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A coerência ácida de um crítico do Estado

Filósofo e socialista, professor de Ética avalia o governo Lula, prevendo o alcance do projeto político que o núcleo duro do Palácio do Planalto pretende implantar.

Ucho Haddad

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Professor titular de Filosofia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professor de Ética, também pela Unicamp, Roberto Romano da Silva é a essência do mais cristalino pensamento político da nação. Paranaense de Jaguapitã, na região de Londrina, Roberto Romano da Silva é um socialista que, desde a década de 60, acompanha as mutações dos movimentos de esquerda do país, sem nenhuma militância política até então.

Doutor em Filosofia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris e membro do Instituto de Filosofia e de Ciências Humanas da Unicamp, Roberto Romano destilou parte de seu pensamento ético e político nos livros "Brasil, Igreja contra Estado", de 1979, "Copo e Cristal, Marx Romântico", de 1985, e "Conservadorismo Romântico", de 1997. Dono de uma retrospectiva acadêmica invejável, que o coloca no vanguardismo da intelectualidade mundial, Roberto Romano, um crítico ácido do Estado, como se autodefine, faz, na Entrevista do Sábado, um balanço ético e ideológico da atual situação política brasileira, o que obrigatoriamente confronta o passado e o presente do presidente Lula e seus mais diretos colaboradores.

Entrevista do Sábado - Ao longo dos anos, o Brasil foi conquistando diuturnamente a fama de ser o país do jeitinho. Da necessidade de se dar um jeitinho na vida aos jeitinhos que a política supostamente exige, a ética foi caindo em desuso. Mesmo tendo recobrado as forças recentemente, a ética ainda gera dúvidas sobre os seus efeitos, especialmente em um país onde ainda predomina a impunidade. Como o senhor definiria a relação entre a ética e a política nacional?

Roberto Romano da Silva – A primeira parte da pergunta é perfeita e auto-explicativa, pois mostra o modus operandi das classes políticas brasileiras. É muito importante lembrar a definição filosófica da ética. A ética é o conjunto de atitudes e valores que se torna habitual, de tal modo que as pessoas quando agem imaginam que aquela ação é natural. A ética pode ter um sentido extremamente bom, como pode ser péssima, sendo ética do mesmo modo. No caso da ética política brasileira (a política do favor e do é dando que se recebe), da ascensão social através do Estado – o uso do Estado para se ascender social e economicamente – faz com que boa parte dos nossos políticos, da esquerda à direita, julgue ser natural o que faz, tomando um choque muito grande quando alguém a acusa de falta de ética e respeito à moral. Isso explica a atitude de alguns políticos que, no mesmo instante em que defendem a ética no discurso, agem de maneira antiética. O elemento central da ética, no sentido de doutrina do bem comum, é justamente a questão da fé pública. Quem não tem fé pública, não tem bons costumes. E quando alguém se julga no direito de prometer algo e não cumprir, configura-se a corrosão da fé pública, o que leva, no caso brasileiro, às suas permanentes destruições. Depois do governo Juscelino Kubitschek, existiram promessas de modificação da vida pública brasileira: Jânio Quadros com o seu discurso da moralização, João Goulart com a promessa do desenvolvimento econômico e a chamada reforma de base, a ditadura militar prometeu um Brasil como grande potência, e no final do governo militar houve a grande promessa de Tancredo Neves. Em todas essas situações houve multidões imensas seguindo essas pessoas, com espetáculos muitas vezes até patéticos, como foi o caso de Tancredo Neves em sua longa agonia. Na seqüência veio Fernando Collor de Mello com a promessa de uma moralização do Estado, ao estilo Jânio Quadros, mas confiscou o dinheiro depositado nas cadernetas de poupança. Fernando Henrique Cardoso retoma a receita desenvolvimentista de Vargas, mas não cumpre o prometido e pratica uma política com um golpe tremendo à fé pública, que foi a questão do dólar ao par. Agora vem o governo do PT, que sempre primou pela propaganda da ética e pelo respeito à transparência, e comete um verdadeiro estelionato eleitoral. Estamos diante de um governo que, quando se tratava dos demais governos, fazia uma verdadeira banda de música. O interessante é que a UDN era um partido considerado moralista, mas em outra época da história política brasileira não era raro encontrar nos meios de esquerda a designação do PT como a UDN da esquerda, ou seja, aquela banda de música que era a dona da virtude. Agora estamos assistindo um golpe atrás do outro em cima da fé pública. O primeiro golpe, do ponto de vista do próprio programa da esquerda, é a questão do superávit primário, que como política macroeconômica pode ser certa ou não. O problema maior nesse caso é que o PT sempre conseguiu votos fazendo o seu proselitismo nas causas sociais. Os movimentos sociais seriam os grandes clientes do governo do PT, mas acabaram sendo traídos. O mesmo PT, ao chegar ao poder, rompeu com a ala esquerda que há muito o incomodava, expulsando alguns parlamentares do partido. Agora está sistematicamente cercando o exercício da liberdade pública. Conseguiu iniciar o controle do Judiciário, ensaia um controle da imprensa em geral, como se já não houvesse um bom controle, tem deixado o setor das universidades à mingua, tendo contra si apenas alguns setores da Igreja Católica e da intelectualidade brasileira. Tal situação mostra que de fato a ética que nutria a prática dos líderes do PT é exatamente a ética tradicional da política brasileira. Como professor de Ética sempre desconfiei do uso dessa palavra, tendo escrito artigos onde alertava para o perigo de se inflacionar a ética. E como toda inflação, ela acaba gerando uma desvalorização. Vejo como algo muito complicado o fato de alguém procurar impor aos jornalistas uma ética, quando no contraponto existem casos como o de Delúbio Soares e Waldomiro Diniz. Isso é uma corrosão da fé pública e da ética, talvez mais eficaz do que tudo que foi feito na história anterior da República brasileira.

E.S. – Voltando ao anunciado controle da imprensa, o Estado na verdade já exerce um controle exacerbado da mídia brasileira, na condição de ser o maior anunciante do país. Nenhum veículo de comunicação irá se arvorar na crítica ferrenha ao governo, como forma de manter polpudos contratos publicitários. Qual a avaliação que o senhor faz dessa situação?

Roberto Romano – Como intelectual e universitário, além de crítico de governos anteriores, participei de vários simpósios e seminários com os líderes do PT. Conheço-os muito bem, inclusive o ministro José Dirceu, sendo que inúmeras vezes ouvi críticas ao fato do governo utilizar recursos econômicos para intimidar a imprensa. Esperava-se não uma bondade do governo do PT, mas uma atitude mais aberta em relação à transparência e ao respeito à liberdade de imprensa. Isso é o que chamo de corrosão da fé pública. A palavra dessas pessoas não vale. Não se pode acreditar em pessoas que desdizem o que disseram.

E.S. - Durante mais de duas décadas, o Partido dos Trabalhadores fez de seu discurso oposicionista uma bandeira pela restauração da ética na política, se é que em algum momento da história do país ela tenha existido. Quando se fala em política ou políticos, a sociedade, em uma atitude automática, relaciona-os com ilegalidades, corrupção e falta de ética. A sociedade age corretamente ao pensar assim ou existe alguma possibilidade de reversão desse conceito?

Roberto Romano – Estamos diante de um problema sério, porque temos uma simbiose entre setores dirigentes da sociedade, sobretudo as oligarquias brasileiras, que chegaram ao Estado muito cedo na história do Brasil. Esse conúbio entre as direções sociais e a direção política faz com que boa parte das classes média e pobre desconfie dos políticos, sobretudo porque vários deles, pertencentes a setores dominantes e oligarquias, utilizaram o discurso demagógico e populista, a exemplo do que fez Getúlio Vargas. Pai dos pobres, Vargas era um conhecido proprietário de fazendas, situação que também ponteou as biografias de Leonel Brizola e João Goulart. E ainda existe a continuidade do mando, agora através de outras mãos. A população, ao invés de acreditar na democracia, acaba acreditando no salvador. É uma linguagem mística, irracional e autoritária. O conceito de se produzir Messias, no plano do Estado e da sociedade, é um terreno muito fértil que leva o povo a desconfiar da democracia. A sociedade foi ensinada a não confiar na democracia, porque os líderes prometem o que não podem prometer, além de utilizarem irracionalmente a propaganda. O que o senhor Duda Mendonça faz, atualmente, nada mais é do que um refinamento do que aconteceu com Getúlio Vargas. O Estado brasileiro adquire legitimidade muito temporária, o que mostra quanto a nossa democracia é frágil. A legitimidade no Brasil é fabricada com técnica e engodo. Não se cria uma classe média ou pobre onde os valores democráticos são arraigados. O que se vê hoje é algo muito pior do que a teoria dos Cinqüenta Anos em Cinco, de Juscelino Kubitschek. O plano de metas de Juscelino, mesmo problemático, acabou sendo seguido. Era um projeto utópico e, como já era esperado, não aconteceu o que foi prometido. Foi o que aconteceu com a promessa de criação de dez milhões de empregos.

 

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