Não
gosto de analisar livros recentes. Prefiro esperar e ver como
reagem no rarefeito ar acadêmico. Tenho comigo um belo texto
de 1991. Eu o acompanhei desde bem antes. Seu autor estudou na
pós-graduação da Unicamp. Aluno raro porque
unia a gentileza ao cuidado acadêmico com as regras, as
fontes de trabalho, etc. Estive como examinador na sua qualificação
quando a pesquisa amadureceu e se transformou em doutoramento.
Naqueles dias o trauma do enterro inglório da URSS era
recente. Muitas pessoas que hoje se proclamam livres do marxismo
e da esquerda recitavam o rosário da famosa DIAMAT (Dialética
Materialista). Com muita coragem o jovem autor apresentou uma
rigorosa análise do ideário marxista, tendo em conta
o teórico Lucio Colleti. O nome do jovem, originário
de Santa Catarina, é Orlando Tambosi.
O livro traça, antes
de tudo, um panorama das doutrinas marxistas na Itália,
em suas raízes mais fortes, como é o caso de Croce.
Depois, discute os escritos fragmentários de Gramsci que
permitia, ao usar noções vagas sobre a sociedade
civil e o papel dos intelectuais orgânicos, atenuar a grosseria
do marxismo oficial, cujos jogos entre “infra” e “super”
estrutura permitiam parolar sobre tudo e de nada dar conta no
mundo efetivo. Perto de Roger Garaudy (aquele mesmo que afirmava,
piorando o materialismo do século 18, que o cérebro
secreta o pensamento como o fígado a bilis) e de Jean Kanapa
(aquele outro que delatou em Sartre tendências filo-imperialistas
norte-americanas, porque o autor da Crítica da Razão
Dialética ousara recusar o estupro da Tchecoslováquia)
Gramsci era um portento especulativo. Mas o colosso tinha pés
de barro.
As suas fraquezas foram
apontadas por Lucio Colletti. Como sempre, em se tratando de seitas,
o crítico não foi ouvido. Ocorre na Itália
e na Europa o debate sobre socialismo e democracia. Gramsci coqueteou
com Hegel, via Croce, o que fazia do seu ideário uma receita
de adesão ao “necessário encadeamento histórico”.
O futuro estava garantido (como denunciou Regis Debray) o que
fez do marxismo uma receita de aceitação do presente,
desde que dirigido pelos gloriosos líderes do proletariado.
Parêntesis: hegelianismo e aceitação do fato
coincidem, o que leva aos realismos indigentes dos militantes,
sempre dispostos a quebrar os ovos alheios quando se tratava de
fritar o omelete da “boa história”. Não
por acaso Nietzsche caçoa dessa crença : “olhem
os joelhos dos hegelianos, gastos de tanto serem dobrados diante
da necessidade histórica!”.
A crítica de Galvano
Della Volpe, virulentamente anti-hegeliano, suscita o debate sobre
os elos entre Hegel e Marx, com direito à uma visita ao
museu do materialismo romântico tardio, cujo ícone
era Feuerbach. O exame da contradição dialética
atingiu, era inevitável, a cabeça dos teóricos
italianos e europeus. Sofísticos ao máximo, escapando
simuladamente das denúncias kantianas sobre os paralogismos
da razão, Hegel e discípulos “dialetizam”
tudo, tudo engolem com sua lógica absoluta, tudo explicam.
Mas tudo fica inexplicado porque a dialética foge da epistemologia.
Ela opera sem limites ou regras. É delírio racional
tão idiotizante quando os devaneios do metafísico.
É disso que se trata:
o marxismo, “herdeiro” da bela dialética não
passa de metafísica selvagem, pão para toda boca
pois explica a natureza e a cultura, com ajuda de meros truques
como a passagem da quantidade para a qualidade e quejandos. Como
a feitiçaria não escapa do mundo, em especial do
político, a tal escolástica não explicou
nem moveu o Estado italiano, um dos mais complexos da história
moderna (quem leu Maquiavel, sabe).
Orlando Tambosi segue Lucio
Colletti na desmistificação a raiva da ciência
(“burguesa”) presente no PC. As determinações
kantianas ajudaram a denunciar a enfermidade pan-lógica
e metafísica. E nas suas últimas páginas,
ele extrai as lições de Kant, ainda na linha de
Colletti. Mas o mesmo Colletti extrai de Max Weber um ensino até
hoje ignorado pelos militantes e acadêmicos da chamada esquerda
: “a tensão entre a esfera da ciência e a dos
valores da salvação religiosa é incurável”.
Os marxistas falavam em “ciência” quando faziam
fervorinhos religiosos, dobravam a espinha para a raison d´État
soviética. Diziam “natureza” e “realidade”,
quando suas categorias eram metafísicas. No campo hegeliano
original tais noções eram coerentes, visto o “idealismo
objetivo” de Hegel fundamentar-se no Espirito que tem sua
Epifania no Estado. Nos escritos marxistas, eram apenas e tão
somente lambões especulativos, a folha de uva que escondia
a nudez do infalível Partido. Dessa experiência emburrecedora,
quem pensa não tem saudade. Nome do livro? O declínio
do marxismo e a herança hegeliana (Editora da Universidade
Federal de Santa Catarina,1999). Título muito respeitoso
com um defunto que não merece velas de libra. Em italiano,
o nome é claro e distinto: Perché il marxismo ha
fallito, porque o marxismo faliu... (Milano, Mondadori, 2001).
Leitura obrigatória para quem deseja pensar o passado de
uma ilusão.
(*)
Roberto Romano da Silva é Professor titular
de Filosofia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), professor
de Ética, também pela Unicamp. Doutor em Filosofia
pela École des Hautes Études en Sciences Sociales
de Paris e membro do Instituto de Filosofia e de Ciências
Humanas da Unicamp, é autor dos livros "Brasil, Igreja
contra Estado", de 1979, "Copo e Cristal, Marx Romântico",
de 1985, e "Conservadorismo Romântico", de 1997.
Os
artigos do Professor Roberto Romano da Silva também são
publicados semanalmente no Correio Popular, de Campinas.
www.cpopular.com.br/colunistas
.
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