É provável que, se dependesse do presidente-bravateiro da Venezuela,
coronel Hugo Chávez, a América Latina poderia ter um conflito entre dois países depois de uma década e meia. As escaramuças que envolveram Equador e Peru, por conta de um lugar chamado Tiwintza, foram solucionadas em 1998, pelo acordo batizado como Ata Brasília. Desta vez, a possibilidade de guerra surgiu pelo ataque a unidades das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia pelo exército regular da Colômbia. A ação militar desencadeada a apenas dois quilômetros da margem do rio Putumayo, do lado equatoriano, revela questões muito mais profundas que uma simples invasão territorial, como destaca o professor adjunto da Universidade de Brasília, Lúcio Remuzat Rennó Júnior.
Com doutorado em Ciência Política na University of Pittsburgh e pós-doutorado no Latin American and Caribbean Syudies Center da Suny Stony Brook, Rennó diz, nesta entrevista concedida por telefone na sexta-feira, 7 de março, que o tráfico de drogas tem peso importante no conflito. “Este é um problema muito sério da Colômbia, mas que interessa a países desenvolvidos, porque eles são os principais consumidores das drogas”. O professor acha que o Brasil teve uma participação diplomática exemplar, mas evita em afirmar que governo brasileiro tenha simpatia pelas Farc: “Eu nem acredito que existe”. E a Venezuela? “Fica muito óbvia a ligação entre as Farc e a Venezuela de Chávez”.
Entrevista do Sábado - Qual a sua avaliação sobre os recentes incidentes entre os três países (Equador, Colômbia e Venezuela)?
Lúcio Remuzat Rennó Júnior - Acredito que o primeiro encaminhamento da OEA, na tentativa de buscar uma conciliação, é o primeiro importante passo para uma solução diplomática e pacífica do ocorrido. Os desdobramentos que aconteceram hoje e que vão acontecer nos próximos dias, do governo equatoriano não se mostrar satisfeito com a solução da OEA e buscar ajuda de outros países para apoiar um movimento contrario à Colômbia, está destinado ao fracasso. Acho que ele vai conseguir o apoio de Chávez e Noriega, que ele já tem. Talvez Evo Morales, mas nada além disso.
Entrevista do Sábado - Resumindo, o senhor não acredita em um conflito armado entre Colômbia e Venezuela?
Lúcio Rennó - Não. Me parece impossível, na verdade, acontecer algo
que chegue perto de um conflito armado. O que tinha para acontecer já aconteceu. O que está tentando se fazer agora é o presidente Correa (Rafael Corrêa) tentar ganhar um pouquinho de visibilidade internacional. É até um pouco oportunista na utilização deste problema, que até certo ponto já foi resolvido com o pedido de desculpas formal da Colômbia e uma reprimenda moderada da OEA. Não sei o que mais pode se querer.
Entrevista do Sábado - Ao que parece, o conflito vai além da questão política. Quais são os outros “temperos” nas crises freqüentes quando o personagem principal é o Hugo Chávez?
Lúcio Rennó - É você está correto. Não é só esta questão de fronteira que está gerando todo este barulho e nervosismo na região. Já há uma disputa antiga entre Chávez e Uribe (Álvaro Uribe, presidente da Colômbia). Os governos dos países andinos, não só Chávez, mas também Corrêa e Evo Morales (presidente da Bolívia) têm assumido uma posição antiamericana muito forte, liderados pelo Chávez. (Continua...)