A Câmara Distrital, uma espécie de legislativo municipal com poderes de Assembléia Legislativa, foi rápida em propor e criar a CPI da Gautama,
logo após a Polícia Federal ter deflagrado operação que culminou com a prisão de quase cinqüenta pessoas em todo o Brasil. Na lista de acusados de fraude contra o erário público estava o nome do ex-deputado distrital Pedro Passos (PMDB), afilhado político do ex-governador e ex-senador Joaquim Roriz (PMDB), que renunciou ao mandato parlamentar para não perder os direitos políticos. Todavia, a rapidez dos distritais parece empacar na conclusão do relatório, provocado principalmente por uma divisão interna. De um lado, o presidente da comissão, deputado Bispo Renato (batizado Renato Andrade dos Santos), e de outro o relator Rubens César Brunelli Júnior (Democratas), um velho aliado de Pedro Passos, principal acusado de operar o esquema de fraudes da Construtora Gautama.
Nesta entrevista concedida por telefone na tarde de sexta-feira, dia 21/12, o bispo da Igreja Episcopal Apocalipse, do Partido da República, reafirma que vai apresentar um relatório preliminar sobre as investigações em janeiro. Não confessa, mas seu desejo é encontrar uma prova capaz de indiciar Pedro Passos, um criador de cavalos de sucesso no Distrito Federal. “Na área técnica nós já chegamos aos principais envolvidos”, mas admite muita pressão política para proteger os implicados. Bispo Renato é um suplente de deputado distrital que assumiu a vaga de Aguinaldo de Jesus (sem partido), que ocupa o cargo de secretário de Esportes do GDF, responsável pelos preparativos da Copa do Mundo de 2014 em Brasília.
Entrevista do Sábado – Além da CPI da Gautama, a polícia e o Ministério Público também investigaram as supostas fraudes ao erário público. Como estão sendo aproveitadas as informações levantadas pelos outros órgãos?
Deputado Bispo Renato - A Controladoria Geral da União enviou para nós o relatório final, a Polícia Federal enviou todo o material da operação navalha, o STJ também contribuiu através da ministra Eliana Calmon, com o que tinha relacionado ao Distrito Federal. O Ministério Público do Distrito Federal também tem sido parceiro na investigação, ajudando na elucidação de alguns pontos do caso. E estamos trabalhando dentro de uma linha parecida com o Ministério Público daqui do Distrito Federal, tentando formar uma espécie de pirâmide. Primeiro ouvindo a área técnica da Secretaria de Agricultura, a partir daí as empreiteiras e para, no final, ouvirmos os políticos que de alguma forma foram citados no decorrer das investigações.
Entrevista do Sábado –Isso tem atrasado os depoimentos do ex-governador Joaquim Roriz e da ex-governadora Maria Abadia. Quando eles serão ouvidos?
Deputado Bispo Renato - No nosso cronograma os políticos serão os últimos a serem ouvidos, para que provas e fatos que não possam ser contra-argumentados, alcançando assim um denominador comum. Na área técnica já chegamos aos principais envolvidos.
Entrevista do Sábado –Há alguma articulação política para que eles não sejam ouvidos?
Deputado Bispo Renato - Eu creio que sim. E, politicamente falando, é até natural, porque cada grupo tenta proteger seus aliados. E o ex-governador Roriz tem dentro da Câmara uma base forte de deputados distritais. E até politicamente volto a insistir ser natural que eles queiram protegê-lo.
Entrevista do Sábado –A forma com que a Gautama fraudava obras públicas no Distrito Federal é a mesma verificada nos outros estados? O senhor trocou informações com a Polícia Federal para ter uma idéia de como isso acontecia, por exemplo, no Maranhão?
Deputado Bispo Renato - O ponto de partida foi a operação Navalha da Polícia Federal. Das ligações telefônicas entre o empreiteiro da Construtora Gautama, o Zuleido Veras, com políticos do Brasil inteiro. Mas nossa área de competência é o DF, e aqui no nosso caso específico o principal envolvido é o ex-deputado Pedro Passos.
Entrevista do Sábado –Qual foi o objetivo de realizar várias oitivas em sigilo? Teve algum efeito prático para as investigações da CPI?
Deputado Bispo Renato - Se abríssemos determinadas coisas acabaríamos espantando algumas pessoas que, fatalmente, chegaríamos nelas. E como não temos provas suficientes, nós estamos amealhando essas provas.