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Petista faz “mea culpa” e almeja administrar a maior cidade do País

Isolado dentro do PT, José Eduardo Cardozo luta para manter o discurso dos tempos de oposição, enquanto administra a inimizade política de José Dirceu

(*) Ucho Haddad e Gilmar Corrêa

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Ex-presidente do Legislativo paulistano, advogado e professor de Direito Administrativo pela Pontifícia Universidade Católica (SP), José Eduardo Martins Cardozo, 48 anos, sonha em ser prefeito da maior cidade da América Latina – São Paulo. Procurador do município de São Paulo desde 1982, Martins Cardozo se aproximou do Poder Executivo quando integrou a equipe da então prefeita Luiza Erundina, que deixou o PT por divergências internas e hoje está filiada ao PSB. As mesmas barreiras políticas enfrentadas pela paraibana que conquistou o respeito de boa parte dos paulistanos podem prejudicar o sonho desse petista que está em seu segundo mandato como deputado federal.

Dono da maior votação obtida por um vereador na história do País (229.494 votos em 1º de outubro de 2000), José Eduardo tem entre seus adversários, dentro do próprio PT, o ex-deputado cassado José Dirceu, que continua dando as cartas no partido que, segundo nosso entrevistado, sofre com a burocracia interna que impede o aparecimento de novas lideranças. “São sempre os mesmos que disputam os mesmos cargos”. Eleito pelo Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar) como um dos cem parlamentares mais atuantes do Congresso Nacional, o petista defende mudanças no sistema político-partidário brasileiro com uma revisão parcial da Constituição com pontos limitados. Nesta entrevista que concedeu na Câmara dos Deputados, na última quinta-feira (13/9), Cardozo fez uma “mea culpa” ao falar dos erros do PT, defendeu o Bolsa Família e um plano estratégico para resolver os graves problemas da maior metrópole brasileira.

ucho.info - O Brasil vive um momento difícil na política, agravado pela crise no Senado?

José Eduardo Martins Cardozo - É mais determinado pelo sistema político que acaba gerando as mais diversas espécies. E enquanto esse sistema político não for alterado, nós vamos continuar vivendo situações típicas. Não importa o governo, não importa a legislatura. Infelizmente, vivemos situações determinadas pelo sistema político.  Vai ter que existir uma maturidade política entre todos os líderes partidários para que se tenha um pacto de convivência de respeito à instituição Senado.

ucho.info - A tendência é sobrar para o PT?

José Eduardo - Acho muito difícil.

ucho.info - Mas o próprio senador Aloízio Mercadante (SP) afirmou ter trabalhado pela a abstenção de votos, opção que disse também  ter seguido no caso Renan Calheiros- Mônica Veloso.

José Eduardo - É um direito dele. Agora, nós não tivemos, até onde eu saiba, nenhuma orientação partidária para seguir o caminho “a”, “b”, “c”. O que sei é que a bancada foi liberada. O que vejo como grande problema nesse processo é o voto secreto. Esse é um problema grave da democracia brasileira. Você tem, hoje, pessoas fazendo discursos numa linha aguda e radical e vota contra. Enquanto não for abolida essa excrescência da Constituição brasileira, que é um resquício antidemocrático, nós nunca vamos saber exatamente como se comportam os representantes do povo.

ucho.info - Qual o dividendo político da decisão do senador Aloísio Mercadante, no episódio da absolvição do senador Renan Calheiros, nas suas pretensões políticas?

José Eduardo - Não havia um informe do PT no caso do senador Calheiros. Não havia. Cada senador decidia por si, como foi o caso dos senadores Eduardo Suplicy (SP) e Delcídio Amaral (MS), que lutaram até o fim para que a sessão fosse aberta. O senador Aloízio Mercadante expressou seu ponto de vista. Tenho certeza que se uma pessoa agisse com oportunismo, como é a característica da política brasileira, não teria de dar a declaração que o senador Mercadante deu. O mais cômodo nesta hora é se esconder atrás do voto secreto. Ele não se escondeu, assumiu uma posição que num primeiro momento pode ser muito impopular, pode pagar um preço imediato caro por sua coragem, mas é uma coragem democrática legítima. Ele não se escondeu.

ucho.info - Talvez o senador Mercadante não tenha se escondido porque a sessão toda foi “vazada” para a imprensa.

José Eduardo - O senador Aloízio Mercadante é tão vivido que, se ele não quisesse ser descoberto ele teria feito de uma maneira escondida. Teria suficiente experiência para não se expor neste caso.

ucho.info - O senhor acredita que a crise do Senado pode contaminar também a Câmara dos Deputados?

José Eduardo - Não creio.

 

ucho.info - Mesmo com a votação da CPMF?

José Eduardo - O que pode acontecer é que como a CPMF vai para o Senado, não sendo debelada a crise lá, podemos ter uma crise no Senado. Acho que as lideranças políticas têm que ter maturidade e bom senso, porque há de se separar as coisas. Cada coisa no seu tempo e na sua forma. A CPMF é uma questão fundamental para o País. O governo tem buscado dialogar buscando alternativas para o entendimento, então acredito que é perfeitamente factível que, apesar da crise do Senado, consigamos separar a crise da situação concreta da política necessária para o País.

ucho.info - A crise do “mensalão” estava aqui na Câmara. O senhor acha que ela atravessou essa linha divisória? O que pode acontecer daqui para frente?

José Eduardo - Eu não acho que seja a mesma crise, mas o pano de fundo é o mesmo. E será assim enquanto este sistema político persistir. Enquanto continuarem essas regras de financiamento de campanha que nós temos, a fidelidade partidária atual, e este sistema perverso e hipócrita que temos, este é o pano de fundo desta geração de crise.

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(Fotos: ucho.info)

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