura para o assalto à República, uma licença política inédita que acabou criando o chamado Centrão. Nessa linha, a ética na política caminha sempre aos trambolhões, quando se experimenta o insustentável e, diante da reação, surge a possibilidade de modificação para melhor. Minha dúvida maior é se no Brasil estamos conseguindo fazer o movimento para o melhor. A oposição não está consertada, independentemente de alguns políticos oposicionistas estarem conseguindo manter uma linha coerente, mas existe uma zona de compromisso com a linha do Partido dos Trabalhadores que enfraquece muito a oposição. O grupo carlista (Antonio Carlos Magalhães) está entrando para a base aliada, o que enfraquece bastante a oposição que o PFL vem fazendo, que fica reduzida à liderança do senador Jorge Bornhausen e do deputado José Carlos Aleluia, que como outros mantêm a coerência oposicionista. No caso do PSDB, existe uma aguerrida oposição no Senado, situação que não se repete na Câmara dos Deputados. Ainda no campo do PSDB, existem governadores, a exemplo do mineiro Aécio Neves, que fazem as suas cortes, acreditando ser essa uma política realista. As direções partidárias deveriam, em primeiro lugar, realizar um trabalho interno de esclarecimento da estratégia que está em jogo, mostrando que concessões ideológicas trocadas por verbas oficiais podem custar muito mais caro do que se imagina.
1 2 3
|
|