| Dó, ré, mi
Por R$ 322 mil, a guitarra que o roqueiro Lenny Kravitz doou ao presidente Lula foi arrematada em leilão realizado pela Ong Apoio Fome Zero, na cidade de Uberaba, Minas Gerais. O dinheiro pago pelo empresário Pedro Grendene, da indústria de calçados que leva o nome da família, será empregado na construção de pouco mais de duzentas cisternas em cidades do semi-árido baiano. É preciso lembrar que a guitarra, como um instrumento qualquer, vale muito menos do que o valor alcançado no leilão, mas, considerada a miséria que impera no país – problema que deveria ser solucionado pelo programa Fome Zero -, erradicá-la obrigaria a doação de uma centena de orquestras.
Teatro rouge
A operação de construção de cisternas pode ser mais um engodo do governo Lula, pois o estrito significado do vernáculo mostra que cisterna nada mais é que um depósito, abaixo do nível da terra, para receber e conservar as águas pluviais. Como o semi-árido assim foi batizado por ser uma região que apresenta considerável ausência de chuva, a cisterna pode acabar servindo para receber e a semi-secura local. De mais a mais, a transposição do das águas do rio São Francisco pode estar por trás de toda esta operação que o governo Lula insiste em dar um cunho pseudo-social, quando é de conhecimento público que com muito menos investimento seria possível otimizar o uso dos açudes existentes no Nordeste, invariavelmente repletos de água. Apenas para lembrar, o projeto de transposição das águas do Velho Chico vem sendo defendido pelo ministro Ciro Gomes (Integração Nacional) com tanta paixão e poesia que até São Francisco desconfia.
Puxador oficial
Durante os anos em que esteve na oposição, especialmente quando começou a sair da clandestinidade imposta pelo regime militar, o PT tinha na Rede Globo e em todas as empresas pertencentes ao grupo comandado pela família Marinho o alvo de seus mais ácidos ataques dos petistas. Agora, o PT, que desde o momento que chegou ao poder, vem descaracterizando a sua história e dirigindo os mais impressionantes salamaleques à emissora carioca. Ontem, o senador Aloízio Mercadante (PT-SP) causou espécie ao ocupar a tribuna do Senado para, diante do empresário João Roberto Marinho, tecer os mais honrosos elogios às Organizações Globo. Senhor da razão, o tempo também serve para tosquiar a pele de cordeiro que revestem os lobos.
Chumbo trocado
Ainda os elogios petistas... Tudo não passa de uma operação escandalosamente combinada, pois a Vênus Platinada tem dado uma roupagem distinta às notícias do governo federal, o que faz com que os em telejornais da emissora passem a sensação de que todos nós vivemos na Suíça ou qualquer outro país de primeiro mundo. Por outro lado, o samurai Luiz Gushiken tem mostrado continuamente que pauteiro de aluguel é a mais nova e rentável profissão da comunicação brasileira.
Carapaça de aluguel
Como tudo que acontece no Brasil, os escândalos protagonizados pelo mais polêmico banqueiro tupiniquim, o Senhor Opportunidade – a Justiça continua mantendo a decisão ditatorial que nos impede de citar seu nome -, parecem que vão convergir para uma enorme e mal cheirosa pizza. O banqueiro opportunista tem se valido dos escaninhos putrefatos da mídia nacional, que vem alternando reportagens que ora o transformam em vítima, ora o rotulam como gênio. O fato é que o acordo com a Telecom Italia, que não passa de uma fantasiosa e carnavalesca venda de vento, serviu para que o opportunista não apenas engordasse ainda mais o próprio cofre, mas envernizasse uma imagem corroída que muitos insistem em não ver. Enfim, o Brasil continua sendo a terra das opportunidades mais inexplicáveis do planeta e dos opportunistas mais descarados.
Papos de aranha
Diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Mauro Marcelo de Lima e Silva acabou se estranhando com o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ). Durante depoimento à Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional, o diretor da Abin disse que foi à Cuba para explicar ao governo de Fidel Castro sobre a segurança nos jogos Panamericanos de 2007, mas acabou interrompido por Fernando Gabeira, que disse que aos cubanos bastava dizer que o Brasil não concederá asilo político a nenhum integrante da delegação daquele país, dada às contínuas e crescentes tentativas de fugas registradas pelo regime ditatorial da ilha caribenha.
Bestiário político
Dando continuidade à tese do falem mal, mas falem de mim, o presidente da Câmara, deputado Severino Cavalcanti (PP-SP), tentou justificar o fato de ter declarado que estupro é um acidente. O PP, partido de Severino Cavalcanti, parece ter um problema enorme com o vernáculo em questão, pois o ex-prefeito Paulo Maluf, correligionário do presidente da Câmara, certa vez disse, ao se referir aos números da criminalidade, mata, mas não estupra. Quem acha que estupro é um acidente é porque tem os neurônios literalmente coitados, além da consciência ter sido violentada em algum matagal da vida.
Deixando pra lá
A cassação do mandato do deputado André Luiz (sem partido – RJ) continua sendo uma incógnita na Câmara, que continua com a pauta trancada por Medidas Provisórias enviadas pelo Palácio do Planalto. O presidente da Câmara, deputado Severino Cavalcanti (PP-PE) garantiu que todas pendências serão eliminadas no decorrer da próxima semana, mas a cassação de André Luiz, que tem poucas chances de se consumar, deve ficar sob a responsabilidade do plenário. Insistindo em um beija-mão sem precedentes, o parlamentar fluminense tem permanecido à entrada do plenário da Casa durante as votações, onde, com um semblante de maior abandonado, tenta sensibilizar os companheiros. Muitos deputados entrevistados pela coluna confirmaram, em off, que a cassação a André Luiz pode deflagrar uma operação de caça às bruxas dentro da Câmara. Ou seja, existem muito mais telhados de vidro do que a vã filosofia imagina.
Escândalo corporativista
Em um manobra escusa e surpreendente, a Mesa da Câmara decidiu não investigar o presidente do PP, deputado Pedro Corrêa, acusado de manter relações de negócios com o empresário Ari Natalino. Respondendo a um sem fim de processos - adulteração de combustíveis, sonegação fiscal e contrabando – Ari Natalino está em prisão domiciliar, em São Paulo, diuturnamente vigiado pela Polícia Federal. Pedro Corrêa não pode ser poupado pelo simples fato de ser o presidente do partido do deputado Severino Cavalcanti, pois, de igual maneira e contrariando o bom senso que a política perdeu há muito, André Luiz não pode ser cassado. Pois diz o ditado, que o pau que bate em Chico, bate em Francisco.
Fio trocado
Na última segunda-feira, um dos mais importantes jornais brasileiros, o Estado de São Paulo, publicou editorial sob o título “Os Abusos da PF”, que ridicularizava as invasões feitas pela Polícia Federal nos últimos doze meses em escritórios de advocacia, cujo objetivo maior era a apreensão de documentos pertencentes a clientes dos mesmos. Inicialmente, a PF age como mera preposta da Justiça, cabendo à magistratura a responsabilidade pela decisão da invasão. É preciso avaliar qual a relação entre advogados e clientes, principalmente para que não se minimize um conluio criminoso, muitas vezes entrincheirado nas prerrogativas e direitos dos causídicos. Se ilegais foram as invasões que serviram de base ao editorial, o jornal não deveria ter noticiado os fatos em questão, pelo simples motivo de ideologia e manutenção da coerência, o que não corre de maneira geral por necessidade de gerar notícias escandalosas que redundam no aumento da venda de jornais. Antes de criticar qualquer de cisão do Judiciário, que busca a manutenção da ordem e do Estado de direito, melhor seria se o jornal não se enveredasse pelo caminho de acusações levianas, muitas vezes sem fundamento algum.
Ladrão, socorro!
Os alarmantes números da criminalidade em São Paulo têm colocado os integrantes da Segurança Pública paulista em situações constrangedoras, especialmente durante entrevistas aos veículos de comunicação. Falando à Jovem Pan, a maior e mais importante rádio brasileira, o comandante-geral da Polícia Militar de São Paulo, coronel Eliseu Eclair Teixeira Borges, mesmo eloqüente, teve problemas para ser convincente ao ser entrevistado pelo jornalista Nelo Rodolfo. Ao comentar a onda de arrastões que tomou conta dos bairros de classe média e média-alta da capital paulista, o coronel alegou que a Secretaria de Segurança Pública está ministrando cursos para síndicos e porteiros de prédios e condomínios, com o objetivo de dificultar a ação dos bandidos. É preciso lembrar ao cidadão, muito mais do que ao governador Geraldo Alckmin, que ao colaborar com Estado o contribuinte deve ter, sim, uma redução considerável na cobrança de impostos. Em nenhum dos duzentos e cinqüenta artigos da Constituição Federal está escrito que a segurança pública em qualquer rincão do país depende da colaboração do cidadão.
Maluco beleza
Ainda a insegurança pública paulista... O comandante-geral da PM disse que as viaturas policiais que ficam estacionadas ao longo de ruas e avenidas da cidade de São Paulo servem para aumentar a sensação de segurança aos cidadãos, como se, ao agir criminosamente, o bandido tivesse algum tipo de sensibilidade. Assim, resta aos paulistas a sensação de que, se coberto, o Palácio dos Bandeirantes é um circo. Se cercado, um hospício.
Vale tudo
Enquanto a irresponsabilidade fiscal cometida por Marta Suplicy continua sob o traseiro do governo federal, as maracutaias da administração da ex-alcaidessa paulistana começam a vir à tona, seis meses depois de sua derrota eleitoral. Em 2003, a prefeitura de São Paulo aceitou, mesmo com recomendação contrária da secretaria municipal de Finanças, garantias falsas oferecidas por empresários de ônibus que venceram as licitações do transporte público na capital paulista. As garantias, que tinham como órgão emissor o Banco de La Nación Argentina, em Buenos Aires, foram grosseira e escandalosamente falsificadas. Coincidência ou não, o marido da ex-prefeita, Felipe Belisario Wermus, o Luis Favre, é argentino e dado aos negócios suspeitos e mirabolantes. Tanto é assim, que a reurbanização da avenida Faria Lima, na zona sul de São Paulo, ainda continua sem explicação alguma.
Aumento da farra
Mesmo fora do noticiário, Marta Suplicy continua ampliando seus tentáculos no governo Lula, o que mostra que os entreveros entre a ex-prefeita e o Presidente da República não passam de um jogo de cena sórdido. Lula acaba de entregar uma das vice-presidências da Caixa Econômica Federal a um pupilo de Marta, o atual secretário de Habitação do Ministério das Cidades, Jorge Hereda. Outro indicado por Marta Suplicy é o presidente da Embratur, Eduardo Sanovicz, senhor de uma arrogância que condiz com a da madrinha política.
Partitura errada
Pensando bem, mesmo com a dinheirama da guitarra, o Fome Zero continua fora do tom.
Ucho Haddad |


Querendo entender...
Depois de vender metade do mandato, o Saturnino Braga (PT-RJ) continua senador. Por quê? Afinal,
perguntar não ofende...


O melhor do esporte com o maior jornalista esportivo do país



Clique na lupa e confira os escândalos que abalaram as estruturas políticas do país.


Destaques
e-ditorial:
"A visão usual da ilegalidade"
- por Ucho Haddad
e-xclusiva:
"Barrados no baile - o direito de voto do preso"
Resenha:
"A política na bacia das almas"
- por Ucho Haddad
Q.I.:
"A eminência parda do cardeal" -
por Pedro Luís de Campos Vergueiro
Tribuna
Livre: "Fundo Internacional
de Cabides" - por Ralph J. Hofmann
Prateleira
Eletrônica: "As 100 Melhores
Crônicas de Humor" - por Sandro Villar
Boca
Maldita: Alguns dos escândalos
que marcaram a política nacional


Túnel do Tempo
Massa de manobra
Sem muitos argumentos para justificar o pífio aumento do salário-mínimo, o presidente Lula, como toda sua equipe, tem usado o salário-família (passou para R$ 20) como escudo para se defender dos ataques oposicionistas. Mas a tese do Palácio do Planalto é uma farsa que deixa uma enorme massa trabalhadora a ver navios, uma vez que o novo salário-família só beneficia os trabalhadores que ganham até 1,5 salário-mínimo. (04/05/04)


Dica do Ucho
Novas Visões Urbanas - Retrato fiel de Heraldo Palmeira, um perfeccionista contumaz e apaixonado pela MPB, Novas Visões Urbanas é um tributo ao talento e à competência, ingredientes raros na nova safra musical brasileira. Além do preciosismo de Ilha Bela, Cartão Postal e Grupo de Risco, de autoria de Heraldo Palmeira, o repertório do CD tem seu ponto alto em arranjos marcantes, como acontece na consagrada Baixa do Sapateiro, de Ary Barroso, e Agora só Falta Você, de Rita Lee. Novas Visões Urbanas é o Nirvana da discografia nacional.



Editora Senac São Paulo
A costura do invisível - Em 17 de junho de 2004, no maior evento de moda da América Latina – o São Paulo Fashion Week - o estilista Jum Nakao realizou uma performance em que, ao final do desfile, as modelos rasgaram elaboradíssimas roupas de papel vegetal construídas em mais de 700 horas de trabalho, que envolveram cerca de 150 profissionais. Todas as etapas desse processo foram documentadas em fotos, vídeos e fotogramas, dando origem ao livro e DVD A costura do invisível, lançados pela Editora Senac São Paulo.

www.editorasenacsp.com.br
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