Ex-governador de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos chegou a ter o nome cogitado para bater chapa com Luiz Inácio Lula da Silva em sua campanha pela reeleição, mas destila um considerável alívio por tal conjectura político-eleitoral não ter alcançado o campo da realidade. Visivelmente desconfortável dentro do PMDB, o senador pernambucano encontrou no gaúcho Pedro Simon um reforço de peso para seu discurso oposicionista, o que tem levado os ocupantes do Palácio do Planalto a comentários pouco ortodoxos.
Natural de Vicência, no interior de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos foi
uma das primeiras vozes a defender o afastamento do senador Renan Calheiros da presidência do Senado, como forma de garantir isenção nas investigações sobre o escândalo que tem chacoalhado diuturna e incessantemente a política nacional. Sem comentar sobre a possibilidade de suceder Renan Calheiros na presidência do Senado, caso o atual presidente da Casa tenha o mandato cassado por quebra de decoro, Jarbas Vasconcelos prefere manter o discurso oposicionista, que, segundo ele, foi construído com base na coerência, ao mesmo tempo em que se indigna com a não indicação de Pedro Simon para integrar o Conselho de Ética do Senado.
ucho.info - Hoje o PMDB é uma espécie de colcha de retalhos, com lideranças pontuais em vários estados, o que tem impedido o partido de adotar um discurso uníssono. Essa divisão de poderes dentro do PMDB tem dificultado o avanço e a modernização do partido como um todo?
Jarbas Vasconcelos – Claro que tem. Há dez anos que o PMDB vem tropeçando, se atropelando. Ora é governo, ora é oposição. Tem participado de loteamento de cargos. Enfim, só uma reforma política decente – e isso está difícil agora, pois teremos apenas alguns itens dessa reforma aprovados – é que permitirá um novo quadro partidário no Brasil, com novas agremiações se for o caso. Mas o PMDB vive uma situação muito delicada e difícil, e não é de agora. Os recentes episódios políticos apenas acentuam essa crise de vivência do partido.
ucho.info – Quando o presidente Lula ainda articulava a sua campanha visando a reeleição, o seu nome foi cogitado para assumir a vaga de vice-presidente na chapa do candidato petista. O PMDB estaria melhor politicamente se estivesse no Executivo, e não nessa situação dúbia que é possível conferir no Legislativo?
Jarbas Vasconcelos – O PMDB errou ao deixar livres os seus diretórios regionais na última eleição presidencial. A verdade é que uma parte majoritária apoiou o presidente Lula, enquanto outra apoiou Alckmin. Enfim, o que o PMDB deveria ter feito no final de 2006 e no começo de 2007 é ter ficado na condição de independência. Mas essa é uma situação difícil para um forte alinhamento que existe dentro do partido formado por fisiológicos, de pessoas querem cargos. Esse movimento foi vitorioso dentro do partido, e eu, literalmente contra, fui uma voz quase isolada nesse processo na defesa da tese de que o PMDB não aderisse ao governo Lula. Um governo de coalizão é um governo de princípios. É uma coalizão que se faz em cima de princípios, em cima de um programa. E nenhuma dessas duas coisas foi utilizada nessa coalizão, pois o que prevaleceu foi o "toma lá, dá cá", foi exatamente o loteamento de cargos. Hoje o PMDB é um satélite de Lula e do PT. Imaginar que o PMDB vai ter candidatura própria em um próximo pleito eleitoral é um equívoco total e completo. O PMDB é hoje um partido descaracterizado, é um amontoado de lideranças espalhadas pelo Brasil afora, mas sem nenhum rumo, sem nenhum objetivo.
ucho.info – Mesmo sendo difícil uma candidatura própria do PMDB, existe a possibilidade de o partido acolher Aécio Neves, uma vez que o governador de Minas Gerais dificilmente vai entrar em rota de colisão com outros presidenciáveis do PSDB? E seria interessante para o PMDB ter em seus quadros o governador mineiro, sabendo que em sua bagagem eleitoral existe o apoio político de parte do Partido dos Trabalhadores?
Jarbas Vasconcelos – Essa é uma engrenagem muito complicada, pois para ingressar no PMDB o governador Aécio Neves precisaria ter um diagnóstico muito tranqüilo do partido. E atualmente é muito difícil ter esse diagnóstico, pois são muitos os interesses que prevalecem dentro do PMDB. Uma pessoa como Aécio, que governa um estado do tamanho de Minas Gerais, eventual candidato à Presidência da República, deixar a legenda do PSDB para ingressar no PMDB, mesmo com alguns acenos governamentais, é um risco muito grande, porque as lideranças do PMDB são muito conflitantes em termos de interesses na área mais fisiológica.