ucho.info - A interferência do Poder Executivo teria alguma influência nesse clima de insegurança e desconfiança, que envolve o Senado na atualidade?
Marisa Serrano - Também não tenho dados para afirmar isso. É claro e evidente que o Executivo tem uma força muito grande aqui dentro. Essa palavra “governabilidade” é uma palavra muito nova em nosso dicionário político. Precisar negociar acordos políticos aqui dentro, acordos pontuais para que se possa governar. A presença do Executivo é muito forte, mas eu não posso dizer que tipo de pressão foi feito em cima de quem e de que bases. Acho que a História não vai registrar isso.
ucho.info - Além do Executivo “ter uma presença muito forte”, como a senhora afirma, a oposição não estaria despreparada para fazer oposição, pois boa parte dela sempre foi governo?
Marisa Serrano - É possível, porque aprender a fazer oposição, aprender a ser situação, também não é fácil. Eu acredito que o PT tenha sofrido muito e está aprendendo agora a ser situação. No começo nós tínhamos, e ainda temos, situações esquisitíssimas quando se prega uma coisa e se faz outra. E a oposição também. Nós todos estamos aprendendo.
ucho.info - A senhora consegue fazer um paralelo entre os governos de Fernando Henrique Cardoso e Lula da Silva, avaliando-se estes últimos 12 anos?
Marisa Serrano - Nós poderíamos dizer que têm diferenças e que têm muitas semelhanças. No governo Fernando Henrique: nós poderíamos
começar pela postura do presidente. Era a postura que nos acostumamos a ver na história do Brasil e na história do mundo. Você se identifica com o presidente de Portugal, da Itália, da França, dos Estados Unidos. A figura presidencial o Lula quebrou aquilo que o senador Sarney (José Sarney, PMDB-AP) dizia, que é a liturgia do cargo. Eu não vivi uma outra época em que nós tínhamos um presidente neste estilo. Ele contraria o que é lógico, falar para a platéia como ele fez por esses dias no Rio de Janeiro, quando disse que modelo de gestão é contratar funcionário público. Isso vai de encontro a tudo o que se pensa sobre um modelo de gestão e o que se pensa sobre modernidade da coisa pública. É um retrocesso violento um presidente da República dizer isso. Portanto, a figura dele e a forma dele se conduzir, só isso é uma diferença...
ucho.info - Embora Lula da Silva tenha dito, e algumas pessoas próximas a ele tenham também reafirmado, o comportamento do presidente da República leva a entender que ele quer um terceiro mandato?
Marisa Serrano - É muito estranho ele sendo o que é não pretender o terceiro mandato. Fernando Henrique sempre foi um democrata e disse que ele entregaria a faixa para o sucessor e o fez. Mas não é assim que eu vejo o Lula. Eu acho que o Lula é uma pessoa extremamente voltada para a realidade imediata, para ele e para o partido dele mesmo, mesmo que digam que o PT está descolado do governo.
ucho.info - A estratégia política e eleitoral estaria correta para Lula da Silva?
Marisa Serrano - Para ele. Não é o que aceito para uma democracia, não é assim que vejo para a História do País. E tudo aquilo que nós lutamos durante anos, para ver uma redemocratização do País e, principalmente, a garantia de que o Estado de Direito possa permanecer. Tenho muito receio do que possa vir, embora alguns achem que isso é utopia.
ucho.info - Por exemplo?
Marisa Serrano - Quando há um mito, e o Lula para mim é um mito, e isso não se explica muito... Quando há um mito, esse mito pode achar que pode tudo, até exigir um terceiro mandato. Esses dias, ouvi o presidente dizer que “se o povo quiser um terceiro mandato, o povo deve pedir”.
ucho.info - Quais os principais pecados do governo Lula?
Marisa Serrano - É o de não ter a clareza de dizer que “esta é a minha proposta de governo”. Eu não vejo esta clareza no governo Lula, dizer que a proposta é trabalhar pela inclusão social e que isso seja a referência do
governo. Não vejo assim. Para mim, inclusão social seria se a educação realmente fosse prioritária no País. Se a ciência e a tecnologia fossem também prioritárias, porque o mundo de hoje exige isso. Quando vejo que a educação não tem essa prioridade, não é a linha mestra do governo, pode até ser no discurso, mas não é na prática. Quando a ciência e tecnologia não têm um tostão... quando os recursos do Fust (Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações), mais de R$ 6 bilhões, não foram aplicados nesses últimos três anos, porque estão sendo usados no superávit primário... como você quer jogar o País e a população brasileira para o mundo altamente voltado para a tecnologia e no mundo globalizado?
ucho.info - O principal pecado dele foi então não investir em educação?
Marisa Serrano - Não investir na base. Não adianta você dar a cesta básica. Isto não é política social. Não pode ser. Se alguém informar que isto é política social, vou dizer que é um retrocesso tão grande, isso é acachapar o povo. Política se faz quando se dá autonomia para o povo, e autonomia só se dá com o conhecimento. Não há outra forma.