ucho.info - A senhora chegou no Senado como uma líder ruralista. A partir do relatório da CPMF, esse perfil que caracteriza seu trabalho político vai mudar?
Kátia Abreu - Acredito que sim, porque aqui no Senado, se você reparar bem, todos os senadores fazem de tudo. Aqui não existe condição para especialidade, porque são muitos temas e assuntos para 81 senadores.
ucho.info - A senhora tem a preocupação de provar que seu trabalho vai muito além das questões ruralistas?
Kátia Abreu - Não me preocupo com isso, porque o setor rural é um dos
prejudicados com a carga tributária alta. Aos poucos vamos conquistando espaço e respeitabilidade. Tudo o que eu faço procuro fazer bem feito. Fazer bem feito no meu conceito é se aprofundar no estudo da matéria, nos detalhes, nos números, nas informações. Eu tenho foco. Procuro fazer com dedicação para dar um bom resultado.
ucho.info - A senhora estudou e recebeu aulas sobre as questões tributárias?
Kátia Abreu - Tive aula e consultoria, não tenho vergonha de dizer. Sou uma ótima aluna, sou atenciosa, dedicada e aplicada.
ucho.info - A senhora usou esse mesmo método quando foi obrigada a assumir os negócios da família quando o seu marido morreu?
Kátia Abreu - Claro que sim. É um bom exemplo, porque eu tinha apenas 25 anos de idade, estudante de Psicologia no último ano e não sabia exatamente a diferença entre um boi e uma vaca. E seis anos depois era a primeira mulher a presidir um sindicato rural no país. O que tem de diferente, de especial? Nada. Apenas me dediquei. Sou determinada. Se tenho poucas qualidades, uma delas é ser determinada.
ucho.info - O governo teria responsabilidade com a recente crise do setor leiteiro do Brasil, com denúncias de uso de até soda cáustica no produto?
Kátia Abreu - Os laboratórios de sanidade não funcionam, inclusive é uma das reclamações da OIE com relação à aftosa. A OIE (Organização Mundial de Sanidade Mundial) já recomendou por várias vezes que os laboratórios fossem equipados com ferramentas mais modernas. A defesa sanitária de um país quem faz é a iniciativa privada, mas quem fiscaliza é o governo. E não há fiscalização. Se você vê a execução orçamentária da defesa do país é brincadeira.
ucho.info - A senhora acha que a transição de lideranças dentro do Democratas está adequada, não está criando embaraços políticos que comprometem o próprio partido?
Kátia Abreu - Você construir a idéia de fidelidade partidária, estabelecer
princípios partidários no Brasil não é fácil. Não é porque os políticos não são bons, mas foram criados e construídos em conceitos diferentes. Por exemplo: em relação à CPMF, o senador Mercadante (Aloízio) disse: “Ah, mas o Democratas é radical, não quer negociar, não quer conversar”. Criou-se um conceito aqui dentro desta Casa que tudo tem que ser negociado. O aborto precisa ser negociado? Você é contra ou é a favor do aborto? Impostos: você não pode ser contra e a favor? Não pode ter meio termo, quando a situação econômica é favorável.
ucho.info - Mas muitos políticos deixaram o Democratas. Isso não é um sinal de que há um problema interno no partido?
Kátia Abreu - Acho que ficaram no partido aquelas pessoas que querem levar o partido a sério, que querem construir uma vida partidária sólida. Em relação aos senadores Romeu Tuma (SP) e César Borges (BA), acho que o componente regional pesou muito. Tiveram problemas regionais insuperáveis. Agora o senador Lobão (Edison), não. Já tinha um comportamento governista desde o início. Não tinha problema regional (Maranhão), o partido era dele. Essas pessoas que querem praticar a democracia vão ter que respeitar a fidelidade partidária.
ucho.info - No estado do Tocantins seu apoio vai para o governador (Marcelo Miranda, do PMDB) que apóia o governo federal, de quem a senhora é ferrenha adversária. Como é essa “engenharia” política regional?
Kátia Abreu - Esse é outro paradigma que tem que ser quebrado. De achar que quem é da base tem que ser leniente, ausente e omisso. Isso não é a realidade. Você pode apoiar uma pessoa, mas isso não significa que você estará com ela em tudo o que ela faz. Não significa ser desleal, mas ter personalidade. Quando nós fechamos a chapa, o governador Marcelo Miranda já sabia que eu era oposição a Lula (presidente Luiz Inácio Lula da Silva). Não menti pra ninguém, eu fiz campanha para o Alckmin (Geraldo Alckmin, do PSDB).