ucho.info - É preciso que as classes dominantes abram mão de sua riqueza, da sua renda e do seu poder para que a violência não avance mais?
Marcelo Crivella - A gente precisa adotar o que o PRB tem como central de seu programa, que é uma política de pleno emprego. A democracia
social não pode ser ideológica: tira do rico e dá pro pobre. Tem que ser uma democracia construída em cima de oportunidades iguais para todos, educação e trabalho, de acesso à saúde, ao transporte, à segurança. É aí que vamos ter uma sociedade mais igualitária. Não sou a favor de tirar do rico e dar pro pobre, isso nunca deu certo. Eu sou a favor de que o rico não receba uma taxa de juros tão alta como recebeu a vida toda. Esse juro seria taxado. A sua riqueza improdutiva aplicada em títulos de governo, seja taxada como a terra improdutiva. É preciso que o Brasil retome a sua responsabilidade social, este país tem que crescer. O empresário precisa saber disso, os políticos precisam saber disso, o povo, a igreja, o sindicato. Nós temos que fazer um pacto pelo crescimento. Para crescer o pleno emprego conta-se com quatro passos: baixar as taxas de juros a níveis internacionais, controle de capitais, aplicar o alívio do superávit primário em um grande e amplo programa de investimento, e ter uma política que favoreça as nossas exportações. Agora, hoje o que cresce é a desigualdade. O rico ficando cada vez mais rico e o pobre, sem emprego, cada vez mais sem emprego.
ucho.info - A Rede Record, ao adotar uma linha comercial mais agressiva, estaria se distanciando da orientação pragmática da Igreja Universal?
Marcelo Crivella - A Igreja Universal prestou um grande papel quando, no princípio, dava preferência a fazer seus programas na Rede. A Igreja sempre gastou - e não foi só ela, várias igrejas - na mídia para a pregação evangélica, que é sua função primordial. Ela dava prioridade à Record por duas razões: o SBT e a Globo, que tinham mais audiência que a Record, não abriam as portas, e porque o dono da Record, seu principal acionista, é também bispo da Igreja Universal. Hoje, o papel da Igreja na Record é mínimo. A Record é completamente profissionalizada. Não há nenhuma ingerência de qualquer membro da Igreja, e o próprio bispo Macedo (Edir) vive no exterior. A Igreja Universal está estabelecida em 110 países e ele visita cada um deles, uma vez por ano, pelo menos. A idéia é que se dissocie completamente de uma coisa da outra. A Igreja durante o dia prefere colocar programas na CNT, na Bandeirantes, na RedeTV!. Os programas da noite na Record estão cada vez menores.
ucho.info - O distanciamento da Igreja, com uma programação comercial mais agressiva, não estaria criando problemas no Conselho da Universal?
Marcelo Crivella - Tem programas da Record que não vejo, não assisto. Meus filhos já estão com certa idade, mas se fossem mais jovens eu não deixaria que eles assistissem. Agora, o interessante é o seguinte: o mundo tem uma série de coisas que, a meu ver, estão erradas. O mundo tem prostituição, drogas violência, guerras, mas o mundo é de Deus. As pessoas às vezes dizem: “Mas a Record é de um bispo”. É, mas é uma emissora com uma concessão comercial, ela não pode viver de recursos de igreja ou do poder público. Ela tem que fazer uma programação na qual os anunciantes consigam vender seus produtos. Ela é um produto da liberdade das pessoas, independente do seu criador, do seu dono.
ucho.info - A programação das emissoras de televisão tem influência na formação das famílias, na educação das crianças?
Marcelo Crivella - Tem sim, influencia muito. Acho que o governo quando traz esse debate de classificar os programas impróprios ou não, está dando uma contribuição grande para as famílias, sobretudo que têm filhos, que ficam longe dos pais que têm que trabalhar. É importante que haja essa classificação, e que as televisões obedeçam. Uma criança exposta à violência, o dia inteiro, nos programas de televisão ou a cenas de sexo no início da noite, pode ter uma precocidade que não lhe favoreça a sua saúde mental.
ucho.info - O senhor é a favor da censura na TV?
Eu sou a favor do governo aconselhar. O problema da censura é que
quando você faz uma censura acaba despertando o interesse das pessoas por aquilo que é proibido. Eu prefiro a coisa muito mais preventiva da educação. Alertar as pessoas. Eu sou frontalmente contra o homossexualismo, sou contra o aborto. Mas acho que na questão do aborto, se for um estupro, e aquilo lembrar o trauma à mulher o tempo todo, ela tem a decisão de não querer aquele filho. Eu não faria um aborto se fosse uma mulher, se fosse estuprada. Acho também que quando uma mãe está correndo um risco de vida tem o direito de decidir. Ela tem cinco filhos, não tem um marido, o médico avisa que se tiver um sexto vai morrer, então ela vai ter um filho e deixar seis órfãos? É uma decisão de Sofia. Eu acho é que ela quem tem que tomar a decisão. Eu preferia morrer a matar um filho pela formação cristã que tenho. Mas acho que as pessoas têm que decidir por elas, não tem valor nenhum você impor comportamento às pessoas e elas acabarem tendo um comportamento falso, farisaico, até religioso, em vez de ser uma coisa de sua convicção.
ucho.info - A Igreja Universal “afrouxou” a orientação junto aos seus fiéis?
Marcelo Crivella - Não, de jeito nenhum. A Igreja prega a bíblia incessantemente. Cada vez que os pastores sobem no altar, eles abrem e pregam a bíblia o tempo todo.
ucho.info - Mas a Universal já foi acusada de “xiita”.
Marcelo Crivella - Não, a Universal cresceu muito rapidamente e no crescimento dela as pessoas usavam todo o tipo de estigma para tentar, vamos dizer assim, contê-la. A Igreja sempre foi extremamente liberal e democrática como o bispo é. É uma Igreja de aconselhados. Em outras igrejas, o sujeito que vai e paga os dízimos, às vezes vai para ver o seu nome no painel. Quando jovem, em Volta Redonda (RJ), freqüentei uma Igreja Batista em que o sujeito quando pagava o dízimo tinha colocado o seu nome na porta da igreja. Eu nunca vi isso na Igreja Universal, que nunca teve controle de quem dá dízimo ou não dá, ou de quem é membro ou não é membro.