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ano 4 - número 859 - quinta-feira, 14 de abril de 2005
Brasil: se cobrir vira circo, se cercar vira hospício!

“Eu prefiro a companhia dos animais. Eles são muito mais simples.”

Sigmund Freud

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Antes tarde...
Se o indiciamento pela Polícia Federal do mais polêmico banqueiro tupiniquim, o Senhor Opportunidade, causou espécie para os mais desavisados, para aqueles que o enfrentam diariamente era algo esperado há muito. Misto de vaidade inconseqüente com uma certa dose de divindade inexistente – pelo menos é assim que se enxerga – o banqueiro opportunista chegou com três horas e meia de antecedência à sede da Polícia Federal do Rio de Janeiro – o depoimento estava marcado para as 10 da manhã – como estratégia para não ser filmado e nem fotografado. De igual maneira, após ser indiciado, o banqueiro saiu pela porta dos fundos do prédio da praça Mauá, no centro do Rio de Janeiro, despistando jornalistas e cinegrafistas. Tais situações refletem a quase incontrolável psicopatia do opportunista, que lamentavelmente a Justiça não conseguiu enxergar ao negar por duas vezes sua prisão preventiva. É verdade que trata-se de tarefa hercúlea, mas passar o Brasil a limpo é algo absolutamente possível. Até porque, ser patriota não se resume a decorar o Hino Nacional.

... do que nunca
Quando ainda achava-se onipotente e inimputável, o banqueiro opportunista contratou o agente israelense Avner Shemesh pata bisbilhotar a vida de seus mais ácidos desafetos, enquanto a Polícia Federal analisava os documentos relativos à espionagem contratada pela Brasil Telecom e protagonizada pela americana Kroll Associates. Informações obtidas pela coluna dão conta que no material apreendido na última sexta-feira, no escritório de Shemesh, a PF encontrou, entre tantas coisas, fotos dos familiares e das residências dos jornalistas que o incomodaram nos últimos anos. Mesmo assim, o inconseqüente Senhor Opportunidade continuará solto e aterrorizando a vida daqueles que o enfrentam. Tal situação deve ser considerada como uma total e absurda irresponsabilidade do Estado, principalmente porque quando a liberdade de um reles transgressor da lei representa ameaça ao andamento das investigações, a Justiça não pensa duas vezes em decretar sua prisão, mesmo que preventiva.

Bye bye, Brasil
Quando algum reles mortal se envereda pelos truques da vida, as autoridades não titubeiam em requisitar os passaportes dos mágicos, como forma de garantir que não saiam do país e escapem das garras da Justiça. Outrossim, causa perplexidade o fato da Polícia Federal não ter apreendido os passaportes de Carla Cicco, presidente da Brasil Telecom, e do Senhor Opportunidade. O banqueiro, para os que desconhecem, é dono de uma verdadeira frota de jatos executivos – já são quatro – sendo que a última aquisição lhe custou a bagatela de US$ 35 milhões. Do contrário, a Justiça aparecerá somente no binóculo do opportunista.

Carona interesseira
Quando passou a contemplar o crescimento sustentado das oposições, a entourage palaciana decidiu flertar o PMDB, como receita milagrosa para as eleições de 2006. Se por um lado o presidente Lula disparou salamaleques dos mais variados na direção dos senadores Renan Calheiros (PMDB-AL) e José Sarney (PMDB-AP), por outro, o ministro José Dirceu se encarregou de neutralizar o partido em suas hostes estaduais. No entanto, no exato momento em que persuadir os peemedebistas tornou-se algo difícil e quase impossível, em especial pela pífia reforma ministerial, o Palácio do Planalto passou a sonhar com o nome de Nelson Jobim como vice de Lula em 2006. Do contrário, o presidente do Supremo Tribunal Federal teria acompanhado o funeral do papa pela televisão.

Na maca
Temendo dificuldades na campanha presidencial de 2006, o Planalto tem se valido de ações bisonhas para aniquilar os possíveis adversários do presidente Lula, mas nem tudo tem saído a contento. A operação realizada na Saúde da Cidade Maravilhosa foi um show de pirotecnia tão oportunista quanto irresponsável, sendo que o assunto já caiu no esquecimento. Tal situação prova que o messianismo luliano é mais um daqueles famosos e indesejáveis embustes do marketing político, sendo que nada de tão excepcional mudou no Rio de Janeiro, se é que realmente algo tenha ocorrido por lá. Em outras palavras, não se sabe se a doença maior está na Saúde do Rio ou na saúde do pensamento petista.

Vingança da sacristia
Ainda colhendo os espinhos de sua incursão vaticanista de três dias, ocasião em que participou do funeral do papa João Paulo II, o presidente Lula acaba de conquistar mais uma declaração desastrosa sobre sua suposta religiosidade. Após celebrar uma missa na Santa Sé, o ex-arcebispo do Rio de Janeiro, cardeal dom Eugênio Salles, recebeu a imprensa em seus aposentos e disparou: Ele não é um cristão modelo, disse o cardeal ao se referir ao presidente brasileiro. Na opinião de dom Eugênio Salles, que quer explicações sobre o fato do presidente ter comungado durante o funeral do papa, Lula não é um cristão ao seu modo e tão pouco um cristão sem pecados. Traduzindo, posar de coroinha de igreja parece não ter dado muito certo.

Morrendo na praia
Pouco mais de vinte e quatro horas após ter declarado que os gastos do governo federal com viagens internacionais não são desmedidos, mas absolutamente necessários, o ministro José Dirceu admitiu, nos bastidores, que o périplo africano do presidente Lula não rendeu tantos acordos comerciais como vem sendo anunciado. As negociações ficaram entre o moderado e o pífio, sendo que o dinheiro do contribuinte, gasto em mais uma insana viagem internacional, apenas proporcionou ao presidente Lula a possibilidade de recordar os primeiros dias de governo, quando ainda se mesclava ao povo e era ovacionado compulsivamente. De resto, os resultados obtidos na África condizem com a competência do governo.

O que é isso companheiro?
Quando ainda sonhava com a eleição de Luiz Eduardo Greenhalgh para a presidência da Câmara Federal, o PT e o Palácio do Planalto apostavam, até mesmo de maneira cega e irresponsável, na capacidade de seus líderes no Congresso. Bastou uma pequena dissidência partidária para que ficasse comprovada a incapacidade de articulação em momentos de crise do então líder do governo na Câmara, deputado Professor Luizinho (PT-SP), para que Severino Cavalcanti aniquilasse o topetudo Greenhalgh. À época, em um atitude típica da Gestapo, a derrota petista foi creditada ao ministro Aldo Rebelo (Articulação Política), sendo que o nome do Professor Luizinho sequer veio à baila. Ou seja, a cegueira petista muitas vezes é maior do que a dura realidade que o partido enfrenta.

Panos quentes
Ainda a incompetência rouge... Agora, enquanto decanta a não aprovação do nome de José Fantine para uma das diretorias da Agência Nacional do Petróleo, o PT palaciano vai digerindo mais uma derrota no Congresso, o que mostra de forma clara e evidente que a peçonha política de seus principais representantes no parlamento não é paralisante e letal como muitos querem fazer acreditar. O maior culpado pela recente derrota é o senador Aloízio Mercadante (PT-SP), que misteriosamente tem sido poupado pelo partido. Tanto é assim, que após o novo vexame, Mercadante deixou de fazer o que mais gosta: destilar sua empáfia diante das câmeras. Enfim, não há como negar que o tempo é o senhor da razão.

Dançando miúdo
Dentro de algumas semanas, a Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara dos Deputados deverá colocar em discussão uma das mais polêmicas matérias envolvendo os bancos. De acordo com o presidente da Comissão, deputado Luiz Antonio Fleury Filho (PTB-SP), representantes do Banco Central darão os retoques finais na submissão dos bancos ao Código de Defesa do Consumidor, situação que nem de longe os banqueiros admitiam. A propósito, em recente declaração, os banqueiros reiteraram a posição de não se submeter ao Código, alegando que seguiam uma normatização própria do setor, editada pelo BC. É preciso lembrar que nenhuma instituição, independentemente de seu caráter, está acima do que determinam o conjunto de leis e a Constituição. Em outras palavras, pode ser o começo do fim.

De pernas para o ar
Nas articulações políticas que acontecem no Rio de Janeiro, uma verdadeira dança de nomes acontece quando o assunto é a sucessão da governadora de direito Rosângela Matheus. O governador de fato Anthony Garotinho, que antes pensava se derretia pelo senador Marcelo Crivella (PL-RJ), agora dá sinais claros que seu candidato ao governo do Rio pode ser o senador Sérgio Cabral Filho (PMDB-RJ). O que não significa, em hipótese alguma, que seja uma dádiva à terra que vive sob as bênçãos do Redentor.

Barrado no baile
Com a morte do deputado estadual Márcio Corrêa (PSB-RJ), vítima de um acidente automobilístico, a vaga deveria ser ocupada por seu primeiro suplente, o advogado Hugo Leal. Presidente do Detran do Rio de Janeiro, cargo que alcançou por suas fortes e questionáveis relações com Anthony Garotinho, Leal, que em alguns departamentos do órgão já chamado de Hugo (des)Leal, queria mesmo é ser alçado à condição de desembargador do Tribunal de Justiça fluminense, onde ingressaria através do Quinto Constitucional. O fato é que o sonho de Hugo Leal alcançar a magistratura foi interrompido de maneira inesperada. Uma ação de atentado contra o manda-chuva do Detran, por desrespeitar uma decisão judicial, acabou com sua fantasia. É o que dá jogar confete em Carlos Augusto Montenegro, presidente do Ibope, e João Elísio Ferraz de Campos, presidente da Fenaseg, dupla que se destaca pela arrogância. Resumindo, diga-me com quem andas e dir-te-ei o que serás. Nada!

Ele é o bom
Circulando, dia desses, pelos corredores do Congresso, o governador de fato Anthony Garotinho, em mais um de seus momentos de ironia, decidiu comentar o assunto que tem tomado a mídia nacional, o nepotismo. Sou ex-governador e minha mulher é governadora. Já fui secretário da Segurança e agora, ela me convida para ser secretário do Governo. Será que isso também é nepotismo? Não, governador, é apenas um ato de irresponsabilidade sem precedentes.

Glórias mil pra lá
O Corinthians pode sentar no banco dos réus. Pelo menos é o que desejam os deputados da Comissão de Segurança Pública e Crime Organizado, que aprovaram ontem um pedido de audiência pública de autoria dos deputados Rubinelli (PT-SP) e Alberto Fraga (PTB-DF). Os parlamentares esperam que o empresário Kia Joorabchian esclareça as acusações sobre suposta lavagem de dinheiro realizada pela empresa MSI – Marketing Sports Investments, parceira do alvinegro do Parque São Jorge. De quebra a Comissão deverá ouvir, também, o presidente do Corinthians, Alberto Dualib. As línguas viperinas da Câmara garantem que a idéia de ouvir os corintianos é armação de palmeirenses inconformados. No entanto, se existe algum tipo de lavagem absolutamente comprovada, é a da alma dos torcedores que há muito não viam o time do coração vencer.

Adágio de ocasião
Pensando bem, se, no mundo, um dia é da caça, outro do caçador, ontem, na Polícia Federal, a história mudou por algumas horas. Um dia é da opportunidade, outro do opportunista.

Ucho Haddad

 

Querendo entender...

Anthony Garotinho não vai explicar o que fez com o dinheiro do "Bônus do Garotinho"? Por quê? Afinal, perguntar não ofende...

O melhor do esporte com o maior jornalista esportivo do país

Clique na lupa e confira os escândalos que abalaram as estruturas políticas do país.

Destaques

e-ditorial: "A visão usual da ilegalidade" - por Ucho Haddad

e-xclusiva: "Barrados no baile - o direito de voto do preso"

Resenha: "A política na bacia das almas" - por Ucho Haddad

Q.I.: "A eminência parda do cardeal" - por Pedro Luís de Campos Vergueiro

Tribuna Livre: "Fundo Internacional de Cabides" - por Ralph J. Hofmann

Prateleira Eletrônica: "As 100 Melhores Crônicas de Humor" - por Sandro Villar

Boca Maldita: Alguns dos escândalos que marcaram a política nacional

Túnel do Tempo

Casa de ferreiro
Entre tantos gabinetes existentes na Câmara dos Deputados, alguns chegam a chamar a atenção pela ironia do destino. A maioria dos gabinetes petistas ostenta, logo na porta de entrada, uma mensagem que é a antítese do que vem acontecendo no governo Lula: CORRUPÇÃO NUNCA MAIS. Depois da inexplicável viagem de Benedita da Silva, das revelações sobre os casos Celso Daniel e Toninho do PT e do imbróglio evolvendo Waldomiro Diniz e o ministro José Dirceu, bom seria se os parlamentares petistas retirassem, ou pelo menos cobrissem, tão hilária citação. (15/04/04)

Dica do Ucho

Novas Visões Urbanas - Retrato fiel de Heraldo Palmeira, um perfeccionista contumaz e apaixonado pela MPB, Novas Visões Urbanas é um tributo ao talento e à competência, ingredientes raros na nova safra musical brasileira. Além do preciosismo de Ilha Bela, Cartão Postal e Grupo de Risco, de autoria de Heraldo Palmeira, o repertório do CD tem seu ponto alto em arranjos marcantes, como acontece na consagrada Baixa do Sapateiro, de Ary Barroso, e Agora só Falta Você, de Rita Lee. Novas Visões Urbanas é o Nirvana da discografia nacional.

Editora Senac São Paulo

A costura do invisível - Em 17 de junho de 2004, no maior evento de moda da América Latina – o São Paulo Fashion Week - o estilista Jum Nakao realizou uma performance em que, ao final do desfile, as modelos rasgaram elaboradíssimas roupas de papel vegetal construídas em mais de 700 horas de trabalho, que envolveram cerca de 150 profissionais. Todas as etapas desse processo foram documentadas em fotos, vídeos e fotogramas, dando origem ao livro e DVD A costura do invisível, lançados pela Editora Senac São Paulo.

www.editorasenacsp.com.br

 

 

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