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ano 4 - número 864 - segunda-feira, 25 de abril de 2005
Brasil: se cobrir vira circo, se cercar vira hospício!

Bom é corromper o silêncio das palavras.

Manoel de Barros

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Paraíso dos corruptos
Dando seqüência ao projeto de se transformar em uma espécie de Messias de camelô, o presidente Lula rasga o próprio passado e concede asilo político ao ex-presidente do Equador, Lucio Gutiérrez, acusado, entre tantas coisas, de corrupção. É de se estranhar a atitude do presidente Lula, pois, além de todas as acusações que pesam sobre Gutiérrez, as relações entre o Brasil e o Equador nunca foram das melhores. De mais a mais, imaginar que o gesto de Lula foi um ato de humanidade beira a irresponsabilidade.

Passando a borracha
O Palácio do Planalto tem jogado para debaixo do tapete uma série de escândalos, que lamentavelmente têm alcançado o planejado esquecimento. Temas como as férias do filho do presidente Lula no Palácio da Alvorada, as relações petistas com as Farc, os casos Celso Daniel e Toninho do PT, a irresponsabilidade fiscal de Marta Suplicy, Waldomiro Diniz, a Operação Gafanhoto, a Ong Ágora, entre tantos outros, já não são lembrados. E a conta do abafamento, meu caro leitor, como sempre, é sua, é nossa. Ou será que alguém ainda sonha que tudo isso tem custo zero?

Lépido e faceiro
É preciso reconhecer que o Palácio do Planalto trabalhou eficientemente para que Waldomiro Diniz caísse no esquecimento, cujas trapalhadas o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, prometeu comentar em trinta dias, contados a partir da divulgação do escândalo na imprensa. Porém, o ex-assessor parlamentar de Pedro Caroço está longe de ser alguém que vive a maior parte do tempo cabisbaixo e sem dinheiro para nada, como o próprio alardeou meses atrás. Na última quarta-feira, véspera do feriado de Tiradentes, Waldomiro Diniz exibia, no aeroporto de Brasília, um semblante tranqüilo de fazer inveja. Só perdeu a compostura quando foi reconhecido no balcão da empresa aérea Gol, momento em que ficou visivelmente ruborizado. No mais, continua com a mesma face lenhosa de sempre.

Faltando encaixe
O referendo sobre o desarmamento tem, de certa forma, recebido uma espécie de apoio travestido do governo Lula, cabendo ao ministro Márcio Thomaz Bastos (Justiça) a responsabilidade de tratar do assunto com a imprensa, como se fosse uma espécie de porta-voz palaciano para o tema. Mas o viés político do referendo popular, que já colocou os assessores presidenciais em estado de alerta, obrigou o Planalto a fazer dos discursos oficiais sobre o desarmamento mais um embuste da era Lula, pois já é sabido que a inoperância do Estado na segurança pública vai acabar refletindo nos resultados. Tanto é assim, que a Câmara dos Deputados, que tem até o dia 15 de maio para aprovar o referendo, está com a pauta trancada, sendo que nenhum parlamentar petista tem mostrado boa vontade para desobstruí-la. Ao que tudo indica, o tal referendo deverá ser mesmo aprovado, mas depois do prazo limite, o que fará com que sua realização aconteça depois da eleição presidencial de 2006.

Contra o povo
Presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, o deputado Antonio Carlos Biscaya (PT-RJ) se faz de desentendido quando o assunto vem à baila. Na sala de embarque do aeroporto de Brasília, prestes seguir viagem para a Cidade Maravilhosa, Biscaya pediu, de forma encarecida, a uma ativista do desarmamento que não fizesse nenhum tipo de protesto a favor do referendo, pelo menos por enquanto. Enquanto isso, a chamada Bancada da Bala está atirando para todos os lados.

Perna curta
Na última quarta-feira, no plenário da Câmara, quando foi chamado de deputado do governo por ACM Neto (PFL-BA), Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP) rebateu a crítica, não sem antes exibir seu lado colérico. Visivelmente irritado, Greenhalgh respondeu: Não sou deputado do governo, sou do povo brasileiro! No mesmo dia, ao embarcar no vôo 1743 da Gol, com destino a São Paulo, Greenhalgh mostrou, sem deixar dúvida alguma, que o parlamentar baiano estava coberto de razão. Último a embarcar na aeronave, Greenhalgh percorreu o corredor entre as poltronas exibindo, com a mesma arrogância de sempre, um ar de superioridade tão insuportável, que mais da metade dos passageiros decidiu comentar o assunto. E se reeleito for, é porque falta ao eleitor o mesmo que sobra à maioria dos políticos: cara-de-pau.

Processo de canonização
O destino do Senhor Opportunidade continua na corda bamba. Enquanto a Justiça brasileira negou, mais uma vez, a decretação da prisão dos envolvidos no caso Kroll, a de Cayman determinou que o mais polêmico banqueiro tupiniquim deposite a fortuna de US$ 5 milhões, em ação promovida pelo empresário Luiz Roberto Demarco, seu ex-sócio. O advogado do banqueiro, Nélio Machado, que também defende a presidente da Brasil Telecom, Carla Cicco, insiste na tese de que seus clientes são inocentes e que o inquérito que apura as estripulias da dupla está viciado. Não é possível que a Polícia Federal tenha sido irresponsável a ponto de produzir um relatório onde, em alguns trechos, cita supostos subornos a integrantes do Judiciário, sendo que a necessária prisão do banqueiro continua sendo negada. De tal forma, resta concluir Nélio Machado foi contratado para assessorar juridicamente um injustiçado (sic), enquanto a Justiça das Ilhas Cayman insiste em não enxergar o lado angelical do banqueiro. Assim, esta coluna sugere às autoridades eclesiásticas que 13 de abril, data do indiciamento do banqueiro na PF, passe a ser comemorado como o dia de São Daniel, o mártir dos banqueiros.

Lupa na mão
Na última semana, o governo americano, através de seus representantes diplomáticos no Brasil, reuniu-se na sede do Incra, em Pernambuco, para obter informações sobre o Abril vermelho, nome dado pelo MST a uma série de invasões programadas. Coincidência ou não, o encontro aconteceu na mesma semana em que os médicos cubanos foram ejetados do país, depois de terem seus contratos de trabalho com o governo de Tocantins cancelados por ordem da Justiça. Nos bastidores da caserna corre a informação, mesmo que à boca pequena, que a expulsão dos médicos cubanos teria sido uma imposição do governo americano, mais especificamente do secretário Donald Rumsfeld.

Estica e puxa
Vivendo um dos piores momentos de sua história, o PMDB continua não apenas dividido, mas colocando em risco os destinos de uma nação, ao buscar vergonhosamente maior participação no governo Lula em troca de apoio político no Congresso. Enquanto os senadores Renan Calheiros (PMDB-AL) e José Sarney (PMDB-AP) faturam pessoalmente com algumas concessões do Palácio do Planalto, outra ala do partido se articula para enfrentar o presidente Lula em 2006, mesmo que o presidente sonhe em ter algum peemedebista como vice em sua campanha pela reeleição. Um dos mais ácidos críticos do governo Lula, o ex-presidente do BNDES, Carlos Lessa, foi contratado para elaborar o plano de governo do PMDB, que provavelmente terá Anthony Garotinho, o governador de fato do Rio de Janeiro, como candidato. Em outras palavras, o PMDB, que tanto lutou pelo restabelecimento da democracia, transformou o palanque em balcão de negócios.

Caso de polícia
Quando decidiu disputar o governo de São Paulo, em 2002, Geraldo Alckmin não se fez de rogado e apareceu na televisão ao volante de uma viatura policial, manuseando um equipamento de comunicação, dando a entender que a segurança pública não apenas era uma de suas promessas de campanha, como estava sob seu comando. Passado pouco mais de dois anos percebe-se que Alckmin, filho de uma família de católicos extremamente fervorosos, é uma ovelha desgarrada do rebanho do Senhor, pois fez da mitomania o cardápio do cotidiano. Quem ousou ter acesso às notícias do feriado prolongado teve a clara sensação que vive em Cabul ou Bagdá. Governador, se a solução da segurança pública é algo impossível, melhor seria contratar uma legião de anjos da guarda, pois impostos o Estado cobra de maneira nada angelical.

Mudo e calado
Depois das denúncias que tomaram conta da última audiência da CPMI da Terra, colocando no olho do furacão os secretários Luiz Carlos Delazari (Segurança Pública) e Padre Roque Zimermann (Trabalho e Promoção Social), o governador Roberto Requião tem mantido tão obsequioso silêncio, que até mesmo seus seguidores estão espantados. Acusado de comandar um grupo que dava proteção a fazendeiros paranaenses, o tenente-coronel da PM paranaense Valdir Coppetti Neves acusou Delazari de ser cliente de um conhecido traficante de Curitiba. Mesmo diante da gravidade das denúncias, Requião nem mesmo esboçou algum sinal de preocupação. No mínimo estranho, se considerada a necessidade de demissão.

Mais pra lá
A CPMI da Terra realiza audiência na próxima quarta-feira, em Brasília, quando serão ouvidos o tenente-coronel Coppetti Neves e o secretário da Segurança Pública do Paraná, Luiz Carlos Delazari. Se por um lado a convocação do secretário causou surpresa nos meios políticos, o posicionamento do candidato derrotado à prefeitura de Curitiba, Ângelo Vanhoni, um esquerdista conhecido, sobre o tenente-coronel causou espécie no núcleo político do PT. Vanhoni, por ocasião da audiência realizada em Curitiba na última semana, manteve encontro reservado com Valdir Coppetti Neves, o qual defendeu de forma efusiva à saída. Em outras palavras, a esquerda nunca esteve tão à direita.

Mármore do inferno
Ao celebrar a missa dominical no Vaticano, Joseph Ratzinger, o papa Bento XVI, iniciou o seu pontificado com a promessa que não irá defender idéias próprias, mas apenas seguirá os dogmas da Igreja Católica, dando seqüência ao trabalho realizado por seu antecessor, Karol Wojtyla. Mesmo dando sinais de que poderá patrocinar uma ligeira e tênue abertura na Santa Sé, Ratzinger certamente continuará camuflando alguns mistérios da praça São Pedro, situação que ficou clara com seu passeio em carro aberto pela mais católica de todas as praças do planeta. Assim, as inexplicáveis e virulentas operações do Banco Ambrosiano continuarão sendo um dos mais bens guardados segredos do Vaticano, ou seja, algo muito mais luciferiano do que celestial.

Descaso aéreo
Dona da maior frota de ônibus urbanos do planeta, a família Constantino tenta implantar na empresa aérea Gol a mesma teoria que fez do primeiro negócio familiar uma verdadeira cornucópia dourada. Na quarta-feira, 20 de abril, passageiros que, com as devidas reservas, tentavam embarcar no vôo 1693, no trecho Brasília-Vitória, simplesmente eram informados sobre o cancelamento do vôo, quando informações da Infraero davam conta de um overbooking (número de passageiros superior aos assentos disponíveis em determinado vôo) no trecho Rio de Janeiro-Vitória. Dezessete passageiros foram simplesmente ignorados pela companhia que faz dos clientes a antítese do próprio slogan: Linhas Aéreas Inteligentes. Procurada pela coluna, a Gol destacou a funcionária Luciene (identificação número 505) para as devidas explicações, a qual preferiu falar em ética, enquanto os incautos passageiros tentavam formas alternativas para seguir viagem. A não ser que a família Constantino acredite que os aviões podem, a exemplo dos ônibus, carregar os chamados pingentes.

Cartão vermelho
Pensando bem, a Gol acha que cliente é para ficar sempre na marca do pênalti.

Ucho Haddad

 

Querendo entender...

Larry Rohter, o jornalista ianque que escreveu sobre os goles presidenciais, simplesmente desapareceu. Por quê? Afinal, perguntar não ofende...

O melhor do esporte com o maior jornalista esportivo do país

Clique na lupa e confira os escândalos que abalaram as estruturas políticas do país.

Destaques

e-ditorial: "A visão usual da ilegalidade" - por Ucho Haddad

e-xclusiva: "Barrados no baile - o direito de voto do preso"

Resenha: "A política na bacia das almas" - por Ucho Haddad

Q.I.: "A eminência parda do cardeal" - por Pedro Luís de Campos Vergueiro

Tribuna Livre: "Fundo Internacional de Cabides" - por Ralph J. Hofmann

Prateleira Eletrônica: "As 100 Melhores Crônicas de Humor" - por Sandro Villar

Boca Maldita: Alguns dos escândalos que marcaram a política nacional

Túnel do Tempo

Cronômetro disparado
De um mandato de 1.460 dias, o presidente Lula conseguiu, nos primeiros 481, produzir uma única obra reluzente, cuja autoria não lhe pertence. A estrela petista plantada no Palácio da Alvorada e na Granja do Torto pela primeira-dama Marisa Letícia Lula da Silva. Em outras palavras, um terço do governo já se foi e nada aconteceu, sendo que o presidente continua a viver em um chão de estrelas. Literalmente! (26/04/04)

Dica do Ucho

Novas Visões Urbanas - Retrato fiel de Heraldo Palmeira, um perfeccionista contumaz e apaixonado pela MPB, Novas Visões Urbanas é um tributo ao talento e à competência, ingredientes raros na nova safra musical brasileira. Além do preciosismo de Ilha Bela, Cartão Postal e Grupo de Risco, de autoria de Heraldo Palmeira, o repertório do CD tem seu ponto alto em arranjos marcantes, como acontece na consagrada Baixa do Sapateiro, de Ary Barroso, e Agora só Falta Você, de Rita Lee. Novas Visões Urbanas é o Nirvana da discografia nacional.

Editora Senac São Paulo

A costura do invisível - Em 17 de junho de 2004, no maior evento de moda da América Latina – o São Paulo Fashion Week - o estilista Jum Nakao realizou uma performance em que, ao final do desfile, as modelos rasgaram elaboradíssimas roupas de papel vegetal construídas em mais de 700 horas de trabalho, que envolveram cerca de 150 profissionais. Todas as etapas desse processo foram documentadas em fotos, vídeos e fotogramas, dando origem ao livro e DVD A costura do invisível, lançados pela Editora Senac São Paulo.

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