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uh comunicação ilimitada

ano 4 - número 855 - sexta-feira, 08 de abril de 2005
Brasil: se cobrir vira circo, se cercar vira hospício!

Nunca deixo de ter em mente que o simples fato de existir já é divertido.

Katherine Hepburn

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Chumbo trocado
Chamado de caótico e de não suficientemente católico, em um intervalo de menos de vinte e quatro horas, o presidente Lula resolveu se defender da artilharia verbal do arcebispo do Rio de Janeiro, dom Eusébio Scheid. Aproveitando a escala técnica que o Aerolula fez em Recife, Lula disse, em entrevista à rádio Jornal do Recife, que sempre freqüentou a igreja, mas que ultimamente a agenda presidencial o impede de comparecer aos cultos religiosos. Se o presidente é um homem de muita fé, como ele próprio afirmou, algo de muito errado deve estar acontecendo com sua consciência ou, quem sabe, Luiz Inácio Lula da Silva é um mitômano ciclotímico e irrecuperável.

Hora da verdade
Quando ainda perambulava pelos palanques, o candidato Lula prometeu criar dez milhões de empregos, mas até hoje não cumpriu. Garantiu que a esperança venceria o medo, mas a situação atual nem de longe espelha a promessa. Depois de eleito e empossado, Lula disse, com todas as letras, que a enxurrada de mentiras que inundou os palanques eleitorais foi necessária para que o PT chegasse ao poder. E como quem tem fé não carece da mentira para alcançar os próprios objetivos, resta acreditar que Lula é um católico caótico, mas nem com muito esforço pode ser considerado um cristão. Até porque, na lista dos Dez Mandamentos, o oitavo é claro em relação ao assunto: Não levantar falso testemunho.

Católico de camelô
Ao optar por uma composição heterogênea da comitiva que o acompanharia a Roma, o presidente Lula quis resgatar um pouco da história, colocando no Aerolula os ex-presidentes brasileiros que estiveram com o papa João Paulo II. Lula convidou os antecessores José Sarney e Fernando Henrique Cardoso para a viagem até a Santa Sé, mas deixou de fora Fernando Collor de Mello. Otto Lara Resende disse, certa vez, que perdoar é de cristão, mas esquecer é de sem-vergonha, mas Lula deveria ter mostrado o seu lado cristão, mesmo não tendo esquecido a derrota para Collor. Entre viajar ao lado de Fernando Collor e debulhar lágrimas sobre o esquife de Roberto Marinho, a primeira opção tem uma dose menor de hipocrisia.

Inventando a roda
Preciso em suas declarações, Oscar Wilde causou polêmica ao afirmar que a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida . Certo ou não, o fato é que a turma do Planalto, por inexperiência, acaba inovando em determinadas situações. Se o presidente Lula acredita ter domado, até certo ponto, a volúpia política de seu convidado maranhense José Sarney, não tem motivos para apostar na mesma direção em relação a Fernando Henrique Cardoso, principalmente se analisadas as estocadas tucanas na direção do Palácio do Planalto. Como FHC já comunicou ao PSDB que o seu nome deve ser incluído na lista dos presidenciáveis para 2006, o presidente Lula acaba de produzir, sob a ótica da política, uma paródia do filme Dormindo com o Inimigo. Vem aí, Viajando com o Inimigo.

Duas medidas
O calvário imposto ao mundo pelo Vaticano, desde o último sábado, termina hoje. Jamais a morte de alguém foi tão vergonhosamente explorada, a ponto de levar milhares de veículos de comunicação, ao redor do planeta, a dedicarem edições inteiras, durante todos os dias, à morte de Karol Wojtyla. Se o catolicismo advém do cristianismo, e este está diretamente ligado a Cristo, é preciso lembrar que o homem de túnica e barba que acabou na cruz abominava o luxo e a pompa que o Vaticano insiste em exibir escandalosamente. Por outro lado, a Igreja Católica faz, pelo menos na capital paulista, uma escancarada distinção entre pobres e ricos. Se um morador da periferia quiser realizar o sonho de se casar em uma igreja da zona sul da capital paulista, o melhor é desistir. São tantas taxas e imposições, que qualquer um abandona o sonho. O florista é o do padre, o músico é o do padre, o manobrista é o do padre, o buffet é o do padre, e assim por diante. E como de costume, na mão do padre todos pingam algum. Em outras palavras, se Deus é o caminho, em São Paulo os padres são o pedágio.

Azeite quente
Vivendo muito mais do que os garantidos quinze minutos de fama, o presidente da Câmara, deputado Severino Cavalcanti (PP-PE), não percebeu que seus pares desejam vê-lo arruinado. O PP, em um ato impensado e fora de hora, lançou a candidatura de Severino Cavalcanti à Presidência da República, em 2006. Se cumprir o que prometeu, ou seja, que vai auxiliar o presidente Lula a governar o Brasil enquanto estiver no comando da Câmara, certamente vai colaborar para a reeleição do petista. Caso contrário, a candidatura de Severino é prematura, o que pode levá-lo a um processo de fritura antecipado. A não ser que este seja o objetivo do partido.

Destilando veneno
Em uma semana em que tudo gravitou na órbita da morte de João Paulo II, a vida parlamentar brasileira acabou sucumbindo à paralisação. Como ninguém é de ferro, os maledicentes que freqüentam os corredores da Câmara dos Deputados eram uníssonos ao afirmar, com certa dose de jocosidade, que, estando no Vaticano, o presidente Lula deveria negociar a indicação de Waldomiro Diniz para a presidência do Banco Ambrosiano. Assim, já é possível acreditar no lançamento da loteria dos santos, sob os auspícios desinteressados da nada santa GTech.

Totalitarismo à cubana
Dono de um currículo invejável, que vai desde palestras e conferências, proferidas em instituições reconhecidas nacionalmente, à apresentação de tese de doutorado em universidades internacionais, passando por inúmeras condecorações civis e militares, o delegado federal Antonio Carlos Rayol, um dos responsáveis pela prisão do publicitário Duda Mendonça, em outubro de 2004, está sendo vítima de uma perseguição que exibe o ranço truculento da Gestapo. Por ter concedido uma entrevista à TV Justiça, Rayol foi alvo de uma sindicância, sendo que o parecer de um outro delegado, que entendeu ser um direito constitucional a livre manifestação do pensamento, deu-lhe esperanças que pouco duraram. O departamento responsável pela sindicância discordou do parecer, alegando que o tal direito constitucional tem limitações, determinando o prosseguimento da sindicância para averiguar se houve prejuízo à imagem da Polícia Federal. Até onde se sabe, apenas ao Supremo Tribunal Federal cabe a atribuição de versar sobre a Constituição Federal. O resto é elucubração ditatorial da pior espécie.

Castelo de areia
E-mail enviado à coluna alerta para a possibilidade de fraude nas declarações do Imposto de Renda. O signatário da mensagem, enviada por correspondência ao secretário da Receita Federal, Jorge Rachid, lembra que, a partir de um cyber café, qualquer um pode entregar a declaração de renda de um desafeto, provocando uma verdadeira confusão na vida do inimigo. Basta que a entrega ocorra logo nos primeiros dias do prazo determinado pela Receita Federal, o que certamente impedirá que o verdadeiro contribuinte o faça posteriormente. Para provar o que alega, o perito judicial em informática listou, ao final da mensagem, o número dos CPF's de conhecidos políticos e ex-presidentes, aos quais retransmitiu o e-mail.

Deu a louca
Enquanto o governador Geraldo Alckmin, de olho nas eleições de 2006, se engalfinha a seu modo com o PT palaciano, alguns fatos acabam acontecendo fora do script gazeteado pelo Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista. Matriculada na Escola Estadual Di Cavalcanti, no Alto de Pinheiros, bairro de classe média alta, em São Paulo, uma aluna teve seu celular roubado dentro da escola. A mãe da garota de treze anos foi à escola para reclamar, ouvindo da diretora – o primeiro nome é Leia – que a culpa era da aluna e que era bem feito para ela. Já não bastasse o fato do ensino público ser trágico, agora apresenta o seu lado cômico. Afinal, estão tentando ensinar ao cidadão que a falta de segurança é algo corriqueiro, onde o culpado agora é a vítima. Com a palavra o governador Geraldo Alckmin.

Segura peão!
Tão logo chegou da China, onde farejou novos negócios para o Paraná, o governador Roberto Requião se pôs a cavalgar, hábito que cultiva há anos. Nos primeiros trotes, como se não reconhecesse o costumeiro ginete, o cavalo ejetou Requião da sela. Passado o susto, difícil foi convencer o governador de que o animal deveria ser poupado. Ou seja, Requião caiu do cavalo muito antes do que imaginava.

Jogando pesado
Preso sob a acusação de chefiar um grupo que dava proteção a fazendeiros no Paraná, evitando invasões do MST, o tenente-coronel Valdir Copetti Neves já fez parte da oratória de Roberto Requião. Ainda no Senado, mas em plena campanha para alcançar o Palácio Iguaçu, Requião, em um de seus discursos, não titubeou em apontar para Copetti Neves e dizer que o militar seria o seu secretário da Segurança. Certo ou não, o fato é que ao ser relaxada sua prisão, o tenente-coronel deve sair atirando para todos os lados. E cuidem-se aqueles que têm o telhado envidraçado.

Carta na manga
Ainda o oficial militar... Informação obtida pela coluna, com exclusividade, dá conta que o tenente-coronel Valdir Copetti Neves teria em seu poder uma gravação em que um notório petista, com forte atuação no Paraná, afirma, com excesso de convicção, ser membro das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc. Revelado o conteúdo da fita, cai por terra a tese do diretor-geral da Abin, delegado Mauro Marcelo de Lima e Silva, que o suposto envolvimento entre as Farc e o PT não passa de uma utópica invencionice da oposição.

Jeitinho cearense
Uma nova modalidade de gestão pública começa a se alastrar pelos estados brasileiros. Depois de Minas Gerais, agora é a vez do Ceará embarcar na cantilena da gestão pública camuflada. O governo cearense, para fugir da obrigatoriedade das licitações, selou uma parceria com a Federação das Indústrias do Ceará (Fiec), que por sua vez contratou o Instituto de Desenvolvimento Gerencial (INDG). O negocismo se consumou sob a égide da desculpa que o Estado economizará R$ 100 milhões por ano, desde que desembolse R$ 5,3 milhões no mesmo período, dinheiro que será pago à Fiec, que repassará ao INDG. Em outras palavras, trata-se de uma imoral torneira de dinheiro que rega a transferência dos setores de administração e planejamento públicos à iniciativa privada. E o último que sair apague a luz, por favor.

Dolce fare niente
Pensando bem, tão logo foram abertas as portas do Aerolula, o Vaticano descobriu que não existia nenhum ateu a bordo. Já à toa...

Ucho Haddad

 

Querendo entender...

A fé de Lula é o mais novo artifício de marketing do Planalto. Por quê? Afinal, perguntar não ofende...

O melhor do esporte com o maior jornalista esportivo do país

Clique na lupa e confira os escândalos que abalaram as estruturas políticas do país.

Destaques

e-ditorial: "A visão usual da ilegalidade" - por Ucho Haddad

e-xclusiva: "Barrados no baile - o direito de voto do preso"

Resenha: "A política na bacia das almas" - por Ucho Haddad

Q.I.: "A eminência parda do cardeal" - por Pedro Luís de Campos Vergueiro

Tribuna Livre: "Fundo Internacional de Cabides" - por Ralph J. Hofmann

Prateleira Eletrônica: "As 100 Melhores Crônicas de Humor" - por Sandro Villar

Boca Maldita: Alguns dos escândalos que marcaram a política nacional

Túnel do Tempo

Boca de siri
Ao comemorar, ontem, o Dia do Jornalista, o presidente Lula pediu lealdade aos presentes à solenidade no Palácio do Planalto. O presidente disse que não vai pedir que os jornalistas falem bem do governo, mas lembrou que não se deve falar mal só por falar . Certamente, os que com propriedade falam mal do governo não estavam presentes à cerimônia. E mais: é preciso lembrar que se o presidente não pede para falar bem do governo, o BNDES está em vias de liberar R$ 4 bilhões aos endividados da mídia brasileira, com especial atenção à Vênus Platinada. O dinheiro a ser liberado pelo BNDES (US$ 1,392 bilhão) corresponde a 11,6% do necessário para a erradicação da fome no país. Diante de tal constatação, qualquer comentário seria censurado. (08/04/04)

Dica do Ucho

Novas Visões Urbanas - Retrato fiel de Heraldo Palmeira, um perfeccionista contumaz e apaixonado pela MPB, Novas Visões Urbanas é um tributo ao talento e à competência, ingredientes raros na nova safra musical brasileira. Além do preciosismo de Ilha Bela, Cartão Postal e Grupo de Risco, de autoria de Heraldo Palmeira, o repertório do CD tem seu ponto alto em arranjos marcantes, como acontece na consagrada Baixa do Sapateiro, de Ary Barroso, e Agora só Falta Você, de Rita Lee. Novas Visões Urbanas é o Nirvana da discografia nacional.

Editora Senac São Paulo

A costura do invisível - Em 17 de junho de 2004, no maior evento de moda da América Latina – o São Paulo Fashion Week - o estilista Jum Nakao realizou uma performance em que, ao final do desfile, as modelos rasgaram elaboradíssimas roupas de papel vegetal construídas em mais de 700 horas de trabalho, que envolveram cerca de 150 profissionais. Todas as etapas desse processo foram documentadas em fotos, vídeos e fotogramas, dando origem ao livro e DVD A costura do invisível, lançados pela Editora Senac São Paulo.

www.editorasenacsp.com.br

 

 

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