Entrevista do Sábado - Em que condições os peritos e funcionários do IML-RJ trabalham? Higiene é uma prioridade no órgão? É verdade que larvas saem aos milhares dos cadáveres?
Daniel Ponte – Higiene? Não tínhamos nem banheiro... Não havia local para lavarmos as mãos... Trabalhávamos em meio a milhares de moscas, sem refrigeração ou equipamento de proteção... Agora estou sendo ameaçado de morte e demissão por ter denunciado.
Entrevista do Sábado - Diante das explicações e denúncias até agora feitas, o senhor teme pela sua vida? Por quê?
Daniel Ponte – Fui avisado pelo Alexandre Várzea e pelo Wilson Queiroz que seria morto. Fui alvo de cinco ameaças de morte por parte de Aristóteles Marques Batista. Alexandre Várzea avisou para Aristóteles que
o mataria caso eu viesse a morrer... O Alexandre foi morto. O delegado Alexandre Neto, que também denunciou a máfia do IML uma semana após a morte de Várzea, sofreu um atentado (nove perfurações por munição de fuzil), em plena luz do dia em Copacabana. Na última quinta-feira, outra testemunha foi morta. O policial Fernando. O MP do Rio de Janeiro é inerte. O caso está com o promotor de Justiça Homero Neves há mais de ano, sendo que o prazo legal é de 30 dias para conclusão do inquérito. O Alexandre Várzea (principal testemunha do caso) foi morto sem ser ouvido em juízo. Situação idêntica ocorreu com o Fernando. E eu possivelmente serei assassinado. Já fui avisado que, se deixar o país, minha mãe "é uma senhorinha idosa, sendo muito fácil de ser morta em um roubo". Não há limites para o poder do Crime... Vivemos numa “cleptocracia”. (Clique e ouça o aviso que o médico-legista Daniel Ponte recebeu de amigos que têm conhecimento de um plano para assassiná-lo) - (Clique sobre DOC 1 e DOC 2 e confira os documentos referentes à ameaça feita por Aristóteles Marques Batista)
Entrevista do Sábado - O senhor usa o termo “cleptocracia” para afirmar que há roubo e corrupção no IML do Rio de Janeiro?
Daniel Ponte – Denunciei tudo, e recebi como premio um inquérito administrativo... O ex-diretor foi colocado ilegalmente em delegacia. O delegado Alexandre Neto denunciou, e o chefe de Polícia, Gilberto Ribeiro, deu ordem para abertura de sindicância contra ele (ordem não cumprida). Dias após, Alexandre Neto foi fuzilado (1º de setembro de 2007). Veja, se o chefe de Polícia lota ilegalmente um médico em delegacia, a sujeira vem de cima... Estive pessoalmente com o secretário Beltrame (José Mariano Beltrame, da Segurança Pública), que sabia do caso e nada fez. O promotor Homero das Neves, que como o Gilberto Ribeiro é filho de procuradores do MPRJ (Ministério Público do Rio de Janeiro), “deixa“ as testemunhas morrerem sem serem ouvidas. Entreguei tudo nas mãos do Promotor Homero, e mesmo assim o Alexandre Várzea (principal testemunha) foi morto sete meses depois sem ser ouvido. Não tenho dúvidas que vivemos uma “cleptocracia” no Rio de Janeiro. (Clique sobre DOC 1, DOC 2 e DOC 3 e confira as primeiras medidas para a sindicância)
Entrevista do Sábado - Um dos seus braços direitos na cruzada contra a corrupção no IML-RJ, Delegado Alexandre Neto, sofreu um atentado na frente da própria casa, sendo alvejado por nove tiros de fuzil. Tudo isso se deu logo após o falecimento do técnico-legista Alexandre Várzea, morto em um estranho 'acidente'. Várzea era sua testemunha nas denúncias de corrupção. Diante de situações bizarras como essas aqui relatadas e atitudes de pessoas sem limites, ainda é possível acreditar na polícia?
Daniel Ponte – Não acredito nas Polícias. O atual chefe de Polícia, Gilberto Ribeiro, chegou a colocar um Registro de Ocorrência de outra pessoa em minha ficha criminal, e faz isso de forma reiterada. Após a audiência com o Deputado Paulo Ramos, na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ), o Gilberto disse as seguintes palavras para mim: “você é um péssimo servidor, desonra a instituição e vou arrumar um jeito de punir por passar informações para a Policia Federal”. O Gilberto também mandou punir o delegado Alexandre Neto por ter denunciado que o perito Roger Vinicius estava ilegalmente em uma delegacia. (Clique e confira o registro policial com a inclusão do nome de um terceiro alheio ao caso)
Entrevista do Sábado - Considerando a sua experiência como médico e policial, o senhor é capaz de radiografar a polícia fluminense?
Daniel Ponte – A Polícia Civil do Rio é financiada pelo crime. A revista "Ação Policial", onde aparece toda a cúpula da Polícia, Promotores e Juízes dão entrevistas. A revista está repleta de anúncios de casas de prostituição de luxo, uma delas inclusive bem em frente a um prédio do Ministério Público... As imagens dessa revista falam mais do que qualquer palavra... (Clique e confira edição da revista)
Entrevista do Sábado - A chamada "banda podre" da polícia realmente existe ou é apenas um factóide criado pela mídia?
Daniel Ponte – A Polícia é uma "Banda Podre", com ilhas de homens dignos e honestos. Posso garantir que dos Peritos Legistas, 98% são honestos, pois são médicos. Têm a Polícia como mais uma fonte de renda. Em outras classes, esse número pode se inverter... E para quem duvidar, em todo o Rio de Janeiro vemos jogo de bicho, clinicas de aborto, casas de prostituição, máquinas caça-níqueis, pirataria a céu aberto, etc. Acham que só os cidadãos vêem isso? As autoridades são tão incompetentes? Ou será que todos esses lugares pagam para funcionar? (Clique e confira a declaração do proprietário de uma rede de farmácias que paga pedágio a policiais do Rio)
Entrevista do Sábado - As autoridades insistem em rotular os criminosos como inimigos públicos, sendo que combatê-los quase sempre é prioridade zero para os governantes. Por que, até então, nenhuma providência foi tomada contra as pessoas que o senhor próprio denunciou?
Daniel Ponte – Devido ao fato de meus inimigos serem os corruptos da polícia. Isso envolve políticos e quase toda a polícia... Não há solução...
Entrevista do Sábado - O senhor afirma que há o envolvimento de políticos e policiais no mundo do crime. É possível dar nome a esses envolvidos?
Daniel Ponte – Basta ler os jornais...
Entrevista do Sábado - O governador Sérgio Cabral Filho, do Rio de Janeiro, tem conhecimento do caso? Desde quando isso acontece no IML?
Daniel Ponte – Não tive contato com o governador, mas fui informado pelo subsecretário de Direitos Humanos que ele está ciente desde o inicio. Imagino que o caso do IML seja crônico.