UH
– A política nem sempre freqüenta as conversas
do cotidiano, sejam elas mais ou menos rebuscadas. Tal ausência
leva a população a um quase total desinteresse pelo
assunto, mas, em alguns momentos, o vernáculo política
está muito mais para chacota do que para algo que traduza
seriedade. O que lhe motivou a concorrer a uma vaga na Câmara
dos Deputados, em outubro de 2006?
MC
– É preciso lembrar, antes de qualquer coisa, que
sou apenas pré-candidata. A minha dúvida ainda repousa
na dificuldade de financiamento da minha eventual campanha. Não
sei, até então, se terei dinheiro ou não
para enfrentar uma campanha eleitoral. De nada adianta ser ético,
com boas idéias e assessores idem, se você não
tem dinheiro para colocar a campanha na rua. Existem pessoas antiéticas
que, de uma maneira ou outra, alcançam o triunfo com muito
dinheiro e péssima assessoria. Ainda estou na fase de viabilizar
financeiramente a minha campanha, o que, em caso de sucesso, me
dará a chance de ingressar no universo da política.
O que me levou a almejar um mandato parlamentar foi o compromisso
que tenho comigo mesma de não omitir, de fazer a minha
parte. Se conseguir mudar alguma coisa, mesmo que pequena, estarei
certa de que a minha parte já foi feita.
UH
– A classe política vem amealhando ao longo dos
anos um contínuo descrédito, situação
que muitas vezes leva o cidadão a torcidas de nariz e caretas
variadas, sempre como sinal de reprovação, como
se os políticos já devessem ter sido alijados da
sociedade. Na sua opinião é possível mudar
tão difícil situação, modificando,
principalmente, o conceito que a população tem a
respeito da classe política?
MC
- A classe política nada mais é do que o estrito
reflexo das opções da sociedade. O cidadão
não pode julgar antecipadamente, pois o político
não chega a um cargo eletivo sozinho. Alguém o elege.
Os políticos representam, em que instância for, um
determinado número de pessoas. Para mudar o cenário
atual é preciso mudar, antes de tudo, a mentalidade do
povo brasileiro, que deve deixar de ser imediatista, optando por
um raciocínio de médio e longo prazo. O reflexo
da mudança será uma classe política com consciência
também de médio e longo prazo, que naturalmente
estará voltada de fato ao interesse público, ao
planejamento político como um todo. A sensação
que tenho, nos dias de hoje, é de puro imediatismo, onde
os eleitos querem apenas solucionar os próprios problemas.
UH
– Independentemente dos motivos que a levara a optar
pela política, sua chegada a um universo tão condenado
e contestado se dá em um momento que poderíamos
chamar de divisor de águas, onde a reforma política
para ser o cardápio do cotidiano. O Brasil, na sua opinião,
não carece muito mais de uma reforma da política
do que uma reforma política?
MC
– Exatamente. Na realidade, a reforma política que
está em discussão é o continuísmo
do que estamos presenciando. Ou seja, a manipulação
vai continuar existindo, sempre exercida por uma minoria poderosa,
sendo que a estrutura e os grupos políticos continuaram
iguais. A reforma política precisa ser reavaliada com urgência,
da mesma maneira que as pessoas precisam repensar suas opções
políticas. Mais uma vez, a conscientização
política é o fator mais importante, pois, em outubro
de 2006, escolher o melhor candidato será um trabalho árduo
para o eleitor.
UH
– Quando lhe perguntei, em tom quase afirmativo, se
era candidata, sua resposta imediata foi de que estava tentando
viabilizar a possibilidade de se candidatar, tendo como alvo primordial
a parte financeira de sua campanha. A sociedade como um todo tem,
por força da evolução do mundo, a obrigação
de se fazer representar no parlamento, sob o risco de, não
o fazendo, se distanciar do poder e ver comprometidas suas mais
básicas necessidades e reivindicações. Na
sua opinião, não é dúbia a situação
de um político que se vale do dinheiro de uma minoria para
financiar a própria campanha, se elegendo com os votos
de uma maioria, sabidamente desprotegida e sem representação
alguma? Como mudar tal situação?
MC
– Recentemente, discuti o assunto por conta de uma eventual
campanha rumo à Câmara dos Deputados. Na ocasião
externei minha vontade de fazer algo absolutamente transparente,
onde muitos doariam um pouco para a minha campanha, o que de maneira
cairia no modelo citado na pergunta. De fato é muito difícil
e trabalhoso, mas você não trabalha para uma minoria.
Se você recebe de muitas pessoas, mesmo que módicas
sejam as contribuições, o seu espectro representativo
como parlamentar passa a ser maior e mais respeitado. Ao passo
que uma doação volumosa de uma empresa, certamente
existirá uma cobrança mais à frente. Ou seja,
você já começa vendendo a sua idéia
muito antes dela acontecer, o que leva o candidato ou político
a perder a imunidade do seu próprio objetivo político,
pois o candidato eleito terá que defender os seus “patrões”.
A minha crise existencial reside neste ponto, pois é exatamente
contra isto que venho lutando.
UH
– No caso de sua campanha ser vitoriosa, sua voz, como
política, e não mais como cidadã comum, será
dissonante e isolada do restante do coro. Tal situação
lhe é clara?
MC
– Sim, é verdade, mas diz o ditado que de grão
em grão a galinha enche o papo.
UH
– Mas os políticos atuais têm enchido o
papo de uma granja inteira, ou não?
MC
– Concordo (risos), mas, se eleita, farei a minha parte,
e, um dia qualquer, poderei dizer que tentei.
UH
– Sua decisão de tentar a vida política
acabou desaguando no Partido Verde. A opção partidária
se deu por ideologia política ou por mero interesse eleitoral?
A pergunta que lhe faço se deve ao fato de o coeficiente
eleitoral de um partido pequeno, por força de lei, ser
muito menor.
MC
– É verdade, pois não há como fugir
da realidade dos fatos, mas ao mesmo tempo o PV tem muito menos
dinheiro e estrutura. Como mulher – e todos os partidos
precisam de mulheres – é muito mais fácil,
principalmente, se as mulheres tiverem visibilidade e visão
política, além de vontade de transformar idéias
em realidade, creio ser mais fácil obter mais fácil
obter recursos financeiros para financiar uma campanha. O PV é
um partido que tem doze valores – aliás, é
o único partido que tem isso – como, por exemplo,
diversidade, ecologia, espiritualidade, ou seja, coisas importantes
que nada mais são do que qualidade de vida. E qualidade
de vida é compromisso a médio e longo prazo.
UH
– Os partidos precisam das mulheres, segundo suas próprias
palavras. Recentemente o presidente Nestor Kirchner, colocou uma
mulher no comando da economia argentina. Meses depois, uma mulher
venceu a corrida presidencial chilena. A participação
da mulher na política mundial já tem história,
mesmo que ainda acanhada, mas, feminilizar a política brasileira
seria uma saída para diminuir a corrupção?
MC
– Foi a saída encontrada pelo México. Em julho
de 1999, o Jornal Nacional exibiu uma reportagem sobre a solução
que o México encontrou na contratação de
mulheres para diminuir a corrupção na polícia
local. Uma pesquisa da Universidade de Maryland (USA) apontou
a mulher como um ser mais idealista. Talvez por gerar a vida e
ser mais emocional. O México, no entanto, como já
disse, melhorou o problema da corrupção contratando
mulheres. No Brasil a presença do equilíbrio feminino
e masculino no poder legislativo poderá ser a saída
para a diminuição da corrupção, já
que experiências mundiais estão provando isso. A
pesquisa citada, e que foi base da decisão do governo mexicano,
provou que a mulher é biologicamente menos corrupta.