Entrevista do Sábado - Mas a oposição tem dito que o governo tem sido tímido em fazer valer essa representatividade.
Lúcio Rennó - Não sei em que exemplos. Se você tiver pensando no caso da Bolívia (expropriação de unidades de gás da Petrobras), eu acho que é um equívoco da oposição. O Brasil deu exemplo de como se lidar com a Bolívia, um país completamente subdesenvolvido, muito pobre, com uma população que foi explorada ao longo de sua história e que agora começa a achar espaço para crescimento e buscar satisfazer suas demandas internas. E não teria outra postura melhor do que respeitar essa vontade do povo boliviano, mesmo que isso resultasse em perdas. A última coisa que queremos é uma atitude belicosa do governo brasileiro, que não está relacionada com a tradição de nossas relações internacionais. Eu não sei ao que exatamente você está se referindo, mas se for a esse caso, eu acho que a oposição está enganada. Uma coisa que de fato o governo brasileiro falhou diz respeito ao Conselho de Segurança da ONU. Poderia ter uma estratégia melhor coordenada e mais estruturada, com outros países da região, pleiteando uma posição permanente na Comissão. Aí sim o Brasil poderia ter sido um pouco mais agressivo. Mas, de novo, essa agressividade tem que estar obviamente limitada ao campo diplomático.
Entrevista do Sábado - Essa alteração do comando em Cuba, transição como alguns chamam, pode chamar um pouco mais a atenção para os problemas e potencialidades da América Latina e do Caribe?
Lúcio Rennó - Bom, ela é um primeiro passo. É muito cedo ainda pra gente identificar os caminhos dessas transições. E transições são sempre muito cheias de riscos, de reveses, de voltas. Não se tem um controle muito claro de como vai se dar essa disputa. E isso acontece em todas as
transições. Aconteceu aqui no Brasil, quando saímos do regime militar para o regime civil, que levou 15 anos ou mais até. A própria transição, eu digo, levou este período. As indicações são que Cuba vai tender liberalizar sua economia e vai buscar fóruns multilaterais de forma mais clara, mas sem necessariamente tentar ou sem manifestar um desejo claro de abrir seu regime político com rapidez. Eu acho que não tem como não fazer essa abertura se você quiser abrir a economia. Então a médio e longo prazos a abertura política terá que acontecer de qualquer forma, mas Cuba não é China. China tem uma capacidade de produção econômica e impacto da economia mundial que Cuba não tem. Então a China tem muito mais poder de barganha para se manter fechada politicamente e, ao mesmo tempo, em que está aberta economicamente.
Entrevista do Sábado - Já faz alguns anos que não ocorre um golpe de estado na América Latina. Isso significa que os países da América Latina estão mais amadurecidos para trabalhar a transição democrática?
Lúcio Rennó - Eu acho que sim. O Brasil está com um pouco mais de 20 anos neste regime político, superou crises importantes e tem caminhado para tentativas de solução de problemas mais importantes, como a questão da corrupção. O fato de ela estar sendo muito exposta e estar sendo tão debatida é bastante positivo. E ele tem se aprimorado ao longo dos anos. E isso tem acontecido em outros países da América Latina também. Então o processo de fortalecimento da democracia me parece inegável. O que não significa que estamos completamente imunes a reversões neste padrão. O próprio caso da Venezuela nos faz pensar em mudanças nesse caso de fortalecimento da democracia através do próprio voto. Chávez foi eleito e vem tomando medidas e implementando reformas que em vez de fortalecer a democracia a enfraquece.
Entrevista do Sábado - O Mercosul há muito tempo vem patinado nas suas propostas, são dois passos para frente e um para trás. O senhor acha que o Mercosul tem hoje um ambiente favorável para que as propostas comerciais e políticas sejam mais respeitadas e valorizadas pelos governantes latino-americanos?
Lúcio Rennó - Eu acho que sim. Principalmente na esfera econômica o Mercosul já tem ganho visibilidade e tem conseguido negociar conjuntamente. Pelo lado político, ainda é muito incipiente, ainda tem muito a caminhar. E discutir o Parlamento do Mercosul. E se pensar em políticas mais clara, num futuro, numa direção que a Europa trilhou e abriu caminho, mas ainda falta muito tempo.