ucho.info - O PT sofre de uma espécie de “síndrome do peleguismo sindical” com essa falta de renovação dos quadros?
José Eduardo - O PT é muito plural na sua composição interna. Então,
essa matriz de pensamento sindicalista que você coloca, que eu também não sei se é real no sindicato, no PT não é o fator que explica porque ele é composto por várias forças. A falha é a ausência de formação de quadros políticos que tenham expressão social. Talvez a razão é que nos últimos anos os dirigentes do partido se distanciaram da militância. O PT passou por um processo de burocratização interna. Os nossos dirigentes acabaram se distanciando sobremaneira do seu quadro de militância, e isto se fazia muito nos órgãos de decisão de base. Esse processo faz com que aqueles que estão vinculados à estrutura da burocracia partidária permaneçam mantendo o controle partidário, e por isso não há renovação de novos elementos que vêm do processo de ascensão partidária.
ucho.info - O senhor é um deputado isolado dentro do partido. O senhor também não foi envolvido nos diversos escândalos que atingiram o PT. Nomes como o do presidente Lula, o senador Aloízio Mercadante, José Dirceu e outros são bem-vindos em seu palanque?
José Eduardo - O PT sempre foi um partido que teve e tem muita unidade
do seu programa, mas muita disputa em relação a este programa. Eu não tenho dúvida que algumas posições que tenho assumido ao longo da minha vida têm contrariado não o partido, mas têm contrariado as posições de algum grupo interno. Alguns dirigentes do partido não souberam honrar com as premissas que nós sempre defendemos ao longo da nossa vida partidária. Eu defenderei qualquer candidatura do meu partido, em qualquer ponto do Brasil, mesmo que não expresse o meu ponto de vista interno. Receberia sem qualquer problema em meu palanque José Dirceu [deputado cassado e réu no caso do mensalão], porque a atuação dele tem que ser historicamente reconhecida. Ele é um quadro do nosso partido e tem que atuar fortemente em defesa de nosso partido. Eu já tive muitas divergências com José Dirceu, assim como tive muitas concordâncias.
ucho.info - Depois de Golbery do Couto e Silva [ex-ministro da Casa Civil nos governos de Ernesto Geisel e João Batista Figueiredo] o agora deputado cassado José Dirceu foi o melhor chefe da Casa Civil que o País já teve. José Dirceu é uma versão esquerdista de Golbery?
José Eduardo - (Risos) Eu não acho, porque Zé e Golbery são muito distintos. Agora, da mesma forma que Golbery era um grande quadro daquele momento para o governo militar, José Dirceu é um grande quadro do Partido dos Trabalhadores.
ucho.info - Mas ambos têm uma característica comum: um reconhecido apreço pelo serviço secreto.
José Eduardo - (Risos) Acho que o fato de ambos serem de quadros políticos muito conscientes do que logicamente fazem o identificam, mas têm muitas coisas que o separam.
ucho.info - O senhor é candidato à prefeitura de São Paulo em 2008?
José Eduardo - Sou pré-candidato à prefeitura de São Paulo. Não é uma situação tranqüila, porque nós vamos ter bons nomes para disputa.
ucho.info - Entre eles, o de Marta Suplicy?
José Eduardo - Claro.
ucho.info - Há uma “guerra intestina”?
José Eduardo - Não diria que há uma guerra intestina, mas uma disputa que pode ser forte. Mas se Marta Suplicy for candidata, elimina-se a disputa, pois é uma candidata natural em razão da densidade eleitoral que tem nesse momento. Mas não sendo a ex-prefeita, aí, sim, coloco a minha candidatura. Há três nomes que se colocaram até agora: o meu, o do presidente (da Câmara Federal), Arlindo Chinaglia, e o deputado federal Gilmar Tato.
ucho.info - Uma eventual vitória da sua candidatura coloca o seu nome na vitrine das eleições de 2010?
José Eduardo - Não creio nisso. Se eventualmente for candidato pelo PT à prefeitura de São Paulo e viesse a me eleger, cumpriria esse mandato integralmente. Seria a primeira experiência no exercício do cargo executivo. [Foi vereador, presidente da Câmara Municipal e secretário municipal na gestão de Luíza Erundina, hoje filiada ao PSB.] Interromper o mandato por dois anos, onde sequer você pode implementar seu plano de governo, seria um erro profundo para qualquer pessoa e, particularmente pra mim. Eu não largaria o mandato por nada.
ucho.info - São Paulo tem solução administrativa a médio e longo prazos?
José Eduardo - Nós temos em São Paulo um modelo de administração
imediatista, que é uma característica da política brasileira. A dimensão de planejamento urbano, a meu ver, é o grande ponto problemático de São Paulo que, desde a sua fundação até agora, não seguiu nenhum planejamento. Uma gestão conseqüente e séria tem que lançar mão de um planejamento urbano sólido e irreversível para o futuro. A dimensão do planejamento urbano, se bem concebida e séria, gera em curto espaço de tempo mudanças substantivas na qualidade de vida da cidade.
ucho.info – Para finalizar, e sem deixar de falar no governo do presidente Lula da Silva...O Bolsa Família é um programa populista, como acusa a oposição?
José Eduardo - Não. Em primeiro lugar, o Bolsa Família é um programa imediato, emergencial, para um problema real com reflexos muito positivos. Boa parte do reaquecimento que nós temos em algumas regiões do País é reflexo do Bolsa Família, que permite o desenvolvimento e o surgimento nas comunidades de alternativas econômicas. Ele não é um programa que pára em si mesmo, pois é uma etapa de programas sociais, cujo objetivo central é a busca da melhoria. Se você não atacar a fome, você pode pensar o que quiser, porque o cidadão tem que comer para estar inserido.