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COLUNISTAS

Ipojuca Pontes
José Carlos Graça Wagner

 

A situação no Brasil e a guerra civil espanhola

(*) José Carlos Graça Wagner

 

Impressionou-me vivamente a descrição feita nos volumes da Vida do Fundador do Opus Dei, agora São Josemaria Escrivá, sobre a Guerra Civil Espanhola, que, embora não haja de parte do autor da biografia, nenhuma preocupação de definir posição política ou ideológica de qualquer ordem, que está totalmente fora das preocupações do fundador e da Obra por ele levada adiante, como se vê ao longo de toda a biografia, já que, para ele, era, como foi sempre, a sua máxima, a de amar aos outros como Cristo os amou e ama e pelos quais, sem exceção, deu a vida.

Mas, todavia, se impunha ao autor da biografia, para descrever o contexto histórico em que viveu o então Padre Josemaria, quando a perseguição religiosa assomou ares de tragédia, com sete mil padres religiosos e freiras assassinadas e cerca de 17.000 civis fuzilados pelas chamadas milícias, que o governo da 2ª República não conseguia controlar por absoluta falta de autoridade e de vontade, pois participava da mistura ideológica que prevaleceu nos anos trinta, especialmente de 36 a 39, naquele país, sem saber para que lado se virar, pois não possuía nenhuma unidade interna.

Esta falta de unidade também ocorria com os que agiam por conta própria, ao arrepio do governo: milicianos, anarquistas e socialistas de diversas tendências, que faziam, entre si, pequenas “guerras civis”, para tentar a conquista do poder total, com exclusão dos demais “companheiros”.

Há semelhanças e diferenças, entre a situação do Brasil de hoje e da Espanha dos anos trinta, que serão objeto desta análise. É verdade que a situação da Europa, especialmente, nos anos trinta, com a crise iniciada já nos anos 20 e a depressão de 29, não se resumiam na crise espanhola, mas atingia todo o continente europeu, com o fascismo na Itália, o nazismo na Alemanha, e o sovietismo-marxista na URSS e o Estado Novo no Brasil, numa imitação, especialmente, do fascismo italiano, atenuado, à maneira brasileira. A crise se estendia à Ásia e ao Oriente Médio.

Antes, porém, de prosseguir na análise, reporto-me a uma pergunta que foi feita ao Padre Josemaria, quando veio ao Brasil, em 1974. Referia-se, de forma indireta, à tendência de considerar a religião como resumida no amor ao próximo, através de obras sociais, no campo das atividades humanas, postergando o valor das coisas sobrenaturais. Enfim, passar por cima do primeiro mandamento, para centrar-se no segundo, apenas como obras terrenas.

A resposta foi clara: “Meu filho, tratar de fazer isso que chamam de obras sociais e obras de justiça..., às vezes não é justiça, porque pregam o ódio, o ódio nunca pode ser uma coisa justa.” Mais adiante, depois de referir-se ao valor da oração, do sacrifício, da mortificação, da vida interior e de negar-se, como ensinou Cristo, que quem quiser segui-lo, tome a sua cruz, e se negue a si mesmo, acrescenta que, fugir desses alicerces, inclusive da dor, “dizendo que isso é libertação”, acrescentou: “É um desastre: por isso tudo se afunda. Por esses apostolados” falsos, que ao invés de levarem à fraternidade, ao amor, à paz na sociedade, organizam a luta de classes estéril, brutal; e os homens em vez de serem irmãos, são como cães e gatos. Como ovelhas e lobos. "Todos são lobos e, às vezes, todos são ovelhas” E finaliza: “É como construir um edifício muito vistoso, sem alicerce: com o primeiro tremorzinho, pluft!, ao chão”.

Enfim, é de se concluir, como agora faço, que o cristão está no meio do mundo para levar o mundo e as pessoas a Deus, segundo as circunstâncias de cada um, de seu trabalho e de sua atuação social de leigo, de sua família, e não para construir um “paraíso” na terra, que, dentro dessa visão, sempre será “perdido”, por mais que façam os que querem imaginar que tudo está em impor um “social” de cima para baixo, a partir da conquista do poder terreno. Fosse isso, e Jesus teria aceito a oferta do que lhe fez o Maligno, de cima da mais alta montanha, de onde se divisava todos os reinos da Terra! Tudo isso será teu, se me adorares! Muitos parecem aceitar a oferta...

Agora, a análise prometida, apenas para dar início ao exame da viabilidade do Brasil, tal como o país chegou nos dias de hoje.

O governo está profundamente comprometido em sua autoridade, tal como os governos republicanos espanhóis. Nada pode fazer contra os que os levaram ao poder, até porque continua a apoiá-los por não ter outra saída nem, provavelmente, desejar outra saída. Há uma luta interna pelo poder, com tendências diversas, que sabem que precisam de mais poder, senão de todo o poder, porque não confiam nos demais componentes da chamada “base”. O próprio MST, definido como “braço revolucionário”, na reunião do Foro de São Paulo de 97, em Porto Alegre, tem dissidências que, com outras denominações, buscam despontar como o de maior vigor.

Os movimentos sindicais, com sindicatos únicos e sustentados pelo imposto sindical obrigatório, disputam agora também a “participação” na reforma agrária, com a CUT rural e os assentamentos da Força Sindical, que, ao invés de dirigentes sindicais, melhor se chamariam de “empresários sindicais”, numa versão de um “capitalismo” de nova cara, mas também custeado pelos trabalhadores, que não tem outro remédio senão, indiretamente, suportarem as “festas” de 1 o . de Maio, com recepções de elevado custo para os seus “companheiros” de classe A.

A Constituição de 88 continua a “não pegar”, em grande parte do extenso número de suas normas, nem o Judiciário assegura, de modo concreto, os direitos do cidadão e do contribuinte. Os juros, dos maiores do mundo, que pune a produção e o emprego, e dá imensos juros aos bancos, sem que tenham que trabalhar e sem riscos, tendo em vista a dívida interna e externa, bem como a carga tributária espoliadora, e a enorme diferença entre as aposentadorias do setor privado e do setor público, afora certas atividades que estão além e acima do serviço público propriamente dito, não oferecem um panorama alentador.

A segurança pública incontrolável, com as “milícias” de criminosos agindo como querem, ainda que haja esforços isolados, aqui ou ali, para tentar soluções efetivas. O clima, lá como cá, é de desesperança, de temor do desconhecido, sem que se veja, com clareza, um rumo para o futuro.

Na Espanha, houve uma motivação de ódio religioso, acirrado pelo marxismo que então se espalhou pelo mundo, mas que acabou por gerar, um renascimento também religioso, de que o biografado, acima referido, foi um dos protagonistas, sem envolvimento na catástrofe da época, mas permanecendo fiel à sua vocação. No Brasil, Stédile, propondo aos sem-terra a “santidade”, se seguirem o “evangelho” do MST, no seu livro “A questão Agrária”, com escolas de marxismo nos assentamentos e também propondo a “equação” dos mil sem terra versus um fazendeiro, para esmagá-los, segue os princípios do frei Beto, assessor especial do presidente Lula, no livro “Paraíso Perdido”, de "marxistizar" a Igreja Católica e de politizá-la, afastando-a de suas finalidades precípuas, pois não cabe a esta, seja por qual órgão ou personalidade for, criticar os poderes da República ou as medidas pontuais que estes tomam ou o comportamento deste ou daquele político, ainda que o mereçam, mas acreditar que o “Caminho, a Verdade e a Vida”, são só um ensinamento, e só este nos levará a um País que se possa chamar de Terra da Santa Cruz, como foi chamado logo depois da descoberta. Cabe, apenas, quando se estabelece princípios fundamentais da sociedade, dentro da expressa doutrina da Igreja.

O assunto não para aqui. Continuará, no exame dos acontecimentos do dia a dia. Mas desde logo se pode indicar, no campo econômico mundial sinais de dificuldades, bem como na questão do Iraque e outros paises da região, num quadro sem a mesma gravidade mas que causa preocupações, bem como, como numa incerteza sobre a definição das eleições em vários países, inclusive da América Latina.

(*) José Carlos Graça Wagner é advogado, coordenador de Estudos Internacionais do Instituto Tancredo Neves, ex-Conselheiro da Universidade de São Paulo, conselheiro de diversas Fundações de Estudos, da Associação Comercial de São Paulo, da Freedom Economic and Social Development, em Miami e de diversas entidades de formação de carentes.

 
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