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Brasil: se cobrir vira circo, se cercar vira hospício
 
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Entrevista do SábadoPor que, em sua opinião, as autoridades, a começar pelo governador Sérgio Cabral, relutam em tomar providências para pôr fim a esse escândalo de proporções gigantescas?

Alexandre Neto - Uma coisa são as promessas de campanha. Outra coisa é a assunção do poder após a eleição. Como as campanhas políticas já nascem contaminadas pelo favorecimento recíproco, qualquer governador que entra se vê tolhido em tomar atitudes drásticas contra a corrupção, até porque foi ela que ajudou a financiar inúmeras campanhas de companheiros de partido. Fica difícil pôr fim a algo que já ficou consagrado como meio de obtenção de recursos partidários.

Entrevista do SábadoO senhor vive um momento de decepção em relação ao Estado como um todo. Até que ponto é possível acreditar na polícia? O cidadão pode se considerar protegido?

Alexandre Neto - Não é o Estado que decepciona, mas sim os políticos. São eles que prometem e depois não cumprem. Então fica difícil acreditar na Polícia quando o próprio "patrão" mentiu para alcançar um cargo político e exercer o poder de mando. Mostra-se óbvio que o cidadão não pode se considerar protegido.

Entrevista do SábadoO senhor vem sofrendo algum tipo de ameaça?

Alexandre Neto - Nunca fui ameaçado de morte. Não acredito e não temo ameaças. Sou um policial, sou um Delegado de Polícia. Não posso temer a morte em razão da profissão que abracei. Se um dia isso acontecer eu deixo a Polícia.

Entrevista do SábadoO atentado que quase lhe ceifou a vida não interferiu na sua vocação de defender a sociedade? Qual é o grau de contaminação da Polícia Civil do Rio de Janeiro?

Alexandre Neto - Não! A vocação é algo que morre com a gente. Só poderia ser policial aquele que tivesse vocação para tal. Hoje, ser policial é emprego ou "trampolim" para alguma outra coisa. A contaminação da Polícia Civil é muito grande, mas a minoria é que faz a diferença. Aliás, as grandes mudanças da humanidade começaram pelas minorias. Na Polícia não vai ser diferente, pois só os resignados lutam para mudar aquilo que se considera imutável.

 

Entrevista do SábadoA sua larga experiência como policial lhe permite uma análise mais acertada do atentado do qual foi vítima.

Alexandre Neto - Na Polícia não somos donos de experiências, mas sim eternos aprendizes, sempre compartilhando conhecimentos recíprocos, pois as atividades criminosas se entrelaçam. A síntese de meu atentado vai desaguar na PM. Numa PM que é minoria, mas que cada vez mais se aventura no crime em razão da falta de comando, ou de um comando voltado para o crime.

Entrevista do SábadoO senhor também pensa em deixar o país, a exemplo do que deve fazer o médico Daniel Fonte, ou prefere esperar a seqüência dos fatos?

Alexandre Neto - Se alguém tiver que mudar de País vão ser os criminosos, covardes e aproveitadores do dinheiro público, e não eu ou o Dr. Daniel Ponte. Já cantava Geraldo Vandré: "quem sabe faz a hora, não espera acontecer...". Já é hora de todos os homens de bem se unir para lutar contra a hipocrisia política dos "mensaleiros", dos "propineiros" que infelicitam nossa nação. Os corruptos já são unidos por natureza. Está na origem da própria palavra...

Entrevista do SábadoO senhor vem sofrendo algum tipo de sanção por dar apoio ao Daniel Fonte?

Alexandre Neto - Não tenho medo nem do Sansão e nem da Dalila. Quem conhece a Polícia do Rio de Janeiro vai entender minha resposta, muito embora o Sansão seja calvo, igual a mim. Já a Dalila...

Entrevista do SábadoO seu currículo como policial lhe outorga o direito de fazer uma previsão sobre o caso. Há um fio de esperança neste caso, por mais ínfimo que seja?

Alexandre Neto - Na Polícia nada é previsível, pois um simples fato novo possui o condão de mudar tudo, da noite para o dia. Porém, como "o tempo não para" (já cantava Cazuza), nunca podemos perder a esperança, pois, tal qual a vida, ela repousa sobre um fio.  

Entrevista do SábadoPor que, até então, a imprensa deu pouca cobertura ao caso. Será que os órgãos de comunicação estão também sob pressão?

Alexandre Neto - A imprensa sempre tem escândalos maiores para cobrir. Aí reside a pressão maior. Corrupção na Polícia, no IML, no DETRAN e em outros órgãos do Estado não são novidades. As novidades vêm do Poder Judiciário, do Ministério Público e de outros órgãos acima de qualquer suspeita. A corrupção na Polícia passa a ser comparável ao “trombadinha” da esquina.

Entrevista do SábadoHá alguma ponta de arrependimento da sua parte por ter entrado neste caso? Ou faria tudo novamente?

Alexandre Neto - Não me arrependo de nada do que faço, mas sim daquilo que deixo de fazer. Já conheci muitos oportunistas de segurança pública em nosso Estado. A maioria deles nem sei por onde andam ou se escondem. Mas eles passam. Nós, policiais, continuamos.

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