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Apaixonado pela Educação, ex-reitor da UnB coloca o governo Lula no banco da escola política

Senador pelo PDT, Cristovam Buarque continua apostando na Educação como vacina contra a estagnação do Estado democrático

 

(*) Ucho Haddad e Gilmar Corrêa

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Doutor em Economia pela Sorbonne (tornou-se sinônimo de Universidade de Paris), o senador Cristovam Ricardo Cavalcanti Buarque, 63 anos, continua insistindo na tese de que a Educação é a ferramenta ideal para a transformação do Brasil. A Educação, segundo esse ex-reitor da Universidade de Brasília, ex-governador do Distrito Federal e ex-ministro da Educação poderia ser a plataforma do novo discurso das esquerdas. Para o senador pedetista, as siglas hoje não têm nenhum significado ideológico e a esquerda “perdeu os sonhos, se acomodou e se viciou”. “Existem causas de esquerda”. O que defendo é um “partido nos moldes do Partido Abolicionista”.

Nesta entrevista concedida na quarta-feira, dia 21/11, Cristovam Buarque falou pela primeira vez sobre o principal motivo que teria levado o presidente Lula da Silva a demiti-lo por telefone do Ministério da Educação, em janeiro de 2004. “Eu senti que o olho dele me fuzilou”. Mas o senador pelo PDT do Distrito Federal elogia Lula da Silva: “Ele é um dos melhores presidentes que a gente já teve”. E sobre o governo dele: “É o presidente do mesmo velho ciclo brasileiro”.

 

Entrevista do Sábado - O senhor continua ainda magoado com o presidente da República Lula da Silva pela demissão por telefone?

Cristovam Buarque - Eu nunca fiquei magoado, eu fiquei frustrado. É diferente. Mágoa a gente tem com a namorada, com a esposa. Com político a gente tem frustrações. Claro que eu fiquei frustrado porque eu queria ficar na história do Brasil como o ministro que erradicou o analfabetismo. E eu ia ficar. Eu não ia ficar como o ministro que revolucionou a educação, porque isso leva 15, 20 anos. Eu teria ficado como aquele que teria começado a fazer isto através dos projetos da escola ideal, que era a idéia de revolucionar a cidade inteira. Comecei em 29 cidades e em dois anos essas 29 cidades iriam ter todas as escolas em horário integral, seus professores escolhidos em concurso nacional, com salário nacional, tipo Banco do Brasil, Caixa Econômica e com prédios bem equipados. E deixei dinheiro para fazer a mesma coisa em 155 cidades. Se eu ficasse quatro anos, ia chegar em 600, 700 cidades pequenas. Então não era uma marca, mas no analfabetismo eu ia ficar como quem erradicou no Brasil.

Entrevista do Sábado - O senhor não se sente aliviado hoje, depois de tudo o que aconteceu, de não integrar um governo desse naipe?

Cristovam Buarque - Não só hoje...

Entrevista do Sábado - Quer dizer, o senhor ainda integra, porque é ainda da base do governo...

Cristovam Buarque - Eu não integro, o meu partido integra. Isso é uma coisa confusa... Mas veja bem, não só hoje eu sinto aliviado... Fui demitido por telefone lá em Portugal e logo depois um grupo de jornalistas, após uma visita ao reitor da Universidade de Lisboa, perguntou: “O que o senhor sente?” Eu disse: “Eu sinto um ‘frustalívio’, uma mistura de frustração com alívio”.

Entrevista do Sábado - O senhor continua sentindo frustração?

Cristovam Buarque - Ah, não tenha dúvida, mas continuo tendo um alívio a cada dia. Pouco tempo depois, começou uma degringolada muito grande e a mística começou a desaparecer em seguida. Eu costumo dizer que tenho duas dívidas com o presidente Lula: ter me escolhido ministro e ter me demitido do ministério. Eu era para ser demitido muitas vezes por conflito com José Dirceu (ex-ministro da Casa Civil), por ter dito coisas que não tinham sintonia com o governo, por ter sido muito independente. Reconheço que isso foi um erro. Talvez pelo fato de ter sido reitor e governador, eu me comportei muito independente. Teve muitos momentos que eu achava que devia ter sido demitido. A última frase que eu disse ao Lula, numa reunião que tive ainda no Brasil, isso por volta da uma e meia da tarde, foi: “Nós nos vemos em Nova Deli (Índia)... aliás, é um bom título para um livro. Tenho uma pista do que pode ter acontecido. Nesta última reunião que eu tive com ele (Lula) foi sobre cotas (de negros nas universidades). E ele me olhou e disse: “Esse negócio de cota não devia ser uma escola boa pra todo mundo?” Respondi: “Presidente, de fato é um arranjozinho. A saída é uma boa escola pública gratuita e de qualidade pra todos. Mas isso vai levar uns 20 anos se a gente quiser fazer o dever de casa. E nós não estamos fazendo o dever de casa na educação”. Eu senti que ele não gostou, senti que o olho dele me fuzilou. Então eu acho que foi por aí...

Entrevista do Sábado - Mas senhor acha que o governo lhe daria o apoio necessário para erradicar o analfabetismo?

Cristovam Buarque - Hoje eu acho que o governo não teria dado o apoio, porque na cabeça do presidente Lula a educação de base não é fundamental. O Lula é um político genial, e ele vê o voto. A educação de base não dá voto, porque o resultado leva 10, 15 anos. Por isso ele investe em universidade e na universidade o resultado é imediato. Quando você instala uma universidade numa cidade, ainda que todo mundo ali seja analfabeto, eles comemoram. Quando se põe uma escola fundamental, acham que é obrigação, que é algo necessário, mas não dá voto. Hoje estou convencido que se de fato tivesse continuado ministro, não teria conseguido fazer. Mas quando eu fui demitido, em janeiro de 2004, ainda achava que conseguiria erradicar o analfabetismo no Brasil e dar o ponta-pé inicial da revolução educacional brasileira.

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