Com lenço e com documento, estreante no Senado caminha contra o vento de um governo sem projetos
Ainda sem compreender a pressão para absolver Renan Calheiros, a sul-mato-grossense Marisa Serrano atira na direção do Palácio do Planalto, garantindo que o imediatismo de Lula foca um terceiro mandato
Professora universitária aposentada e sem um metro de terra sequer, a senadora Marisa Joaquina Monteiro Serrano (PSDB-MS) não nega a idade que tem. 60 anos. Estreante na mais alta Casa do parlamento brasileiro, essa tucana pantaneira ganhou as manchetes nacionais ao assumir a relatoria do primeiro processo contra o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), juntamente com os senadores Renato Casagrande (PSB-ES) e Almeida Lima (PMDB-SE). Divorciada, sem filhos e integrante da bancada de oposição com outras duas colegas - Kátia Abreu (DEM-TO) e Rosalba Ciarlini (DEM-RN) - Marisa Serrano é uma das nove mulheres com assento no Senado Federal.
Crítica do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, a senadora sul-mato-grossense entende que o presidente não tem um projeto estratégico para
o Brasil e sequer prioriza a educação. “Ele nem sabe o que é gestão”, provoca. Nesta entrevista concedida em seu gabinete na tarde de quarta-feira (03/09), Marisa Serrano disse que Lula é um mito. “Tenho muito receio do que possa vir”. Deputada federal por oito anos, mas caloura como senadora, diz que aprendeu muito nestes primeiros meses de legislatura. E continua sem compreender a pressão para a absolvição do Calheiros. “Ele é culpado na questão ética e decoro”, sustenta.
ucho.info - É a primeira vez que a senhora conquista o mandato como senadora e, alguns meses após a posse, foi indicada relatora num processo que investigava justamente o presidente do Congresso Nacional. Que lições pode tirar dessa experiência?
Marisa Serrano - Não dá para dar somente uma resposta a esta questão. Foi um aprendizado muito grande. Primeiro em relação aos próprios pares, como funciona a sistemática da Casa. Nem sempre é linear, nem sempre o que se diz verbalmente é aquilo que se faz. Há uma série de interesses outros...
ucho.info - A senhora se frustrou com o que encontrou por aqui?
Marisa Serrano - Um pouco, porque foi um semestre muito tumultuado. Há interesses regionais, interesses locais, de partido, pessoais... então entrei batendo de frente em todos esses interesses. Não foi fácil. Por outro lado, tive que crescer muito rápido. Tive que aprender muito rápido. Por exemplo: lidar com a imprensa daqui. Eu tinha colocado na minha proposta, na minha idéia, que iria levar de um a um ano e meio para conhecer um pouco, para ver como funciona a relação Senado-senador, o funcionamento interno da Casa. Tive que aprender isso em nem menos que uma semana. O aprendizado em relação ao Regimento Interno, a administração da Casa, das comissões, a legislação interna. Eu não tinha
idéia que o Conselho de Ética não tinha regimento interno. O da Câmara foi feito quando fui deputada federal. Eu fui de um grupo que organizou e relatou o Regimento da Câmara dos Deputados. O Aécio Neves era o presidente da Casa. Fui relatora de inúmeros casos no período de oito anos quando fui deputada federal, mas nunca tinha sido relatora tripartite, que também é outro aprendizado. Você tem que negociar e conversar com dois relatores sobre a mesma ação. O saldo de tudo isso foi positivo, mesmo que não tenhamos conseguido o que esperávamos, pelo menos eu e o senador Casagrande (Renato Casagrande, PSB-ES). Nos frustramos em relação ao resultado final de uma sessão em que eu também nunca tinha participado na minha vida, de uma sessão secreta. É uma coisa muito surrealista. Você tem que discursar, gritar, uma coisa muito doida numa época de alta tecnologia como é a nossa.
ucho.info - A senhora acredita que Renan Calheiros é culpado política e criminalmente a partir das investigações do relatório apresentado em parceria com o senador Casagrande?
Marisa Serrano - Ele é culpado, no meu entender, na questão ética e de decoro. Aí não entra a parte criminal. Isso quem pode dizer é a Justiça. Esta Casa não mexe com a área criminal, porque é uma Casa política. Eu ouvi dizer muito nesses dias que o processo não poderia ser político, então eu falei: “Então não é com esta Casa”. Eu sou política e o Renan é político. A decisão tinha que ser política.
ucho.info - Que forças foram essas, capazes de absolver um “condenado político”?
Marisa Serrano - Eu não posso dizer, não tenho elementos para responder a esta pergunta. Não tenho idéia porque 40 votaram a favor dele e porque seis se abstiveram. Eu gostaria de saber se esses 46, por um acaso, leram o relatório. Se tivessem lido o nosso relatório, se tivessem até questionado, ido ao Conselho de Ética quando o relatório foi lido, estivemos lá, abertos a todos os questionamentos. Tivessem questionado: “Não concordo com este ponto. Porque que vocês escreveram isto?”. Nós poderíamos ter explicado. Aqueles que estavam fora do Conselho não nos procuraram.
ucho.info - A senhora disse que se surpreendeu com a Casa e com o ambiente do Senado. Então essa política que a senhora viu é mais feia do que se escreve?
Marisa Serrano - Não. Não acredito que seja mais feia. Acredito que, e neste semestre calhou, nós chegamos justamente num momento muito, muito vulnerável do Senado. Um número grande de senadores está tentando reverter esse processo. Isso não é um processo democrático republicado como nós gostaríamos que fosse. Tem que ser os próprios senadores querer mudar a tensão que ficou no ar, o tipo de insegurança, um pouco de desconfiança que paira entre os pares neste semestre. Nós somos apenas oitenta e um. Eu não sei como era o Senado antes, mas não acredito que tinha esse estilo que estou vendo neste ano aqui.