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Brasil: se cobrir vira circo, se cercar vira hospício
 
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Continuação

 

Entrevista do Sábado - Por que a esquerda, que foi sempre muito combativa, está quieta diante de tantos erros?

Cristovam Buarque - A esquerda era combatente com uma proposta, como garantir a igualdade de renda. No caso da esquerda brasileira, defender o fechamento da nossa economia, o protecionismo comercial. Isso morreu. A esquerda defendia que todo mundo tinha direito ao trabalho, numa época em que para ser trabalhador não precisava de formação. As fábricas antigamente abriam às seis horas e diziam que tinham 200 vagas. Os primeiros que chegassem estavam empregados. Agora, tem que ser os primeiros que mostram diploma. A esquerda perdeu a capacidade transformadora, perdeu o vigor transformador por falta de uma proposta alternativa. Eu venho debatendo a idéia de que tem que abandonar os “velhos sonhos do Brasil novo”, e esse novo tem que sair da lógica econômica. A esquerda é prisioneira da economia, e na economia não tem muita diferença entre o que está aí e o que a gente pode fazer. Então, tem que se trazer um sonho alternativo, que é a mesma chance pra todos. Garantir que todos vão ter a mesma chance nesse país, dizendo que isso vai levar 20, 30 anos. E a mesma chance ela não vem da economia, ela vem de duas pernas: a educação igual pra todos e um desenvolvimento sustentável ecologicamente. A educação dá a mesma chance entre pobres, enquanto a ecologia dá a mesma chance entre gerações. Isso são dois vetores revolucionários, agora pra isso a esquerda tem que ser conservadora no resto.

Entrevista do Sábado - A esquerda se perdeu ainda mais com o governo Lula?

Cristovam Buarque - Perdeu-se porque ela antes tinha sonhos, perdeu os sonhos, independentemente do Lula. Agora, com Lula, ela se viciou, se acomodou. Fiz um discurso sobre uma frase que circula na internet entre os petistas: todos criticam, mas para o Brasil o Lula tá bom demais. Ele se acomodou como o Brasil, se acomodou quando achou que a Lei do Ventre Livre já era bastante, não precisava de Abolição, o desenvolvimento poderia ser concentrador, não precisaria distribuir, à democracia bastava o direito de simplesmente poder falar e de não de transformar a sociedade... Então, a esquerda além de perder a capacidade de sonhar, se acomodou diante do país, e aí o Lula é culpado. A CUT (Central Única dos Trabalhadores) se acomodou, o PT (Partido dos Trabalhadores) se acomodou, todos os partidos de esquerda se acomodaram, inclusive o meu, PDT. A UNE (União Nacional dos Estudantes) se acomodou. É de esquerda defender a privatização o que serve apenas ao corporativismo.

Entrevista do Sábado - Reestatizar a Companhia Vale do Rio Doce é conversa fiada?

Cristovam Buarque - Pra mim não tem nada de esquerda reestatizar a Vale, de jeito nenhum. Tem de esquerda exigir que a Vale pague os impostos e o governo usar bem os impostos. É de esquerda querer que a Vale beneficie o máximo aqui dentro, em vez de vender o produto primário. Ser de esquerda é ter três programas emergenciais: contra o desemprego e a pobreza, outro contra o desemprego e a violência e outro contra a corrupção e a impunidade. Qual é o slogan da esquerda hoje? Escola igual para todos. Para não ser demagogo você tem que dizer que isso vai demorar 15, 20 ou mais anos para chegar no Brasil inteiro.

Entrevista do Sábado - Os partidos políticos também não têm projeto político.

Cristovam Buarque - Esse meu discurso não vai se organizar por partidos-sigla. Ele vai ter que se organizar por partido-causa, que passe por pessoas de diversas siglas. Essa esquerda que eu falo tem gente no Democratas, no PT, no PSDB, em todos os partidos que fazem defender essa causa. As siglas hoje não têm nenhum significado ideológico. Existem causas de esquerda. O que eu defendo é um “partido” nos moldes do Partido Abolicionista, um partido que não era uma sigla, pois tinha gente dos Liberais, dos Conservadores, dos Republicanos.

Entrevista do Sábado - Não acaba sendo um partido de uma nota só?

Cristovam Buarque - Mas quantas notas eu falei aqui? Duas notas revolucionárias, escola igual pra todos e desenvolvimento sustentável. E abaixo, contas equilibradas, eficiência do setor público, choque de gestão, moralização do Estado, saúde que funcione, moradia e ainda citei três programas emergenciais. É um objetivo utópico com uma marca: escola igual pra todos.

Entrevista do Sábado - Como o Brasil está inserido na América Latina que tende mais para a esquerda, não para as causas esquerdistas?

Cristovam Buarque - Eu me preocupo muito, porque a inserção está sendo comercial... Parlamentar de um mercado não existe, mas agente da bolsa. Parlamentar tem que ser da “união-sul”. O comércio está indo bem, tem que ir mais rápido ainda, agora esse bloco ideológico me preocupa, porque está comprometido em quê? Auxílios: o Bolsa Família, o supermercado de pobres, na Venezuela, e aí não transforma embora sejam necessários para ações emergenciais. Depois, na manipulação da opinião pública. Grande parte do discurso anti-Bush de Chávez é para ter apoio interno. Eu não acho que Chávez vai querer fazer guerra porque é belicista, mas por interesse político. Pode querer um conflito na Guiana, na Colômbia. No Brasil é difícil, porque ali é uma área vazia, e o Brasil é grande demais. Esse bloco Chávez-Lula-Evo Morales-Corrêa (Rafael Corrêa, presidente do Equador) não é de esquerda. É um bloco diferente da direita. Tem um ranço direitista em algumas coisas, mas não é de esquerda, não tem causa, não tem projeto de longo prazo, não tem projeto transformador. O Chávez tem até coisas boas na educação, pontuais, específicas, não tem um projeto a longo prazo. No caso dele me preocupa a ruptura que ele faz da sociedade. Democraticamente temos que buscar a coesão transformadora. O Lula procura uma coesão conservadora. Tem um espaço para a coesão transformadora na revolução educacional.

Entrevista do Sábado - Com a falta de um projeto transformador, como o senhor aponta, o Brasil é um país de burros?

Cristovam Buarque - Somos um país de egoístas que somos burros. Não defendo mais a solidariedade, mas o egoísmo inteligente, que sabe se dividir um pouco. Egoísmo burro é aquele que diz: “Quero falar um idioma que ninguém mais fale no mundo”. Egoísmo bom é aquele que todo mundo fala. O Brasil é um país de um egoísmo embrutecido, para não usar a palavra burrice.

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