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Continuação

 

ucho.info - Mas tudo isso ocorre porque não se muda esse sistema com discursos e mais discursos. A “lenga-lenga” continua.

José Eduardo - É verdade, mas aí nós temos que ver as causas que levam à situação de não reforma do sistema político brasileiro. É muito difícil um Poder se auto-reformar. A Constituição de 1988 é bastante avançada, mas se você observar o sistema político que está retratado nesta constituição é, na sua essência, o mesmo sistema político da Constituição de 1967, com pouquíssimas alterações. Por que, então, uma constituição que inovou tanto em determinados aspectos, manteve o mesmo sistema com os mesmos vícios?

ucho.info - Continua retrograda...

José Eduardo - Exatamente. Por que isso? Porque nós não tivemos a Constituição de 88 elaborada pelo Poder Constituinte. Foi o Congresso Nacional transformado em Congresso Constituinte.

ucho.info - O senhor é, então, a favor de uma Constituinte exclusiva?

José Eduardo - Imaginar que o Congresso Nacional pode fazer, hoje, uma reforma política é, em primeiro lugar, imaginar que ele tem energia suficiente para ultrapassar essa barreira, que é a barreira inercial da auto-reforma. Isso só aconteceria com uma forte pressão da sociedade, o que não há. Os nossos partidos políticos não se entendem em relação ao modelo, então não há pressão efetiva para a mudança do sistema. A melhor maneira de se fazer uma reforma política hoje é ter pessoas que não tenham comprometimento com o sistema que criarão. Eu diria que nós não precisamos de uma Constituinte, mas de uma revisão parcial da Constituição com pontos limitados.

ucho.info - O senhor afirma que a sociedade não tem força. O governo não tem responsabilidade nisso, à medida que cooptou sindicatos, centrais sindicais e até movimentos sociais?

José Eduardo - Eu não posso dizer que todas as centrais sindicais têm uma tendência governamental. O que existe é que algumas têm afinamento maior com o governo, outras têm uma relação menor. Não vejo uma cooptação. Se tivesse uma cooptação, talvez não houvessem tantas disputas como em relação à reforma trabalhista ou na reforma da estrutura sindical brasileira, que não se conseguiu um mínimo consenso para que ela pudesse ser implementada.

ucho.info - A que se deve a inércia e a desarticulação da sociedade brasileira?

José Eduardo - É uma característica do momento histórico brasileiro. Nós tínhamos uma grande mobilização social no período do combate à ditadura. Talvez porque nós tenhamos pouca experiência histórica democrática, a sociedade não consegue se fazer ouvir ou se organizar. Os grupos sociais que têm ação de movimentação ficam aquém de sua expressão do que a realidade brasileira poderia permitir. Esse é um processo histórico de construção de cidadania, de construção de organizações. Não raramente nós temos o braço do Estado cooptando, eu diria que infelizmente, a cooptação de movimentos é uma característica da cultura brasileira. Há situações em que agentes de esquerda e de direita agem com a mesma identidade, o que é muito ruim.

ucho.info - Depois de 2003, o PT passou a ser governo. Passado esse período, na sua avaliação, é mais fácil ser pedra ou vidraça?

José Eduardo - Não tem a menor dúvida que ser vidraça é mais difícil. Ser oposição no Brasil envolve um senso de irresponsabilidade imenso, que pode ser superado com o tempo. A sociedade começa a perceber que não é possível ser oposição e ter um discurso, e ser governo, ter outro. Hoje, começa a ser cobrada mais coerência das coisas. Quando você é oposição é um vale-tudo. Então, quando se defendia um determinado imposto, não vale mais. Aquela situação, que eu achava impossível, agora defendo para causar do desgaste no governo.

ucho.info - Nisso se inclui a CPMF?

José Eduardo - Sim, se inclui a CPMF. Agora, faço a crítica também em relação a nós (PT). E isso vale para nós como para o PFL (agora Democratas), como para o PSDB.

ucho.info - O senhor não acha que falta consciência ao político brasileiro sobre que é uma oposição republicana?

José Eduardo - Em todos os partidos temos bons políticos, mas pouquíssimos estadistas. Nosso pensamento é muito imediato. É um pensamento oportunista. É uma realidade do Brasil. Vale pra todo mundo. Repito: vale inclusive para o meu partido. Mas a sociedade começa a perceber esse jogo, porque isso é próprio da evolução democrática. Na democracia você sempre trabalha por categoria maniqueísta: o bom e o mau, o mau e o bom, o demo e o santo. A oposição é santificada e o governo é demonizado. Na medida em que demônios e santos começam a alterar de lado gradativamente, daqui a uns dez ou quinze anos esse tipo de comportamento da política brasileira vai desaparecer, porque o eleitorado, o cidadão já consciente, vai tomar consciência desse processo.

ucho.info - Sem qualquer trocadilho, qual será a tendência do PT nas eleições?

José Eduardo - Esse é um dos debates internos mais agudos que nós temos hoje, porque um partido que tem a dimensão do PT deve pretender ter um candidato próprio à presidência da República e à prefeitura. No entanto, reivindicar situações exige uma análise muito objetiva e não corporativista partidária daquilo que você quer. Se nós tivermos no nosso campo de aliados pessoas que têm mais densidade eleitoral, que têm mais condições de viabilidade para prefeituras ou para a Presidência da República, seria descabível e razoável que nós viéssemos soltar candidatura própria, desunindo forças políticas e trazendo a derrota de todos. Não há nenhum problema para o PT ter um candidato, em 2010, que não seja do PT. Não vejo nenhum problema. É legítimo que reivindiquemos nossa candidatura, mas temos que discutir com as forças aliadas. Temos que discutir em relação à prefeitura, quem são os candidatos que vamos defender. Defendo muito que o PT trabalhe com seus aliados e, particularmente, com o campo de centro-esquerda.

ucho.info - Ao defender a hipótese de um candidato à Presidência que não seja do seu partido, isso demonstra que o PT não tem um candidato próprio para disputar um cargo de importância como o de presidente da República?

José Eduardo - Nós temos pessoas que poderiam disputar. Nós temos quadros políticos. O nosso problema é outro. Nós temos os governadores Jaques Wagner (Bahia), Marcelo Deda (Sergipe), Dilma Roussef (ministra da Casa Civil), Tarso Genro (ministro da Justiça)...

ucho.info - Mas falta densidade eleitoral nacional para esses nomes...

José Eduardo - Isso é relativo, porque você constrói com a força do partido. Eu vejo que o PT não tem renovado seus quadros. São sempre as mesmas pessoas disputando os mesmos cargos. Isso demonstra falta de energia na renovação dos novos quadros. Você tem que construir lideranças, construir quadros com densidade política para que possam substituir as pessoas.

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(Fotos: ucho.info)

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