.
Brasil: se cobrir vira circo, se cercar vira hospício

UH Comunicação Ilimitada

 
   
   
página uh!
 
COLUNISTAS
 
Antonio Carlos Ferreira
Antonio Carlos Rayol
Claudio Tognolli
Ipojuca Pontes
José Nêumanne Pinto
Marcelo Kahns
Maria Lucia Victor Barbosa
Roberto Romano da Silva
Sandro Villar

ONDE LER O UCHO

 

FALE COM O UCHO
Clique e envie uma mensagem para o Ucho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A falência do marxismo

(*) Roberto Romano da Silva

 

Não gosto de analisar livros recentes. Prefiro esperar e ver como reagem no rarefeito ar acadêmico. Tenho comigo um belo texto de 1991. Eu o acompanhei desde bem antes. Seu autor estudou na pós-graduação da Unicamp. Aluno raro porque unia a gentileza ao cuidado acadêmico com as regras, as fontes de trabalho, etc. Estive como examinador na sua qualificação quando a pesquisa amadureceu e se transformou em doutoramento. Naqueles dias o trauma do enterro inglório da URSS era recente. Muitas pessoas que hoje se proclamam livres do marxismo e da esquerda recitavam o rosário da famosa DIAMAT (Dialética Materialista). Com muita coragem o jovem autor apresentou uma rigorosa análise do ideário marxista, tendo em conta o teórico Lucio Colleti. O nome do jovem, originário de Santa Catarina, é Orlando Tambosi.

O livro traça, antes de tudo, um panorama das doutrinas marxistas na Itália, em suas raízes mais fortes, como é o caso de Croce. Depois, discute os escritos fragmentários de Gramsci que permitia, ao usar noções vagas sobre a sociedade civil e o papel dos intelectuais orgânicos, atenuar a grosseria do marxismo oficial, cujos jogos entre “infra” e “super” estrutura permitiam parolar sobre tudo e de nada dar conta no mundo efetivo. Perto de Roger Garaudy (aquele mesmo que afirmava, piorando o materialismo do século 18, que o cérebro secreta o pensamento como o fígado a bilis) e de Jean Kanapa (aquele outro que delatou em Sartre tendências filo-imperialistas norte-americanas, porque o autor da Crítica da Razão Dialética ousara recusar o estupro da Tchecoslováquia) Gramsci era um portento especulativo. Mas o colosso tinha pés de barro.

As suas fraquezas foram apontadas por Lucio Colletti. Como sempre, em se tratando de seitas, o crítico não foi ouvido. Ocorre na Itália e na Europa o debate sobre socialismo e democracia. Gramsci coqueteou com Hegel, via Croce, o que fazia do seu ideário uma receita de adesão ao “necessário encadeamento histórico”. O futuro estava garantido (como denunciou Regis Debray) o que fez do marxismo uma receita de aceitação do presente, desde que dirigido pelos gloriosos líderes do proletariado. Parêntesis: hegelianismo e aceitação do fato coincidem, o que leva aos realismos indigentes dos militantes, sempre dispostos a quebrar os ovos alheios quando se tratava de fritar o omelete da “boa história”. Não por acaso Nietzsche caçoa dessa crença : “olhem os joelhos dos hegelianos, gastos de tanto serem dobrados diante da necessidade histórica!”.

A crítica de Galvano Della Volpe, virulentamente anti-hegeliano, suscita o debate sobre os elos entre Hegel e Marx, com direito à uma visita ao museu do materialismo romântico tardio, cujo ícone era Feuerbach. O exame da contradição dialética atingiu, era inevitável, a cabeça dos teóricos italianos e europeus. Sofísticos ao máximo, escapando simuladamente das denúncias kantianas sobre os paralogismos da razão, Hegel e discípulos “dialetizam” tudo, tudo engolem com sua lógica absoluta, tudo explicam. Mas tudo fica inexplicado porque a dialética foge da epistemologia. Ela opera sem limites ou regras. É delírio racional tão idiotizante quando os devaneios do metafísico.

É disso que se trata: o marxismo, “herdeiro” da bela dialética não passa de metafísica selvagem, pão para toda boca pois explica a natureza e a cultura, com ajuda de meros truques como a passagem da quantidade para a qualidade e quejandos. Como a feitiçaria não escapa do mundo, em especial do político, a tal escolástica não explicou nem moveu o Estado italiano, um dos mais complexos da história moderna (quem leu Maquiavel, sabe).

Orlando Tambosi segue Lucio Colletti na desmistificação a raiva da ciência (“burguesa”) presente no PC. As determinações kantianas ajudaram a denunciar a enfermidade pan-lógica e metafísica. E nas suas últimas páginas, ele extrai as lições de Kant, ainda na linha de Colletti. Mas o mesmo Colletti extrai de Max Weber um ensino até hoje ignorado pelos militantes e acadêmicos da chamada esquerda : “a tensão entre a esfera da ciência e a dos valores da salvação religiosa é incurável”. Os marxistas falavam em “ciência” quando faziam fervorinhos religiosos, dobravam a espinha para a raison d´État soviética. Diziam “natureza” e “realidade”, quando suas categorias eram metafísicas. No campo hegeliano original tais noções eram coerentes, visto o “idealismo objetivo” de Hegel fundamentar-se no Espirito que tem sua Epifania no Estado. Nos escritos marxistas, eram apenas e tão somente lambões especulativos, a folha de uva que escondia a nudez do infalível Partido. Dessa experiência emburrecedora, quem pensa não tem saudade. Nome do livro? O declínio do marxismo e a herança hegeliana (Editora da Universidade Federal de Santa Catarina,1999). Título muito respeitoso com um defunto que não merece velas de libra. Em italiano, o nome é claro e distinto: Perché il marxismo ha fallito, porque o marxismo faliu... (Milano, Mondadori, 2001). Leitura obrigatória para quem deseja pensar o passado de uma ilusão.

 

(*) Roberto Romano da Silva é Professor titular de Filosofia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), professor de Ética, também pela Unicamp. Doutor em Filosofia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris e membro do Instituto de Filosofia e de Ciências Humanas da Unicamp, é autor dos livros "Brasil, Igreja contra Estado", de 1979, "Copo e Cristal, Marx Romântico", de 1985, e "Conservadorismo Romântico", de 1997.

Os artigos do Professor Roberto Romano da Silva também são publicados semanalmente no Correio Popular, de Campinas. www.cpopular.com.br/colunistas

 

 

.
Clique na lupa e saiba tudo sobre alguns escândalos que abalaram as estruturas políticas do País.
Aqui, no Túnel do Tempo, você recorda o que de mais interessante ocorreu na política, no ano anterior.
Clique e confira as novidades e o que há de melhor na literatura, aqui na Prateleira Eletrônica.
Aqui você confere as últimas Dicas do Ucho, que traz sempre uma novidade sobre os mais variados segmentos.
Saiba quem são os parceiros do ucho.info, uma das colunas políticas mais lidas do País.
Anunciar no ucho.info é entrar em contato com milhares de leitores qualificados e formadores de opinião. Saiba mais.
© Copyright 2004 - 2005 - www.ucho.info - Todos os direitos reservados