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Discípulo do Senhor e ferrenho defensor do governo do presidente Luiz Inácio, senador fluminense aposta na fé como ferramenta socialista

 

Evangélico convicto, Marcelo Crivella sonha em abrir os braços políticos sobre a Guanabara e administrar a cidade do Rio de Janeiro, cartão postal do Brasil.

 

(*) Gilmar Corrêa

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Dezenove molduras com condecorações, diplomas e medalhas de mérito decoram uma das paredes de um gabinete muito bem cuidado. Na mesa, o livro “Brossard - 80 anos na História Política do Brasil”, do jornalista Fernando Valls, e a Bíblia, aberta em Salmos 23-24 (“O Senhor é meu pastor; de nada terei falta”). Atrás da mesa sai uma voz de monge: “O Senado não é uma igreja, também não é um purgatório”. É a resposta a uma provocação feita pelo ucho.info durante entrevista concedida na quinta-feira (20/09) pelo bispo Marcelo Bezerra Crivella, homem forte do bispo Edir Macedo, expoente na seara das igrejas pentecostais.

Com assento no Senado, mas disposto a trocar Brasília pela prefeitura do Rio de Janeiro, o engenheiro civil Crivella é candidato à sucessão de César Maia (Democratas). Único senador pelo PRB (Partido Republicano Brasileiro), agremiação política que tem em suas modestas fileiras o vice-presidente José Alencar Gomes da Silva, o bispo Crivella já foi acusado de ser um “laranja” de Edir Macedo, comandante de uma rede de milhares de templos da Igreja Universal do reino de Deus em 110 países. Nesta entrevista, Marcelo Crivella fala de política, defende o governo Lula (“Acho que é difícil de vender o PT e os partidos do mensalão”), fala das relações da sua igreja com a Rede Record e destaca a importância da participação dos evangélicos como militantes políticos. “Não é usar os evangélicos, é ter a honra de tê-los para construir uma democracia melhor”.

ucho.info - O senhor e o seu partido, o PRB, fazem parte da base de apoio ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva. É fácil defender esse governo?

Marcelo Crivella - Agora é mais fácil. No princípio era muito difícil, porque nós tínhamos uma política econômica extremamente recessiva, completamente diferente daquilo que falávamos na época da campanha. Hoje, os juros estão a 11%. Naquela época, subiram de 24% para 26%. Nós fazíamos um superávit primário de 4,5% no papel, no Plano Plurianual, mas que na realidade chegava a 4,60%, 4,70%. Então, ficava muito difícil nos movimentos sociais, com altíssimo desemprego, a violência crescente. Naquela ocasião, ainda com todo esse quadro, tinha que se fazer uma reforma da Previdência Social. O governo era contrariamente a todo o seu ideário.

ucho.info - Mas o governo ainda não está satisfeito com a Previdência, porque está propondo nova reforma que certamente vai retirar alguns direitos.

Marcelo Crivella - A verdade é que o mundo está envelhecendo. Os meios de produção estão cada vez menos dependentes da mão-de-obra. E isso faz com que as previdências em todo o mundo tenham um problema de caixa. Lá na Europa resolvem com imigrantes, importando mão-de-obra. Aqui no Brasil, não. Aqui no Brasil hoje nós temos uma janela demográfica que estamos desperdiçando, onde milhões de jovens querem trabalhar. A crise na Previdência é a falta de crescimento. Espero que com o PAC essa discussão sobre a Previdência seja abandonada e o Brasil volte a crescer, e a Previdência volte a ser superavitária, ainda com essa sangria que o governo faz com a DRU (Desvinculação de Recursos da União). Se nós estivéssemos mandando, destinando os recursos constitucionais para esses brasileiros inscritos no sistema previdenciário, ainda assim seria superavitário. Mas como a gente desvincula...

ucho.info - O senhor apontou um aspecto para a defesa do governo, o econômico, mas o governo sempre esteve envolvido em escândalos que nasceram no Palácio do Planalto, atravessaram a avenida e chegaram ao Congresso Nacional. Mesmo com os escândalos é fácil defender o governo Lula?

Marcelo Crivella - Acho que é difícil vender o PT e os partidos do mensalão. Mas o governo não. Não é neste governo que o procurador-geral da República é chamado de “engavetador-geral da República”.

ucho.info - É fácil defender o presidente Lula? Mesmo ele não sabendo das “coisas”, como ele mesmo disse?

Marcelo Crivella - É fácil. Tenho a convicção pessoal de que o presidente Lula não participou e não sabia de nada disso. Eram coisas de auxiliares que queriam apressar a tramitação de medidas importantes no Congresso, e que, ao invés de fazer isso pela via do diálogo, preferiam fazer isso pela via da cooptação.

ucho.info - O PRB é um partido que fecha sob qualquer condição com o governo?

Marcelo Crivella - O PRB ainda não tem tamanho necessário para criar um impedimento notável ao governo. Nós temos cinco deputados federais e um senador. Mas nas reuniões do conselho político nós sempre colocamos visões do nosso partido, que nem sempre são visões paralelas ao governo. As contribuições do partido ao governo Lula foram aquelas tantas admoestações, conselhos e críticas que José Alencar (vice-presidente da República) dá. Dizendo: “É preciso baixar os juros, é preciso usar a folga dos juros em investimentos, é preciso ter um PAC”. Nos primórdios do governo Lula, o grande patriarca do PAC foi José de Alencar, e com uma experiência de vida que ninguém tem neste governo. O Lula saiu de menino pobre a presidente da República. Mas sair de menino mais pobre ainda para maior industrial do setor têxtil... Nós temos dois meninos pobres que fizeram carreiras inerentes. Na política, o Zé ouve o Lula. Agora, é preciso também entender de política industrial, de política econômica.

ucho.info - O presidente Lula ouve muito pouco...

Marcelo Crivella - Ouvia muito pouco. Até porque pelos escândalos que aconteceram no primeiro governo, e por sua inexperiência e pelas dificuldades que enfrentou, Lula ficou um pouco tímido. Quando ele ganha, não no primeiro, mas no segundo turno, e com uma aliança pequena de partidos. Éramos três partidos - PRB, PCdoB e PT. Dois partidos pequenos e um grande. Lula ganhou. Era como se a nação dissesse: “Lula, seja você. Seja o presidente dos brasileiros, coloque suas idéias em prática. Não tenha medo”. E assim nós estamos fazendo um governo sem mensalão, sem cooptação. Às vezes demorando muito para aprovar as medidas necessárias, como é o caso da CPMF, mas estamos fazendo o governo democrático que o povo brasileiro espera de nós.

ucho.info - O senhor então acha que Lula não é um poste, como ele mesmo disse, pois mudou muito a opinião ao longo desses dois governos?

Marcelo Crivella - Acho que o presidente amadureceu. Fez grandes conquistas. Nós assumimos com um déficit na balança comercial de US$ 1 bilhão. Hoje, nós temos um superávit imenso. As reservas do Brasil estão chegando a US$ 200 bilhões. Nós estamos com a inflação contida. Esse ano o País cresce mais de 5%. A renda do trabalho aumentou. O desemprego caiu.

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(Fotos: Arquivo e ucho.info)

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