ucho.info - As dificuldades para se estudar cresceram no País, apesar de o Bolsa Família estar sendo distribuído para milhares de família? Por que os índices de repetência e evasão escolar aumentaram nos últimos sete anos?
Marisa Serrano - Quando o Bolsa Escola foi criado em Campinas, e depois o Cristóvam (Cristóvam Buarque, senador pelo PDT e ex-governador do DF
pelo PT) colocou no Governo do Distrito Federal, que Fernando Henrique implantou, através do Paulo Renato (deputado federal ex-ministro da Educação), e chegou agora no governo Lula, era a garantia para que a criança fosse para a escola. Garantir não só a escolaridade, mas a formação. Há um projeto do Cristóvam que estou relatando, garantindo que só recebe o Bolsa Família aquele que for às reuniões de pais e mestres, se for visitar a escola, se tiver a contrapartida. A contrapartida é fundamental. Não é aumentar o número de Bolsas Famílias... Até o nome é perigoso. Não é o Bolsa Família que pretendíamos. O Bolsa Escola era a garantia do subconsciente de dizer quanto a escola era importante. Nesse governo, a escola não foi colocada como prioritária. Não é só a educação, mas a formação.
ucho.info - A questão moral da população está mudando?
Marisa Serrano - Está mudando para pior, em todo o País.
ucho.info - Por isso as pessoas estão torcendo cada vez mais pelos bandidos, pelos vilões, nos folhetins da TV?
Marisa Serrano - Talvez seja por isso. Há uma mudança sensível na formação do povo brasileiro em termos de valores, algo que nós temos que voltar a discutir nas escolas. A Comissão da Educação tem debatido muito isso, é importante que se retome essa discussão. Se a família não está trabalhando bem os valores da sua criança, se a escola é o local para discutir valores.
ucho.info - Falta um projeto de Brasil tanto por parte do governo como por parte da oposição?
Marisa Serrano - Falta. Eu dou a mão à palmatória. O meu partido, o PSDB, começou a discutir este ano em todo o País questões estruturais e estruturantes. Para que o PSDB possa ter uma nova carta e propor uma política diferenciada.
ucho.info - O Brasil é capaz de enfrentar os grandes desafios mundiais, inclusive o do desenvolvimento sustentável, se não há um projeto estratégico?
Marisa Serrano - É difícil. Hoje em dia, embora o presidente tenha dito esta semana... acho que ele não tem condições de dizer o que é gestão. Hoje em dia, se uma prefeitura, se um governo do Estado, não tiver e não trabalhar em cima de um macro-zoneamento ecológico, ambiental, social e econômico, fica muito difícil. O governador Aécio Neves está fazendo um modelo de gestão diferenciado na área de desenvolvimento regional. Minas Gerais não tem só um planejamento estratégico para o desenvolvimento regional. Tem vários. Por exemplo: há um projeto específico, diferenciado em todas as áreas para o Vale do Jequitinhonha. Lá, a saúde é diferenciada, a educação.
ucho.info - Se a questão é identificar as potencialidades, as diferenças regionais, porque há uma tendência de maior centralismo no Brasil?
Marisa Serrano - Cada vez mais. Há um modelo até estatizante. Tudo aquilo que o governo Fernando Henrique começou, criando as agências reguladoras, criando os conselhos de Fundef, para discutir a educação em todos os estados, os conselhos da saúde, que foi descentralizada para que os estados e municípios e a iniciativa privada pudessem discutir a aplicação dos recursos na área da saúde... houve uma idéia de descentralização, que deveria ter sido ampliada. Está sendo discutido agora exatamente o contrário, que é a estatização de vários itens e enfraquecimento dessas ações, dos organismos de descentralização que tinham que ser cada vez mais fortalecidos. A idéia do governo, embora não tenha sido explícita, é uma idéia de centralismo e de estatização.
ucho.info - O Pantanal mato-grossense é um dos ecossistemas brasileiros que está ameaçado de extinção. O governo estadual está fazendo alguma coisa para preservar esse patrimônio ambiental?
Marisa Serrano - O governo do estado é do PMDB, mas o PSDB estava coligado ao PMDB nesta última eleição. Algo muito esquisito ocorreu no
governo passado, de Zeca do PT. Vou te dar um exemplo: as usinas de álcool poderiam ser construídas à direita da rodovia que demanda até Cuiabá. Nunca entendi. A guerra era porque uma rodovia federal era o limite de onde se poderia construir ou não, e não o limite, por exemplo, das águas que correm para o Pantanal. Na época pedimos apoio à Fundação Klabin para ajudar a trabalhar a questão do macro-zoneamento, não só pelas usinas de álcool, mas por uma infinidade de outros motivos que para o Estado do Mato Grosso do Sul são importantes. As universidades entraram no processo, e agora nós vamos ter condições de oferecer a toda a população sul-mato-grossense uma visão de como o estado deve andar daqui pra frente.
ucho.info - A senhora tem pretensão política de governar o Mato Grosso do Sul?
Marisa Serrano - Eu fui candidata à governadora contra o Zeca do PT na penúltima eleição. Foi uma experiência interessantíssima, embora tenha saído em substituição ao André (Pucicineli), que desistiu da campanha. Aprendi a conhecer mais o meu estado e tive debates memoráveis com Zeca do PT sobre todos os assuntos. Para mim não era muito fácil, porque eu tinha saído de última hora e ele era o governador há quatro anos. Ele tinha todos os dados na mão que eu não tinha. Mesmo assim, consegui levar a eleição para o segundo turno e quase ganhei.
ucho.info - As eleições municipais de 2008 podem mudar o curso das eleições presidenciais de 2010?
Marisa Serrano - É claro que as eleições municipais sempre são a base da eleição majoritária seguinte. Mas o sentimento que tenho hoje do País é justamente o de garantir bons administradores, boas gestões. A população está em cima dos prefeitos, cobrando dos prefeitos, quer resultados.