ucho.info - O senador Romero Jucá (líder do governo) defende que, depois da votação secreta, deve-se buscar uma negociação para se ter uma convivência harmônica no Plenário. É um pouco prematuro, mas já se discutiu o “day after”, o dia seguinte?
Alvaro Dias - Nós temos que produzir muito para compensar o período de
comprometimento da produção legislativa. Se nós esgotarmos esse assunto na próxima semana (quarta-feira), certamente voltará à normalidade. É claro que Medidas Provisórias obrigam a oposição a obstruir pauta, porque algumas são verdadeiras excrescências. A oposição não pode simplesmente compactuar com determinadas atitudes do governo em relação à utilização desse instrumento.
ucho.info - Partindo do pressuposto de que é certa a cassação do senador Calheiros, o Senado entra numa nova discussão, que é a eleição para a presidência da Casa. O senhor acha que depois dessa experiência é possível haver um consenso entre os senadores em torno de um candidato?
Alvaro Dias - Depende do nome que se proponha. Tem duas opções: um
nome para manter a tradição do próprio PMDB, para que consiga o respeito da oposição, ou pode ocorrer uma candidatura oposicionista. A tendência do Senado sempre foi a de preservar a tradição, onde o partido com a bancada maior indica o candidato e a Plenária acolhe.
ucho.info - O momento seria de tradição ou de oposição?
Alvaro Dias - Depende do nome.
ucho.info - Jarbas Vasconcelos?
Alvaro Dias - Aí seria um nome da oposição (risos), embora preservasse a tradição, porque é do partido maior, mas seria um candidato da oposição.
ucho.info - Quem seria o candidato da tradição?
Alvaro Dias - Sarney (José, senador pelo Amapá), que teria o respeito do PMDB e da Casa, em boa dose.
ucho.info - Num futuro próximo haverá um novo embate entre oposição e o governo, que é a votação da CPMF. Os tucanos já definiram que são contra, na Câmara. E no Senado?
Alvaro Dias - Aqui nós estamos defendendo essa tese desde o início dessa discussão. A maioria defende o voto contra a prorrogação. Eu tenho muita esperança de que nós vamos derrotar o governo em relação a CPMF.
ucho.info - Mas o governo diz que será uma catástrofe...
Alvaro Dias - Catástrofe é a CPMF para a população, porque é um
imposto perverso. O governo alega que não tem recursos. Tem sim. Vai ter um excesso de receita. Vai ficar neste ano com o dobro do que arrecada na CPMF. O excesso de arrecadação compensa a ausência da CPMF. É o grande momento para acabar, porque senão nós não acabaremos nunca. É um imposto provisório, está se tornando permanente. Vai também ajudar o governo a discutir a reforma tributária. Se o governo consegue tudo o que quer, ele não vai discutir a reforma tributária, porque não interessa a ele.
ucho.info - Informa-se que a proposta da reforma tributária será encaminhada pelo governo até o final de setembro. O senhor acha que essa informação...
Alvaro Dias - É uma forma de convencer a oposição a votar favorável à CPMF, porque teria como instrumento de barganha a reforma tributária. Mas, o que se deseja com a reforma tributária, é mais significativo do que procura o governo.
ucho.info - Por exemplo?
Alvaro Dias - A limitação dos impostos. Nós temos um trabalho feito na
Câmara pelo deputado Luís Carlos Hauly (PSDB-PR) e creio que seja uma
tese defendida por todo o partido, que é a redução do número de
alíquotas, desonerando o setor produtivo e adotando um modelo mais parecido com o modelo europeu. É uma questão técnica de grande alcance, mas que tem um trabalho feito dentro do partido por alguns dos nossos parlamentares. O que vem aí eu não sei o que é, mas pelos antecedentes o governo tem receio de perder recursos a curto prazo. Revela aí um imediatismo. Uma reforma tributária que pode explicar a perda de receita de imediato, mas a médio e longo prazos significará, sem dúvida nenhuma, um incremento da arrecadação.