Alquimista insurgente
tenta resgatar a dignidade popular
Ex-mulher
do presidente do Partido Liberal quer fazer da trágica
experiência conjugal uma plataforma de acertos pessoais
e renovação política
(*) Ucho Haddad
Entrevistas
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De
personalidade forte e decidida, a paulistana Maria Christina Mendes
Caldeira estreou na política sob as bênçãos
do então marido, o ex-deputado Valdemar Costa Neto, mais
precisamente no episódio do jato executivo que, depois
de aterrissar no aeroporto de Congonhas, em São Paulo,
vindo de uma festa de aniversário do ex-tesoureiro do PT,
Delúbio Soares, quase despencou sobre a avenida Rubem Berta,
uma das mais movimentadas da capital paulista.
De
família tradicional e muito conhecida, Maria Christina
não mais deseja viver à margem do mundo da política,
mas nele estar inserida, desde que seja eleita em outubro próximo.
Depois de ver o próprio nome ser rebocado pelas estripulias
que Valdemar Costa Neto protagonizou no esquema de corrupção
que levou o governo do presidente Lula à condição
de semináufrago, Mendes Caldeira começa a planejar,
intensa e oficiosamente, sua campanha para tentar, pelo Partido
Verde, uma vaga na Câmara dos Deputados. Enquanto enfrenta
Costa Neto em várias instâncias da Justiça,
Maria Christina articula nos bastidores a coalizão de figuras
importantes e competentes no universo político, receita
que poderá levá-la a ser a mais nova freqüentadora
do Congresso Nacional, a partir de janeiro de 2007.
Numa tranqüila manhã
de sábado, em Brasília, Maria Christina recebeu
o editor para uma entrevista, onde, depois de alguma insistência,
falou rapidamente do seu conturbado convívio com Valdemar
Costa Neto – ainda presidente nacional do Partido Liberal
- das decepções com o governo Lula, dos anseios
como cidadã e da sua clara e irreversível vontade
de concorrer a uma vaga no parlamento brasileiro. Em seus desejos
de mudança, Maria Christina disse, de maneira quase profética,
que, fosse ela mãe, gostaria de deixar um Brasil melhor
para seu filho, situação que espera que todos os
brasileiros conquistem, direito este que promete perseguir diuturnamente
se das urnas sair vitoriosa. Coincidência ou não,
poucos dias depois da entrevista, Maria Christina anunciou sua
gravidez. Para reforçar a onda de bons presságios,
Caldeira já escolheu o nome da filha que deve nascer muito
próximo das eleições deste ano. Vitória.
Um excelente começo para quem tem uma hercúlea disputa
pela frente.
Ucho Haddad – O destino lhe colocou em
situações extremamente difíceis, principalmente
no âmbito conjugal, e que podem ter levado à decisão
de se rebelar contra o status quo da corrupção que
aí está. O que lhe motivou a tomar tal atitude?
Maria
Christina Mendes Caldeira – Eu acredito que fui
dragada nessa história toda, pelo simples fato de, à
época, estar casada com um político (Valdemar Costa
neto). A pior situação, que as pessoas jamais imaginam,
é cair numa história dessas, porque você tem
uma relação emocional a consertar, ou seja, existem
feridas emocionais para serem curadas, mas ao mesmo tempo a sua
ética pessoal, como indivíduo, como cidadã,
é misturada nessa situação. O que me levou
a condenar o continuísmo da corrupção foi
a absurda falta de limite da impunidade, o que chega a ser uma
ofensa à inteligência das pessoas. Hoje, os parlamentares
vivem uma falta de limite inaceitável para qualquer padrão,
não do mundo, mas do planeta. Tal situação
causa uma indignação enorme em qualquer ser humano,
até porque fica difícil compreender como uma pessoa,
que tem uma procuração concedida por seus eleitores,
toma atitudes como as que temos presenciado, quando suas ações
deveriam ser em prol daqueles que o elegeram, sempre na busca
de um bem maior, o interesse público, e não a destruição
do país e de seu povo.
UH
– Enfrentar a ira dos poderosos, e na política
eles são muitos, não é tarefa de amadores.
O seu preparo está altura das possíveis reticências
da sua decisão, lembrando que a Justiça nem sempre
pende para o lado do mais fraco, mesmo que com este esteja a razão?
MC
– Depois de tudo o que passei, e vi o que vi, não
posso optar pela omissão em momento algum. Caso a omissão
fosse a minha escolha, automaticamente estaria me omitindo de
uma certa forma. Minha situação é extremamente
difícil e penosa, pois tenho sofrido pressões absurdas,
mas a única coisa que tenho como aliada é a verdade,
a transparência.
UH
- Na sua recente experiência conjugal, que não
foi das melhores, a sua condição era de espectadora
de espetáculo da corrupção, lembrando que
se não esteve no palco, certamente esteve na coxia. As
manobras da corrupção foram percebidas em algum
momento, ou isto nunca aconteceu até o escândalo
do chamado mensalão ter sido trazido a público?
MC
– O melhor paralelo seria dizer que assisti ao trailler
de um filme. E quando estourou o escândalo me foi entregue
o roteiro. É verdade que presenciei uma série de
fatos estranhos, mas como mulher apaixonada acabei desculpando
vários deles, algumas vezes muito mal desculpados. Acabei
aceitando inocentemente muita coisa, mas, por assim dizer, algumas
vezes não insisti em determinados assuntos. Porém,
em um determinado momento a quantidade de situações
estranhas e coincidências não casuais era tamanha,
que optei por abandonar o silêncio. Na minha opinião,
durante a inocência ninguém pode ser rotulado como
cúmplice. Quando se percebe que algo de errado existe,
você deve fazer uma opção. Ou você entra,
ou você sai, principalmente porque não dá
para ser mais ou menos.
UH
– A sua avaliação para o assunto em questão
é que o roteiro do filme lhe foi entregue após a
exibição do trailler. Passar o Brasil a limpo é
o desejo da maioria da população, que vive muito
longe dessas loucuras do poder. O que é preciso, se é
que existe alguma possibilidade, para tirar de cartaz um filme
cujo roteiro tem nuances constantes de terror?
MC
– É algo muito difícil porque o brasileiro
é um povo nada politizado, porque a educação
não é muito trabalhada no país. É
muito difícil, num país onde o povo não tem
o que comer, enveredar por uma discussão ideológica.
Se no Brasil as pessoas tivessem um nível melhor de vida,
com acesso à educação, o quadro atual seria
bem diferente. Acho que o facilita a corrupção é
a decadente situação social, que leva o cidadão
– de maneira justificada – a trocar o seu voto por
um prato de comida. Principalmente porque para ela é mais
importante sobreviver e apostar no dia seguinte, do que tentar
saber o vai acontecer no país nos próximos dez anos.
UH
– A política nem sempre freqüenta as conversas
do cotidiano, sejam elas mais ou menos rebuscadas. Tal ausência
leva a população a um quase total desinteresse pelo
assunto, mas, em alguns momentos, o vernáculo política
está muito mais para chacota do que para algo que traduza
seriedade. O que lhe motivou a concorrer a uma vaga na Câmara
dos Deputados, em outubro de 2006?
MC
– É preciso lembrar, antes de qualquer coisa, que
sou apenas pré-candidata. A minha dúvida ainda repousa
na dificuldade de financiamento da minha eventual campanha. Não
sei, até então, se terei dinheiro ou não
para enfrentar uma campanha eleitoral. De nada adianta ser ético,
com boas idéias e assessores idem, se você não
tem dinheiro para colocar a campanha na rua. Existem pessoas antiéticas
que, de uma maneira ou outra, alcançam o triunfo com muito
dinheiro e péssima assessoria. Ainda estou na fase de viabilizar
financeiramente a minha campanha, o que, em caso de sucesso, me
dará a chance de ingressar no universo da política.
O que me levou a almejar um mandato parlamentar foi o compromisso
que tenho comigo mesma de não omitir, de fazer a minha
parte. Se conseguir mudar alguma coisa, mesmo que pequena, estarei
certa de que a minha parte já foi feita.
UH
– A classe política vem amealhando ao longo dos
anos um contínuo descrédito, situação
que muitas vezes leva o cidadão a torcidas de nariz e caretas
variadas, sempre como sinal de reprovação, como
se os políticos já devessem ter sido alijados da
sociedade. Na sua opinião é possível mudar
tão difícil situação, modificando,
principalmente, o conceito que a população tem a
respeito da classe política?
MC
- A classe política nada mais é do que o estrito
reflexo das opções da sociedade. O cidadão
não pode julgar antecipadamente, pois o político
não chega a um cargo eletivo sozinho. Alguém o elege.
Os políticos representam, em que instância for, um
determinado número de pessoas. Para mudar o cenário
atual é preciso mudar, antes de tudo, a mentalidade do
povo brasileiro, que deve deixar de ser imediatista, optando por
um raciocínio de médio e longo prazo. O reflexo
da mudança será uma classe política com consciência
também de médio e longo prazo, que naturalmente
estará voltada de fato ao interesse público, ao
planejamento político como um todo. A sensação
que tenho, nos dias de hoje, é de puro imediatismo, onde
os eleitos querem apenas solucionar os próprios problemas.