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Continuação

 

ucho.info - A oposição não teria motivos então para reclamar?

Marcelo Crivella - A oposição tem que fazer o seu papel quando busca um Estado melhor. Reclama muito dos cargos que são criados, de secretarias. A oposição nesta Casa (Senado) faz também oposição à carga tributária. Na época deles era muito maior, cresceu muito mais que na época de Lula. O governo tem conseguido passar 95% dos seus propósitos, tanto no primeiro mandato, com toda a crise que tivemos, como agora. As conquistas do presidente na inserção do Brasil neste mundo globalizado também tem sido um grande capital. Todos aprovam a maestria com que o presidente Lula tem procurado melhorar as nossas exportações e fazer a integração econômica. E agora esta Casa vai passar por um grande debate com a entrada da Venezuela no Mercosul.

ucho.info - O PRB tem um projeto nacional para assumir o poder?

Marcelo Crivella - Claro, todo partido tem isso. Se nós pudéssemos definir poder, segundo um trinômio usado pelos ingleses no início do século 20, seria arma, dinheiro e idéias. Foi assim que a Inglaterra se tornou hegemônica. Esse princípio de poder ainda é atuante. O partido político precisa de armas, que na democracia são os meios de comunicação. Dinheiro é o fundo partidário. E idéias. O PRB em termos de armas tem uma certa inserção junto à mídia.

ucho.info - O senhor define os veículos de comunicação como arma. Nesta definição estaria incluída a Rede Record?

Marcelo Crivella - Todas de um modo geral. Nós temos acesso aos meios de comunicação via o vice-presidente da República, que é hoje um grande porta-voz das idéias do PRB. Em termos de capital nós temos pouco em fundo partidário, mas nós temos muito capital humano. Aí, sim, os evangélicos são importantes, porque é uma militância extremamente consciente de seu papel na sociedade. Tem uma ética protestante...

ucho.info - A idéia é usar os evangélicos como militantes políticos?

Marcelo Crivella - Não é usar os evangélicos, é ter a honra de tê-los para construir uma democracia melhor. A ética protestante é estudar e trabalhar a vida inteira. Normalmente eles consomem casa própria, carro, roupa, educação e comida. Têm horror em pagar juros. Pagam da casa própria porque sabem que vão pagar aluguel. É verdade que esses grupos fizeram revoluções na Europa. Veja no Brasil. Eles não são organizados politicamente, mas é uma classe emergente que consegue, com a carga tributária que nós temos e o nível de juros, se educar, freqüentar igrejas.

ucho.info - O senhor já comparou o seu atual trabalho como senador a um trabalho de bispo? O que difere um do outro?

Marcelo Crivella - Em termos de concepção, um bispo está preocupado com as necessidades da alma e do espírito das pessoas. O senador, não. A política pública ela é voltada ao material, à questão física. Portanto, são coisas completamente distintas e ninguém mais que o PRB para defender um estado laico, porque o partido tem uma preponderância de militância evangélica. Para os evangélicos, quando o Estado não era laico foi uma grande perseguição. Com a proclamação da República, você não tinha um culto evangélico em público, não podia casar, a não ser se fosse evangélico. A escola pública que surge no Brasil em 1891-92, sob um intenso tiroteio dos bispos de São Paulo, Minas e Rio e do Papa, que chama a escola pública de “escola sem Deus”, onde os católicos não deveriam freqüentar nem para aprender nem tão pouco para ensinar. Naquela época, onde o Estado não era laico, sempre foi terrível para as minorias, e seria hoje terrível para os evangélicos da mesma forma que foi antes da República.

ucho.info - O Senado, hoje, é uma igreja ou um purgatório?

Marcelo Crivella - (Risos). O Senado não é uma igreja, também não é um purgatório. Eu diria que o Senado hoje, no Brasil, se definiria melhor como um grande porto, mas um porto do Mar do Norte, onde as águas se agitam muito e a gente tenta ancorar os interesses nacionais da melhor maneira possível.

ucho.info - E o Parlamento, tem mais anjos ou demônios?

Marcelo Crivella - Olha, quem tem uma visão que o Parlamento seja uma constelação de castos, de puros, de pessoas inocentes, angelicais, está no mínimo fora da realidade. O Parlamento é uma representação do nosso povo em todas as suas virtudes e defeitos, certezas, incertezas e controvérsias. Nós somos o povo brasileiro.

ucho.info - Sem qualquer relação com o que disse Dostoieviski (Fiodor Dostoieviski, o maior nome da literatura russa), há muito mais crime que castigo?

Marcelo Crivella - Acho que a impunidade no Brasil é uma das maiores tragédias desde que massacramos negros e índios na época da nossa colonização. Ou esmagamos na época da República, em Canudos. A intolerância no Brasil sempre foi voltada para o pobre, e sem castigo. Sucessivas gerações de negros, brancos pobres e mestiços foram covardemente perseguidas sem que a Justiça e sem que a Igreja se transformasse na sua voz. Isso tudo é a gênese nos primórdios da nossa nacionalidade, da impunidade que se vê no País. Espero que a gente acabe com esse mal e aí não tenhamos tantos crimes sem castigo.

ucho.info - O senhor acha que todas as igrejas, de diferentes credos, estão mais atentas a essa violência urbana, inclusive a doméstica?

Marcelo Crivella - Sem dúvida. Hoje, a igreja é muito mais cônscia do Evangelho, até porque os contrastes no curso da civilização se mostraram mais claros. Não existe hoje uma igreja que possa apresentar ao ser humano o caminho do céu como o sofrimento e a pobreza. Isso já serviu de instrumento de poder durante séculos para regimes autoritários. Hoje, ninguém mais se submete a isso, e a igreja toda se aperfeiçoou.

ucho.info - A violência carioca, caracterizada com suas armas à mostra e tráfico, tem uma tendência de se espalhar para outros centros urbanos do País?

Marcelo Crivella - A violência nos grandes centros é maior que no interior, porque nos grandes centros está a desigualdade. Eu vivi na África durante dez anos. Países como Moçambique, que era a nação mais pobre do mundo na época em que estive lá, não havia uma desigualdade que saltava aos olhos porque quase todos viviam da mesma forma. No Rio de Janeiro você tem uma favela onde se vê uma riqueza de ostentação, perdulária, faustosa, conspícua. Isso causa, realmente, inveja que vai ser a mãe da violência.

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(Fotos: ucho.info)

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