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Continuação

 

ucho.info - A falta de desdobramentos das investigações, de vários escândalos que surgiram nos últimos anos, não afeta diretamente na crise política que o Brasil está enfrentando?

Gustavo Fruet - Olha, é difícil definir um fato só para duas questões. A primeira delas é que, mesmo no caso de descrédito, é importante não se perder de vista o papel de fiscalização do Congresso. Quais foram as medidas eminentemente legislativas neste ano no Congresso Nacional, especialmente na Câmara? Basicamente a CPI, que foi rejeitada pelo Plenário e precisou de uma decisão do Supremo Tribunal Federal para que ela pudesse ser instalada. Há uma distância entre o resultado de uma comissão, que tem papel de levantar informações, com o resultado final. Eu dou um exemplo até do que está acontecendo no Brasil. Nós (PSDB) fizemos uma pesquisa que mostra que há uma imagem muito positiva da Polícia Federal, mas isso tem ajudado a prejudicar a imagem do Judiciário. A impressão que há é a de que a polícia prende e a Justiça solta. A polícia prendeu porque a Justiça autorizou, e a prisão preventiva tem prazo, não é uma prisão permanente ou em razão de uma condenação. A crise política é um processo. Eu lembro que quando houve a disputa pela presidência da Câmara defendíamos que estava na hora da Câmara sair do noticiário policial e entrar no noticiário político, enfrentando com firmeza as denúncias e os processos de investigação, e não ficar só na dependência da agenda do Executivo. É uma série de fatores que faz com que a população hoje esteja descrente. Acabou aquele período heróico, de imaginar que as pessoas vão para rua o tempo inteiro, mas isso vai criando um caldo. Política se faz todo dia um pouco, não só nos grandes momentos. De repente isso poderá ter um desdobramento que será imprevisível. Agora, para onde vai esta reação eu não sei.

ucho.info - E esse caldo estaria em que temperatura?

Gustavo Fruet - Muito elevada. Hoje, várias pesquisas que vi, uma parte expressiva da população acha que a democracia pode funcionar sem deputado e senador. E na reeleição uma parte expressiva votaria na reeleição do presidente Lula para um terceiro mandato.

ucho.info - O senhor acha que a população está desanimada com a falta de assistência em áreas como segurança, saúde...

Gustavo Fruet - Interessante... Na pesquisa que eu vi uma parte expressiva da população está otimista com o País. Nós temos que entender como é que vai se formando esse sentimento, porque há uma resposta em relação ao Executivo e outra ao Legislativo. O Legislativo é mais analítico. A resposta do Executivo mexe muito mais com a vida das pessoas em todos os extratos sociais. Qual será o desdobramento? É difícil prever.

ucho.info - O senhor é favorável ao voto obrigatório?

Gustavo Fruet - Não. Defendo o voto facultativo, até por entender que imaginar que obrigando o eleitor a votar isso vai ajudá-lo a politizá-lo, vai contra a liberdade e o princípio da democracia. A média de votos branco, nulos e abstenção no Brasil se equivale a ausência em muitos países onde o voto não é obrigatório. O Brasil talvez seja um dos poucos países que mantém na democracia a obrigatoriedade do voto.

ucho.info - Por que a reforma política não avança? Muitos vão perder?

É uma soma de fatores. Toda vez que a gente pensa numa reforma para a próxima eleição, é natural que quem vai votar pense qual o resultado prático que isso vai acarretar no seu colégio eleitoral. É difícil construir a reforma dessa maneira. O ideal seria tentar uma reforma com resultados daqui a duas a três eleições. Reforma é um tema que, a curto prazo, tem reação e gera muitos conflitos de interesses. Esta reforma acabou paralisada por alguns temas que dizem respeito à questão eleitoral, mas que não mexe a fundo na estrutura política do País.

ucho.info - Falta coragem para que reformas fundamentais sejam atacadas?

Gustavo Fruet - Falta coragem, firmeza e clareza. Vamos inverter a pergunta: o que não se quer ao não se fazer a reforma? A impressão é um processo que todos defendem, mas que no fundo não querem abrir certos instrumentos de controle de poder e esse governo, no segundo mandato, está usando como nunca e com eficiência os instrumentos de poder.

ucho.info - Rasgou o discurso de 25 anos?

Gustavo Fruet - Exatamente.

ucho.info - O PT é um partido mais à direita, de centro-esquerda?

Gustavo Fruet - Para mim é um partido pragmático que quer se manter no poder. E com tudo que vimos aí, há pessoas notáveis, há pessoas ideologicamente comprometidas, preparadas, mas no saldo, no que testemunhei, lamento isso, porque o PT era uma referência, é um partido pragmático hoje que vai querer se manter no poder.

ucho.info - Como o senhor define o governo de Roberto Requião?

Gustavo Fruet - Primeiro, eu rompi com o governo Requião. O Paraná, apesar de um estado de vanguarda, acabou sendo reacionário na política nacional. Em vinte anos, dois governadores (Jaime Lerner e Roberto Requião). O governador Requião tem um discurso muito forte, se comunica muito bem com a população, mas é capaz de qualquer composição para se manter no poder. Está aí uma mudança: todo o grupo praticamente que era de Jaime Lerner hoje está na base de sustentação do governo.

ucho.info - O senhor é candidato à prefeitura de Curitiba?

Gustavo Fruet - Não. O candidato é o prefeito Beto Richa, que eu apóio à reeleição, salvo a eventualidade de ele não disputar, o que é inexistente hoje. Mas penso sim, em 2010, numa eleição majoritária. 2008 vai representar um novo ciclo na relação das forças políticas no Paraná e eu espero participar desse processo a partir de 2010.

ucho.info - O senhor vai para governador em 2010 com Aécio Neves (governador de Minas Gerais) como candidato à Presidência da República?

Gustavo Fruet - (risos) No Paraná nós temos dois desafios. Construir um projeto que empolgue o estado, que motive, que dê boas capacidades de desenvolvimento, mas com a cabeça no lugar para evitar o conflito de lideranças com Osmar Dias, Álvaro Dias e Beto Richa, que poderá comprometer o projeto majoritário. Há espaço para uma composição para o governo e para o Senado. Com relação à candidatura presidencial, são candidatos com estilos diferentes e só tem viabilidade uma candidatura. Também, se tiver a capacidade de construir este apoio. O PSDB perdeu duas eleições que podem ser atribuídas a uma disputa que se instalou para a escolha do candidato. Isso prejudicou muito. Seja Aécio, seja o Serra (José Serra, governador de São Paulo) a candidatura será viável se não custar uma disputa política interna.

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