(...) E Uribe é um presidente colombiano alinhado com Washington, com o pensamento e com os interesses norte americanos de combate ao tráfico e áreas de mercado comum. Muito similar ao caso mexicano hoje. Esses são países que estão sendo governados por governos mais à direita. Ao contrário do Chávez, que é talvez o governante mais radical da esquerda na América Latina. Você vê uma coligação de forças à esquerda – Chávez, Morales, Corrêa, Noriega – e o Uribe mais à direita. E mais um grupo de países tentando criar um diálogo entre eles, Brasil, Chile e Peru.
Entrevista do Sábado - O senhor acha que esta questão do narcotráfico tem um peso preponderante nesta briga latino-americana?
Lúcio Rennó - Bem, tem a questão do narcotráfico e das Farc, que é o
estopim de todo este conflito agora. A Colômbia vive uma situação de
guerra civil há muito tempo, com este movimento terrorista que tem articulações aparentemente com o governo venezuelano e indícios de articulações com o narcotráfico. Este é um problema muito sério da Colômbia, mas que interessa a países desenvolvidos, porque eles são os principais consumidores das drogas produzidas na Colômbia. Então, de fato, narcotráfico está por trás disso e as Farc, sem dúvida nenhuma, estão por trás disso, mantendo uma quantidade enorme de civis seqüestrados, o que é totalmente inaceitável nos dias de hoje, e recebe este apoio, até certo ponto insólito, da Venezuela.
Entrevista do Sábado - É possível concluir que a simpatia que nutre pelas Farc fez com que o governo Lula da Silva não demonstrasse um claro objetivo de mediar o conflito?
Lúcio Rennó - Eu discordo um pouco disso. Ele se prontificou a intermediar este conflito e a proposta não foi aceita. Ele se prontificou a intermediar um encontro entre Uribe e Corrêa, e Corrêa se recusou a
participar. Então, eu não acho que o Brasil se ausentou de uma participação, porque também não é o necessariamente papel dele intervir diretamente como Chávez fez. Aí sim foi um engano, e fica muito óbvia a ligação entre as Farc e a Venezuela de Chávez, e ele aparece como um protetor das Farc. Não é bem isso. O problema não era na fronteira na
Venezuela, era na fronteira com a Colômbia. E parece mais uma intromissão não desejada do Chávez nas políticas domésticas de outros países. O governo brasileiro, o governo peruano e governo chileno, que
são muito mais moderados em termos de atuação, evitam este tipo de atuação e procuram ambientes multilaterais para diálogo, que são lugares mais adequados para isso, como por exemplo, a OEA. Portanto, não me parece que seja uma simpatia das Farc, que eu nem acredito que existe do governo Lula com um grupo do tipo. Até porque é um movimento que mantém civis seqüestrados. E nenhum governo pode concordar com um movimento deste tipo.
Entrevista do Sábado - Mas o governo Lula já fez gestões - pelo menos alguns integrantes do governo desejavam - para criar uma representação oficial das Farc no Brasil. Em sua opinião, esse desejo não demonstra uma ligeira simpatia pelo movimento das Farc?
Lúcio Rennó - Olha, eu realmente não sei de quem é esse desejo. Se for um desejo do governo brasileiro, isto é um grande equívoco. Mas não vi sinalizações no governo brasileiro neste sentido. Se algum membro ou outro do governo expressou isso, ele estava dando sua opinião. Até porque o Parlamento, o Congresso Nacional, comissões de relações exteriores dessas Casas se manifestariam contrários a qualquer tipo de apoio nesse sentido.
Entrevista do Sábado - O Brasil pode se tornar, efetivamente, um líder latino-americano nas questões de interesse maior da região?
Lúcio Rennó - O Brasil já é um líder neste sentido. Não tem como não ser, tendo em vista o tamanho da sua população, o tamanho da sua economia, sua influência política no âmbito mundial...