Entrevista do Sábado - Diante desta situação, o senhor acredita que o analfabetismo é uma ferramenta do continuísmo político?
Cristovam Buarque - Não. Eu não acho que seja por aí. Tem muita gente que acha. Seria uma visão muito conspirativa da História. Eu acho que há um desprezo mesmo. Não é deliberado manter o pobre analfabeto para dominá-lo. É simplesmente o desprezo à importância da alfabetização e da educação.
Entrevista do Sábado - Mas é um imediatismo político.
Cristovam Buarque - Não fazer é um imediatismo político. Imediatismo, porque faz o que dá voto. O Bolsa Família dá voto. A erradicação do analfabetismo não dá muito voto. Você quando recebe dinheiro, tem que receber todo mês, todo mês você lembra de quem lhe dá. Se você erradica o analfabetismo, só lembra no dia do diploma. Passado o diploma de alfabetizado, você já não tem mais essa gratidão. A gratidão permanente que eu vejo é a gratidão pelo lote, pela casa, esta é permanente. A outra é uma renda mensal.
Entrevista do Sábado - O controle escolar proposto no Bolsa Família funcionaria como uma ferramenta para erradicar o analfabetismo...
Cristovam Buarque - Tive diversos conflitos ao longo de um ano de ministério... quando eu disse no Jornal Nacional (TV Globo) de que não precisava do Fome Zero, bastava aumentar o valor do bolsa-
escola...quando eu disse que precisava de R$ 20 bilhões a mais na Educação... Mas um dos conflitos se deu quando vi que o Bolsa Escola foi transformado em Bolsa Família, e aí sim percebi o desastre por três coisas. Primeiro: tirar o nome escola e botar família é tirar a preocupação da mãe da educação e colocar nela o sentimento de pobre. Quando recebia a Bolsa-Escola ela pensava: “Eu recebo essa bolsa porque meu filho estuda”. Quando ela recebe a Bolsa Família ela diz: “Eu recebo essa bolsa porque eu sou pobre”. Segundo: tirar do MEC (Ministério da Educação) e colocar no Ministério da Assistência Social. Aí mostrou que era outro projeto. Fernando Henrique Cardoso (ex-presidente da República) quando levou a Bolsa-Escola do Distrito Federal para todo o Brasil, colocou no MEC. E terceiro: misturar a Bolsa-Escola com vale-alimentação, bolsa-gás... Aí misturou o educacional com o assistencial. O mais grave foi não ter investido em Educação, porque a escola ruim, mesmo com o Bolsa Escola, não resolve. O Bolsa Família não resolve de jeito nenhum.
Entrevista do Sábado - Em Nova York, por exemplo, busca-se na Educação o melhor desempenho, a produtividade, a competição. Aplicado no Brasil, seria uma das fórmulas para alterar a gravidade que permeia o setor educacional?
Cristovam Buarque - Só isso, não. No Brasil, o nível de formação e dedicação, por conta do baixo salário dos nossos professores, é tão baixo que, se você for dar uma premiação aos bons, você só vai dar a 2%, 3%. Ou você degrada a premiação dando a quase todo mundo, mesmo que não mereça, ou você dá a quem mereça e são poucos. E não adianta querer que os outros venham ganhar o prêmio, porque eles não tiveram formação, não se prepararam, já perderam a motivação e o salário deles é baixo. Tem que haver aumento salarial, aumento da exigência. Professor tem que ganhar muito bem e tem que ser a categoria mais exigida de todas. Sou favorável, sim, ao incentivo aos melhores.
Entrevista do Sábado - Porque as escolas públicas estão tão ruins?
Cristovam Buarque - Têm diversos níveis as explicações. Primeiro porque é para os pobres. No Brasil, tudo que é para o pobre é ruim e não é só educação, mas saúde, transporte público, água e esgoto. Segundo, os salários são baixos e as exigências são pequenas. O piloto, se não for preparado, é capaz de matar 200 pessoas. Por conta disso, a cada seis meses faz-se um exame para ver se ele está com saúde, para ver se ele bebe, se o coração está bom. Os professores matam a nação inteira e ninguém faz uma avaliação ao longo da sua vida profissional. E nem os sindicatos querem que se faça a avaliação. O sindicato de piloto aceita o exame de piloto. O sindicato de professor não aceita avaliação de professor. Para avaliar com resultados, tem que pagar bem, fazer concurso federal e tem que dar as condições de trabalho necessárias. O piloto é avaliado, mas o avião também. As escolas não são.
Entrevista do Sábado - O governo de Luiz Inácio Lula da Silva é avaliado por muitos como um bom governo, como pelos banqueiros. Onde o governo Lula está errando?
Cristovam Buarque - Se eu avalio o governo Lula com os outros governos da República brasileira, não digo que ele é um mau governo não. O Lula é um dos melhores presidentes que a gente já teve.
Entrevista do Sábado - Ele é um dos “menos ruins”?
Cristovam Buarque - Ele é um dos “menos ruins”. Agora todos são ruins sob o ponto de vista de um projeto nacional aglutinante socialmente, da
consolidação de um desenvolvimento que assegure as mesmas chances para todos os brasileiros. A grande diferença entre Chávez (Hugo Chávez, presidente da Venezuela) e Lula é que Lula aglutinou, o Chávez dividiu com um projeto para os pobres. O Lula aglutinou cedendo aos ricos e dando algumas esmolas as pobres. Quando eu comparo Lula com o que a gente esperava dele, com as expectativas que ele criou, então aí ele é um péssimo presidente. O simples fato de comparar o Lula com os de antes, já mostra o fracasso dele. Na África do Sul, ninguém pergunta se Mandela (Nelson Mandela, presidente) foi melhor ou pior com os governos de antes. O Mandela foi o marco na História. É antes e depois dele. O Lula, eu esperava que fosse antes e depois dele, mas não é, porque é o presidente do mesmo velho ciclo brasileiro. A diferença é na cultura, da gente perceber que o pobre pode ser presidente e incompetente.