| Verborragia antagônica
Admitindo, pelo menos discursivamente, que 2005 é um ano para governar e que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não vai entrar em processo eleitoral antes da hora, o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, pediu, em reunião política no Rio de Janeiro, que os petistas se unam para garantir a reeleição do atual chefe da nação, que na sua opinião ainda não está garantida. Dirceu disse, inclusive, que, se necessário, as candidaturas petistas aos governos estaduais deverão ser sacrificadas para beneficiar o PMDB, como forma de atrair o partido, cada vez mais, para o lado do Planalto. Em sua incursão pelo Rio de Janeiro, Dirceu atendeu às ordens palacianas, declarando que o governo Lula estuda um plano de ação para a Baixada Fluminense, onde há dias aconteceu a chacina que ceifou a vida de trinta e três pessoas. A idéia inicial é envolver os ministérios da Justiça, Saúde e Cidades na operação que terá como meta a melhoria da qualidade de vida dos moradores da região. E se aproveitar a desgraça alheia para lançar factóides políticos não é um claro sinal de campanha política, é porque os mais notáveis (sic) integrantes do governo são adeptos da teoria do quanto pior, melhor.
Missa encomendada
Não bastassem as acusações de ter se valido de um certo ilusionismo nas propriedades rurais oferecidas como garantia de um empréstimo bancário oficial – ainda não liquidado – o ministro da Previdência, Romero Jucá, agora é alvo de nova denúncia. Funcionários de uma cooperativa contratada pela prefeitura de Boa Vista – comandada pela mulher do ministro, Teresa Jucá – foram transferidos, sem nenhuma explicação, para a campanha de Romero Jucá ao Senado, em 2002, onde atuaram como cabos eleitorais. A fritura do ministro peemedebista, que começa a exalar os primeiros odores de encomenda palaciana, faz parte da estratégia do presidente Lula de se reeleger em 2006. A idéia inicial é neutralizar os últimos resquícios de rebeldia que ainda perduram no PMDB, desestabilizando as pretensões políticas dos peemedebistas mais ousados. Se o maquiavelismo petista beira as raias da inconseqüência, não significa que Jucá é um inocente que vem sendo vítima de inverdades.
Eu voltei
A Polícia Federal espera, ainda hoje, a chegada ao Brasil do mais polêmico banqueiro tupiniquim, o Senhor Opportunidade, que deverá esclarecer nos próximos dias a contratação da empresa Kroll Associates, responsável pela arapongagem ilegal que acabou expondo alguns integrantes do governo federal. Estrategicamente refugiado em Nova York, o banqueiro contava com a possibilidade de transferir toda a responsabilidade pelo imbróglio para a presidente da Brasil Telecom, a italiana Carla Cicco (foto), mas uma operação da PF na última sexta-feira transformou os sonhos dos opportunistas em um pesadelo sem igual.
Mão na massa
Por decisão da Justiça Federal de São Paulo, a Polícia Federal invadiu, na última sexta-feira, o escritório de Avner Shemesh (foto), ex-oficial do exército israelense e especializado em segurança eletrônica, atividade também conhecida como espionagem com respaldo tecnológico, tendo recolhido tudo que encontrou pela frente. Treinado pelo Mossad, serviço secreto de Israel, Shemesh, segundo a PF, vinha agindo nos últimos meses a mando do Senhor Opportunidade, tendo violado a intimidade de diversas pessoas consideradas inimigas do banqueiro opportunista, ao interceptar telefonemas e correspondências, além de ameaças e pressões psicologicas. Ávidos por conseguir uma prova que unisse Shemesh ao Senhor Opportunidade, os policiais flagraram Carlos Rodemburg, cunhado do banqueiro, entrando e saindo várias vezes do escritório do araponga israelense, localizado em um bairro nobre da capital paulista.
Recordar é viver
Para quem não se recorda, Avner Shemesh sempre se valeu dos chamados contatos de alto nível, sendo um dos protagonistas do escândalo que abalou as estruturas do governo Orestes Quércia. Shemesh, juntamente com os sócios da época, foi responsável pelo fornecimento de material bélico, equipamentos de escuta e gravação e de filmagem noturna para o Corpo de Bombeiros e para as unidades de choque da Polícia Militar de São Paulo, sendo que o problema recaiu sobre a possibilidade de superfaturamento na aquisição dos equipamentos, denúncia feita pelo então deputado federal e hoje ministro Luiz Gushiken. A intimidade entre Orestes Quércia e o espião israelense era tão grande, que Shemesh foi um dos padrinhos do casamento do governador paulista com Alaíde Cristina Barbosa Ulson, que depois acrescentou o sobrenome do marido.
Mera coincidência?
Não bastassem as coincidências que recheiam os imbróglios do Senhor Opportunidade, a última delas envolve os protagonistas de um dos capítulos iniciais da briga entre o banqueiro e o empresário Luís Roberto Demarco Almeida. A espionagem que acabou resvalando no ministro Luiz Gushiken só foi possível depois que uma enorme quantidade de correspondências eletrônicas foi roubada dos computadores de Luís Demarco, sendo que sua ex-mulher, Maria Regina Yazbek (foto), foi acusada como mandante da operação. Para se defender das acusações, Maria Regina Yazbek contratou o escritório de advocacia Joycen Roysen, o mesmo que estaria defendo a americana Kroll no caso da bisbilhotagem eletrônica.
Salário cortado
Antecipada com exclusividade pela coluna, no dia em que Ciro Gomes compareceu a uma das comissões do Senado, a denúncia sobre a participação do ministro da Integração Nacional no Conselho da Acesita foi acolhida pela Procuradoria Geral da República. No ofício enviado à PGR, o deputado Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR) solicita que Ciro Gomes opte por um dos cargos, além de devolver ao erário os valores percebidos durante o tempo em que permaneceu como conselheiro da empresa (R$ 6.900,00 mensais). Invocando o princípio constitucional da moralidade administrativa, os procuradores federais entenderam por bem determinar, em caráter de tutela antecipada, o imediato afastamento do ministro do Conselho Administrativo da Acesita. Apenas para lembrar, no dia em que compareceu ao Senado, Ciro Gomes agradeceu publicamente à ex-mulher, senadora Patrícia Saboya Gomes (PPS-CE), por abrir mão da pensão alimentícia a que teria direito, por estar ciente da precariedade do salário de um ministro de Estado (R$ 8.500,00 mensais).
Fala que eu te escuto
A CPMI da Terra deverá ouvir, no próximo dia 18, o tenente-coronel Valdir Copetti Neves, preso em Curitiba sob a acusação de comandar um grupo que dava proteção a fazendeiros paranaenses, contra invasores do MST. A acusação insiste no uso continuado do vernáculo milícias, como forma de dificultar a defesa dos envolvidos, quando o fato pode ter sido gerado por integrantes do MST, há muito incomodados com o tenente-coronel, anteriormente responsável pela desocupação de terras invadidas no Paraná. Se aos sem-terra cabe, de acordo com o que prega os ditames da reforma agrária brasileira, um quinhão de terra como parte integrante do exercício da cidadania, aos fazendeiros cabe o direito à propriedade, a qual deve estar protegida pelo Estado, que ao não cumprir com suas obrigações constitucionais abre uma brecha para a contratação de segurança privada de todas as espécies e matizes.
Locura contagiosa
Com o contínuo crescimento das possibilidades de canonização de Karol Wojtyla, o Vaticano já começa a revirar a história para descobrir alguns milagres atribuídos a João Paulo II. De acordo com informações publicadas nos principais jornais italianos, a idéia surgiu há dias, depois que o secretário particular do finado papa, arcebispo Stanislaw Dziwisz, aventou a possibilidade de três curas terem ocorrido por conta do encontro dos enfermos com João Paulo II. Tem cheiro de oportunismo irresponsável a movimentação do Vaticano, que tenta transformar em santo alguém que sentou sobre o escândalo do Banco Ambrosiano, permitindo que as estripulias financeiras da Santa Sé continuassem até os dias de hoje, além de ter cerrado os olhos para os escândalos sexuais que há muito freqüentam as sacristias, casas paroquiais e seminários.
Vaticano alvinegro
Se a troupe vaticana está à procura de algum milagre de João Paulo II, o primeiro deles é ter reunido Lula, Sarney e FHC em um mesmo avião, sendo que a mãe de cada um já foi chamada de santa pelos outros e vice-versa, sendo que todos, no vôo das carpideiras, mais pareciam velhos amigos depois de um longo tempo de afastamento. O próximo milagre seria a eleição de um papa argentino, o que certamente despertaria a cobiça de Kia Joorabchian, o investidor que argentinizou o Corinthians, escalando Tevez como coroinha do Vaticano e Passarella para comandar a sacristia. E as chances de um papa argentino crescem se considerada a tese que Diego Maradona tem certeza que é uma versão mais gorda e empoeirada do Senhor.
Dedo mindinho
Há dias, em evento literário realizado na capital paulista, os organizadores viveram momentos de saia justa por conta de desafetos do mundo sindical. Tendo chegado ao evento com antecedência, o presidente da CUT, João Felício, acabou se transformando em um empecilho ao sindicalista Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, presidente da Força Sindical. Nos bastidores o comentário era que Paulinho telefonara diversas vezes para saber se João Felício ainda estava no evento, cuja presença impedia a chegada do presidente da Força Sindical. Ou seja, as crianças estão de mal.
Visão de cidadania
O exercício da política nem sempre acontece por força de grandes projetos, mas, em alguns momentos, através de medidas simples e que atendam às necessidades dos setores carentes da sociedade. Defensor da inclusão social para os deficientes visuais, o vereador Attila Russomanno (PP-SP) propôs a adoção pela Câmara Municipal de São Paulo do cartão de visitas com inscrições em braile, garantindo ao deficiente visual um bom atendimento no legislativo paulistano. Integrante da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, Attila Russomanno já oferece tal benefício aos portadores de deficiências visuais.
Sol quadrado
Ex-controlador da falida Gallus Agropecuária, Gelson Camargo dos Santos foi condenado na última semana, pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, a doze anos de prisão em regime fechado, por ter cometido, entre tantos crimes, fraude falimentar e desvio de bens. Durante a administração Marta Suplicy, Gelson Camargo foi protagonista de um dos maiores escândalos envolvendo o nome de Luis Favre, marido da ex-alcaidessa paulistana. Em boletim de ocorrência lavrado na Delegacia de Atendimento ao Turista – Deatur, em São Paulo, Gelson Camargo teria dito que a fraude praticada na Viação Cidade Tiradentes teria como beneficiário o franco-argentino Luis Favre. A riqueza de detalhes do depoimento do empresário chegou a impressionar as autoridades, especialmente quando relatou um suposto encontro entre Favre e alguns empresários de ônibus da capital paulista (documento abaixo), que teria acontecido em um dos restaurantes do hotel Maksoud Plaza. Dias depois que o depoimento veio a público, o assunto foi abafado e o antigo dono da Gallus, preso na época, mergulhou em um silêncio obsequioso. Estranho!

Tô nem aí...
Durante a cerimônia religiosa que precedeu o sepultamento do papa João Paulo II, a Rede Record mandou o departamento de jornalismo da emissora às favas. Enquanto todas as televisões do mundo transmitiam as imagens da praça São Pedro, a Record exibia, logo no início da manhã de sexta-feira, um programa evangélico de descarrego. É verdade que o velório papal excedeu em luxo, salamaleques e hipocrisia, mas é preciso lembrar que a Record é um braço da Igreja Universal do Reino de Deus, comandada pelo nada santo pastor Edir Macedo. Em outras palavras, foi uma guerra mútua em um universo que está muito mais para a fogueira das vaidades do que para a inocência da fé.
Versão genérica
Pensando bem, já é possível contratar espião israelense feito no Paraguai.
Ucho Haddad |


Querendo entender...
O Sassá Mutema planaltino volta a atacar na África. Por quê? Afinal, perguntar não
ofende...


O melhor do esporte com o maior jornalista esportivo do país



Clique na lupa e confira os escândalos que abalaram as estruturas políticas do país.


Destaques
e-ditorial:
"A visão usual da ilegalidade"
- por Ucho Haddad
e-xclusiva:
"Barrados no baile - o direito de voto do preso"
Resenha:
"A política na bacia das almas"
- por Ucho Haddad
Q.I.:
"A eminência parda do cardeal" -
por Pedro Luís de Campos Vergueiro
Tribuna
Livre: "Fundo Internacional
de Cabides" - por Ralph J. Hofmann
Prateleira
Eletrônica: "As 100 Melhores
Crônicas de Humor" - por Sandro Villar
Boca
Maldita: Alguns dos escândalos
que marcaram a política nacional


Túnel do Tempo
Calculadora rouge
E o poder continua proporcionando aquela inenarrável sensação de que tudo é permitido. O secretário-executivo adjunto do Ministério do Planejamento, Élvio Gaspar, tem utilizado um veículo oficial, sem a devida autorização, para levá-lo e buscá-lo na Academia de Tênis de Brasília. E mais: baseado na dispensa de licitação, Gaspar transferiu todo o serviço de processamento do ministério para o Serpro. Anteriormente, o mesmo trabalho era realizado pela empresa Poliedro, cujo contrato no valor anual de R$ 20 milhões previa, inclusive, a locação de mão-de-obra técnica especializada. Já o Serpro, que deveria cobrar um valor menor por ser uma autarquia federal, foi contratado por R$ 25.313.000,00, ou seja, 25% a mais que o contrato anterior. (12/04/04)


Dica do Ucho
Novas Visões Urbanas - Retrato fiel de Heraldo Palmeira, um perfeccionista contumaz e apaixonado pela MPB, Novas Visões Urbanas é um tributo ao talento e à competência, ingredientes raros na nova safra musical brasileira. Além do preciosismo de Ilha Bela, Cartão Postal e Grupo de Risco, de autoria de Heraldo Palmeira, o repertório do CD tem seu ponto alto em arranjos marcantes, como acontece na consagrada Baixa do Sapateiro, de Ary Barroso, e Agora só Falta Você, de Rita Lee. Novas Visões Urbanas é o Nirvana da discografia nacional.



Editora Senac São Paulo
A costura do invisível - Em 17 de junho de 2004, no maior evento de moda da América Latina – o São Paulo Fashion Week - o estilista Jum Nakao realizou uma performance em que, ao final do desfile, as modelos rasgaram elaboradíssimas roupas de papel vegetal construídas em mais de 700 horas de trabalho, que envolveram cerca de 150 profissionais. Todas as etapas desse processo foram documentadas em fotos, vídeos e fotogramas, dando origem ao livro e DVD A costura do invisível, lançados pela Editora Senac São Paulo.

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