ucho.info – O senhor repetido que é um estreante no Senado, mas a sua experiência política não só o levou à mais alta instância legislativa do País, mas permitiu que o presidente Lula sonhasse, um dia, em tê-lo como companheiro de chapa. Quais propostas o senhor traz ao Senado para contemplar o povo pernambucano, mesmo sendo um calouro na Casa?
Jarbas Vasconcelos - Eu cheguei aqui com várias propostas. A primeira delas era eleger como prioridade a reforma política. Não acredito que sem uma reforma política profunda consigamos melhorar o quadro político-
eleitoral. Política sem fidelidade partidária e com coligações indecentes, permitindo o troca-troca de partidos, leva ao descrédito que aí está. Uma reforma política decente irá permitir a aparição de novas legendas, as quais poderão ser constituídas por pessoas que estão desconfortáveis, como é o meu caso dentro do PMDB. Isso não foi feito no governo anterior, e muito menos no atual. Quando o Presidente da República cruza os braços e fica omisso, o caminho da reforma política fica mais difícil. Nós perdemos tempo sugerindo mudanças no projeto da reforma política, pois a reforma será pontual. No âmbito das reformas é preciso lembrar as que Lula prometeu – e não cumpriu – como é o caso da complementação da reforma da Previdência – as contas previdenciárias devem estourar em breve – e da reforma trabalhista (a legislação trabalhista é da década de 40 do século passado). É importante que um país que quer se modernizar, participar de um mundo globalizado, avance. E para avançar são necessárias reformas.
ucho.info – O Plano de Aceleração do Crescimento, PAC, tem dado mostras de ser um factóide político que pouco ou quase nada irá acrescentar ao desenvolvimento do país. Ao serem analisadas pelo Congresso Nacional, muitas dessas proposituras podem se transformar em um novo problema para o governo Lula, uma vez que algumas grandes empresas são responsáveis pelo financiamento de muitas campanhas políticas. E os financiadores certamente irão cobrar os financiados. Por conta dos recentes escândalos de corrupção, tal detalhe pode ser um empecilho no momento da aprovação das propostas do PAC?
Jarbas Vasconcelos – O PAC é uma fantasia. É um amontoado de iniciativas, de projetos que foram apresentados ainda na era de Fernando Henrique Cardoso, e que só agora o presidente Lula despertou para isso. O PAC, primeiramente, revela a decadência do governo Lula. A fragilidade do governo Lula. Ele não funcionou no primeiro mandato, e no segundo teve de apresentar um PAC para se recuperar da fragilidade do mandato anterior. Eu não acredito no PAC por isso. Estamos no início do segundo semestre, e até agora o PAC não conseguiu desamarrar as coisas. Essa discussão, infelizmente, não tem acontecido dentro do Congresso, pois as pautas das duas Casas – Senado Federal e Câmara dos Deputados – se encontram muito tumultuadas.
ucho.info – Aproveitando que o cardápio palaciano é a aceleração do crescimento, o senhor é a favor da transposição das águas do rio São Francisco?
Jarbas Vasconcelos – Não. O que deveria ser feito primeiramente é uma revitalização do rio São Francisco, para, em seguida, imaginar que o governo federal poderia destinar parte desses recursos para estados como Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte, solucionando seus problemas hídricos. É um volume de dinheiro muito grande para uma obra cuja manutenção será muito cara, e que poderia ser substituída por outros tipos de obras.
ucho.info – Qual a mensagem que o senhor deixa ao povo brasileiro, em especial aos pernambucanos, tão descrente em relação à política nacional e ao Congresso, que o senhor, como bem disse dias atrás, está sangrando?
Jarbas Vasconcelos – Existem dois sentimentos que devem ser lembrados em relação às Casas Legislativas. O primeiro deles, que não serve só ao Congresso, mas a toda a sociedade brasileira, é a questão da impunidade. No Brasil, a impunidade tem levado a esses escândalos que têm chocado a opinião pública. E não é à toa que a classe política, também, pratica e reitera os seus atos de desatinos. Existem inquéritos, prisões espalhafatosas, mas dificilmente se tem a conclusão de um caso com a aplicação de prisão ou algum tipo de pena. O sentimento de impunidade tem levado ao descrédito da classe política e ao distanciamento do Congresso em relação à sociedade brasileira. E segundo lugar está a questão da reforma política, que talvez a população não tenha uma percepção mais apurada sobre o assunto, pois à sociedade existem outras prioridades (segurança, saúde, educação). Mas é muito importante que se faça a reforma política, o que não garante o fim de todos os males, mas vai permitir uma vida mais decente tanto aqui no Senado como na Câmara dos Deputados.